O suicídio de Getúlio Vargas e a crueldade impatriótica da direita

Suicídio de GetúlioPrezado Professor Sidney Melo

 

 

Hoje é um dia melancólico de um tempo de incertezas e de desafios.

 

 

Premido e deprimido por uma conjuntura política Getúlio Vargas deu-se um tiro no peito no dia 24 de agosto de 1954, há 61 anos.

 

 

O contexto era político, mas o tiro explodiu o coração de um homem.

 

 

Na sociedade as pessoas se confundiam com a propaganda de um farsante e traidor da pátria, eternizado como Carlos Lacerda.

 

 

O Congresso Nacional serviu de palco para as escaramuças e pressões para derrubar o Presidente nacionalista e apaixonado pelo Brasil. De um lado, os patriotas defendiam a democracia e o Presidente ameaçado de golpe, de outro, os golpistas sujos tramavam a destruição das conquistas do povo.

 

 

O povo, como sempre, à distância, era enrolado na confusão espalhada pela elite golpista e invejosa.

 

 

Enquanto Getúlio Vargas se mantinha em silêncio, articulando a mídia o cão vira latas das multinacionais, Carlos Lacerda, vomitava ódio em cima da população, com isso querendo inventar “um mar de lamas” onde chafurdava o Presidente e o governo.

 

 

O Presidente que acolheu a formação de uma classe trabalhadora robusta e conquistas dos direitos trabalhistas, historicamente incontestáveis, se encontrava ameaçado de ser derrubado. Irresponsáveis e odiosos ameaçavam mobilizar uma massa informe e deformada com o objetivo de destruir a estabilidade do governo.

 

 

Impressiona o fato de os ruídos produzidos por causas falsas e veiculados com fúria ganhassem força por algum tempo. A repercussão foi tão grande que ensurdeceram e anularam a razão de um povo alijado e excluído, como escreveu o Presidente na sua carta testamento: “Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

 

 

Na solidão, vendo suas bases se partirem e se desunirem, o homem Getúlio não aguentou e atirou contra si mesmo.

 

 

A perseguição a que o Presidente Vargas foi exposto com tanta impiedade é monumento ao ódio e à capacidade egoísta da classe dominante nas suas manifestações fascistas e de direita.  Getúlio sucumbiu perdendo a vida por não ser de direita e por defender os interesses nacionais e populares.

 

 

Muitas vezes me flagro transitando imaginariamente pelos corredores, escritórios e quartos do Palácio do Catete, antiga sede do governo federal. Deparo-me com um homem esgotado e sofrido pelos ataques absolutamente caluniosos e criminosos de homens ruins e impiedosos.

 

 

Há pessoas de tão más e obcecadas pelo poder que não titubeiam em desgraçar outros seres humanos. Os injustos não tiveram compaixão de Getúlio nem relevaram seu sofrimento sem par.

 

 

Na angústia do Presidente vejo formulações que o chefe da Nação fez para resolver a crise, que se desmancharam nas brisas do mar que chegavam ao Palácio.

 

 

Vi um ser humano caminhando pelos corredores, fumando seu charuto, decidido a lutar pelo Brasil e por ele entregar a vida, cujas forças diminuíram e se esvaíram como areia entre os dedos.

 

 

Getúlio não conseguia sentar-se por muito tempo porque o nervosismo o assombrava.

 

 

Sentia a cada hora que suas ordens não eram obedecidas e que nem mesmo o seu fiel amigo Gregório o entendia. O círculo se fechava.

 

 

Olhei para a rua e escutei as rádios com alto falantes espalhados por árvores e postes no Rio de Janeiro. Deles ouçi, enojado, a voz e dramaticidades do mentiroso da República. Carlos Lacerda pregava a renúncia do Presidente e pressionava o vice para que assumisse em seu lugar, praticando uma política conservadora de reposição dos inimigos do povo no poder.

 

 

O fanfarrão da República berrava que não era mais possível o País aguentar um governo corrupto.

 

 

Ameaças à ruptura democrática cresciam em todas as direções. Havia apelos irresistíveis para que as forças armadas dessem um golpe militar e derrubassem o Presidente. A economia entrava em crise.

 

 

Há autores que me ajudam a sentir o terror vivenciado pelo Presidente ao constatarem que o golpe dado 1964 armara-se para acontecer em 1954, quando o homem se suicidou.

 

 

Enfim, o Catete é espantoso para mim como um ninho de corvos. Lá dentro, sufocado pelas mentiras, pelas calúnias e pelos instintos mais subterrâneos que visavam destruir o ser político, Getúlio jogou seu cadáver sobre o Brasil.

 

 

Com isso o povo rapidamente se deu conta de que fora enganado pelas mentiras de Carlos Lacerda. Tanto, que esse se escondeu numa caixa d’ água e de lá correu para o exterior para fugir da fúria do povo, que percebeu que, no fundo, Lacerda acionara o gatilho do revólver que projetou a bala mortal no peito do Presidente e dos direitos dos trabalhadores.

 

 

É esse o espírito da carta testamento escrita pro Getúlio Vargas. Aqui destaco um parágrafo, muito atual em nossa crise: “Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.”

 

 

Em 1962, expressando a repercussão da morte de Vargas, Teixeirinha, cantor e poeta popular gaúcho,  escreveu e cantou:

 

 

“Vinte e quatro de agosto
A terra estremeceu
Os rádios anunciaram
O fato que aconteceu,
As nuvens cobriram o céu
O povo em geral sofreu
O Brasil se vestiu de luto
Getúlio Vargas morreu!

 

Seu nome ficou na história
Pra nossa recordação
Seu sorriso era a vitória
Da nossa imensa nação
Com saúde ele venceu
Guerra e revolução
Depois foi morrer a bala
Pela sua própria mão.

 

 

  • Abraços críticos e fraternos na luta pela paz e pela justiça sociais.

  • Dom Orvandil, OSF: editor deste blog, idealizador e presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário.

 

 

 

 

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