Carta da Deputada Maria do Rosário a um policial preconceituoso

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Amigas e amigos

Vivemos uma conjuntura coberta por imensas dificuldades para dialogar.

Creio que vivemos situação assim logo após o golpe militar com a eliminação dos debatedores, estudiosos e dialogantes honestos, sinceros e respeitadores.

O que se vê é a coroação da falta de respeito, fruto da miséria intelectual e do sufocamento da inteligência das pessoas.

Predominam os preconceitos e fundamentalismos a partir dos quais as pessoas não conseguem mais separar ideias dos fatos e mentiras da mídia manipuladora do esforço coletivo para a compreensão do que realmente acontece, sobretudo com as ameaças aos direitos sociais e humanos.

É preciso destacar que essa postura insana e doentia predomina nos chamados coxinhas, analfabetos políticos, nos fascistas e até nos panfletários de esquerda.

Abaixo posto uma carta que a Deputada gaúcha Maria do Rosário mandou a um policial no esforço de debater com ele os conceitos mais profundos que definem os direitos humanos e que descontroem as borrascas dos preconceitos impostos sem reflexão às pessoas.

É uma tentativa interessante e rica de generosidade.

A Deputada Maria do Rosário construiu um legado na defesa dos direitos humanos, principalmente dos adolescentes e jovens agredidos pela sociedade dos cheirosos e endinheirados.

Por causa de sua postura é perseguida por fascistas e nazistas como Jair Bolsonaro que, em discurso da tribuna da Câmara dos Deputados, foi “capaz” de pronunciar a indecência da frase que faz parte do banner que integra a ilustração dessa postagem.

Fora Temer!

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.

  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapazbispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.


MARIA DO ROSÁRIO: Deputada federal (PT-RS) e ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Carta ao soldado Cleber

21 de Outubro de 2016

Prezado soldado Cleber,

Dias atrás você flagrou um adolescente furtando um carro pela quarta vez em pouco mais de um mês e expôs, na rede social, um depoimento que pode ser considerado um desabafo. Um desabafo frente a um cotidiano de violências enfrentado por ti, por teus colegas e pela sociedade como um todo.

Em determinado momento, citas o meu nome como o de alguém que ajudaria a proteger esse adolescente em conflito com a Lei e, em tese, promover situações de insegurança. Confesso que em um primeiro olhar, em contato com o vídeo, tive um sentimento de profunda indignação, visto que são inverídicas as afirmações que você faz. Após alguns instantes, percebi que eu e você sofremos com um conjunto de rótulos, pressões e cobranças que nos incomodam, que nos fazem sentir injustiçados. Assim, optei por dialogar com você.

Durante toda a minha trajetória jamais pactuei com a violência ou com práticas criminosas, venham de onde vierem. Por isso, desde já quero parabenizá-lo pelo cumprimento das tuas responsabilidades como policial militar, agindo no combate ao crime. Sei que o seu cotidiano também é permeado pela exposição à violência e que diariamente trabalhadores da segurança pública sofrem atentados contra a própria vida. Inclusive, em 2014, apresentei o PL 7478, que aumenta a pena nos crimes de homicídio e lesão corporal quando praticados contra agentes públicos, em especial, policiais civis e militares. Esse projeto foi apensado ao PL 846/2015, aprovado e já é Lei, de número 13.142, de 6 de julho de 2015.

Veja, não sou “defensora de bandidos”, calúnia recorrente em postagens falsas e mal-intencionadas nas redes sociais contra mim. É o tipo de afirmação que não tem nenhuma base na realidade (nos últimos anos apresentei nove projetos na área da segurança pública – nenhum beneficia infratores), que são promovidos pelo submundo do conservadorismo.

Sempre defendi o rigor da Lei, o respeito à dignidade e ao valor de cada pessoa. Defendi e defendo a valorização de vocês, policiais, para que tenham condições dignas de exercício da profissão em acordo com a Constituição Brasileira.

Talvez essa percepção que você expressa no vídeo tenha decorrência do meu posicionamento contrário à redução da maioridade penal. Cleber, não há dúvida de que a prisão reiterada de adolescentes envolvidos em delitos seja frustrante para a polícia e para a comunidade. Mas ambos sabemos que reduzir a maioridade penal para 16 anos não resolveria os problemas da segurança pública no Brasil. Você que conhece o modo de operação das organizações criminosas de perto, por enfrentá-las, sabe que elas começariam a “recrutar” adolescentes cada vez mais jovens. Além disso, o nível de reincidência no sistema sócio educativo é infinitamente menor que no sistema prisional.

Esses fatos com os quais você convive, como a repetição da criminalidade por um mesmo indivíduo, devem servir de alerta ao Poder Judiciário, ao Ministério Público e aos Poderes Executivos de todas as esferas, além da sociedade, para formar um verdadeiro pacto por outra segurança pública, já que a que temos, não está dando certo. O que temos hoje é o quarto país que mais prende no mundo e mesmo assim a violência cresce. O que temos hoje são polícias mal remuneradas e com pouco recursos para aquisição de equipamentos e treinamento. O que temos hoje é a proliferação de conflitos de toda a ordem e a perda do sentido de comunidade em nossas grandes e médias cidades. O que temos hoje são índices inéditos de homicídios, além de outros atentados contra a vida.

Meu desejo é que possamos trabalhar juntos. Eu, você, trabalhadores em segurança pública, sociedade, representações institucionais, para que possamos dialogar, ouvir um ao outro, pensar e propor soluções. Não somos inimigos, eu e você. Sou a única professora e a única mulher entre os deputados federais gaúchos. Sou uma das poucas em todo o Congresso Nacional que enfrenta a violência sexual contra crianças e adolescentes, que debate política para a pessoa idosa, que trabalha o tema de gênero e sua proteção. Desenvolvo trabalhos importantes, assim como você, soldado Cleber, e acho injusto que não possamos dialogar, preferindo os rótulos equivocados que nos impõem.

Um fraterno abraço,

Maria do Rosário

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