Martírio de Guilherme da Silva Neto e a intolerância

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Caro amigo Bruno Elias, Brasília, DF

Goiânia anoiteceu em estado de choque ontem, dia 15 de novembro. O Brasil todo reflete sobre o assassinato de  Guilherme da Silva Neto, um jovem de apenas 20 anos, estudante de matemática da Universidade Federal de Goiás.

Comenta-se muito em Goiânia sobre esse crime e o suicídio do pai logo após matar o próprio filho. As redes sociais trepidam de comentários e de solidariedade aos familiares de Guilherme.

Entrevistas de testemunhas, de policiais e delegado encarregado das investigações configuram uma relação autoritária do pai com seu único filho.

O conflito que culminou nessa barbaridade, independente de detalhes técnicos periciais, denota campos ideológicos violentamente contraditórios mais do que a possessividade neurótica do progenitor, fortemente contrário à militância de Guilherme.

As tensões causadas pela participação de Guilherme (leia mais aqui no me artigo desta madrugada) nos movimentos estudantis de resistência ao golpe em sua forma de emenda constitucional para restringir os direitos sociais e os investimentos na educação e na saúde, redundando em perseguição pelas ruas do seu bairro, mostram a que nível desumano e destrutivo pode subir a intolerância.

Há anos campanhas moralistas e fundamentalistas dão alimento para as feras assassinas que perseguem gays, progressistas, comunistas, anarquistas e combatentes que lutam contra a barbárie que se abate sobre o Brasil. A bestialidade se engatilha nos parlamentos com legisladores armando bombas “legais” para detonar o povo. No judiciário onde pregoeiros fundamentalistas apontam os dedos sujos movimentados por mentes “convictas” e vazias de justiça para perseguir e prender sem investigar e sem respeitar. Judiciário e parlamento dão-se as mãos para esmagar a democracia dando golpe de Estado.  Aliás, o golpe é filho e pai da intolerância, numa anomalia sem fim.

Nas ruas policiais a mando de facínoras governantes autoritários atiram em estudantes e jovens indefesos, furando-lhes os olhos e até tirando as vidas de trabalhadores.

O clima de guerra civil é adubado todos os dias pela mídia familiar e golpista com suas programações e noticiários de entupir esgotos.

O deboche do usurpador, mau caráter e golpista MiShel Temer se repete para desmoralizar os estudantes que resistem a indecência da PEC 55/2016.

O engenheiro Alexandre apertou várias vezes o gatilho de seu revólver matando seu filho Guilherme numa tradução familiar do que acontece em todo o País.

O fato é que Guilherme não era marginal nem bandido como os golpistas nem traficante de quaisquer drogas. Morreu porque trilhava o caminho justo da luta, da coragem e da resistência.

Guilherme não foi vítima da alienação que mata a juventude do sentido da vida de luta movida a sonhos e estudos de uma nova sociedade.

Com um revólver em punho o senhor Alexandre fez o que Temer, Marconi, Beto Richa, Alckmin, José Sartori, Pezão, policiais, juízes e a mídia tanto desejam para nossa juventude: eliminá-la.

Sempre ensino aos meus alunos que a ideologia é um mecanismo fantástico. Os grandes criminosos que ocupam o Estado burguês, amigos dos capitalistas rentistas e do dinheiro parado sem vida e sem partilha (como denunciou o Papa Francisco), não precisam destruir pessoalmente a juventude rebelde com a injustiça. Basta que fanatizem policiais, patrões, donos de escolas, padres, pastores, pais, mães, juízes, parlamentares e governantes, que se encarregam de sacar de suas armas para matar e eliminar inteligências jovens.

Foi o que aconteceu a Guilherme da Silva Neto. Os macros bandidos usaram seu pai para exterminar um jovem promissor, um futuro grande educador e, quem sabe, um co-revoluncionário.

Por isso a jovem estudante Ana Júlia Pires Ribeiro acerta quando afirma que o mais importante é o movimento coletivo. Podem matar um ou dois estudantes e jovens, como têm feito às pilhas nos bairros pobres, mas nunca matarão uma corrente, uma multidão de lutadores.

Da barbárie que ceifou as vidas de Guilherme, seu filho, e de Alexandre, seu pai, levanta-se o grito pela superação da intolerância e pela insistência na educação da cultura do diálogo e da paz, contra a cultura do ódio e da guerra.

Resistir a falar e agir de cabeça quente é fugir das zonas conflitivas pobres de tática e escuras de estratégia. Cabeça quente é depósito de resíduos intolerantes.

É verdade que a luta é irrefreável e não parará. Mas é verdade que o diálogo tem que superar a doença da intolerância que leva logo para o bate-boca,  para falas sem o dom da escuta pacienciosa e sem a construção de campos comuns de entendimento.

O noticiário do triste episódio que nos abala também menciona que o pai Alexandre discutia muito e autoritariamente com Guilherme, mas que também amava muito o filho. Acredito, por ambíguo que seja.

Mas o que se pronunciou foi o autoritarismo mortal. O amor perdeu. Temos que nos educar todos para assegurarmos o amor e sua coerência no discurso e na ação.

Nada é mais importante do que a vida, do que a paz nascida da justiça que busca relações justas e tolerantes, sem querer massacrar a riqueza das diferenças.

O sangue mártir de Guilherme irriga nossa terra e nossa consciência, alastrando a capacidade de diálogo e de negociação.

Guilherme da Silva Neto, presente! Viva Guilherme! Viva a educação da paz e da luta pela justiça social!

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapazbispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

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