O Papa Francisco, o terrorismo e o “fora Temer”

papa-no-3o-encontro

Querida amiga Maria da Paz Bessa, Fortaleza, Ceará

Cumprimento-a por seu aniversário nesse 16 de novembro. Parabéns pela vida de uma mulher que existe andando pelo caminho correto da história, aquele que projeta as pessoas na luta pelas mudanças sociais.

Ao tratar da proposta desta postagem não custa nada relembrar que o que as autoridades religiosas tratam no interior de suas confissões são somente do interesse de suas comunidades e instituições. Porém, quando abordam temas do interesse geral transbordam suas hierarquias para atingir a toda a humanidade.

Este é o caso dos Papas João Paulo II e Bento XVI. O primeiro empenhou-se pessoalmente no destroçamento da União Soviética e, com isso, só aumentou a desgraça no mundo. Sua perseguição aos padres e religiosos que se entregaram à luta pela libertação dos povos latino americanos beirou a atitudes inquisitoriais desumanas contra a ciência e contra a razão.

O cardeal Joseph Aloisius Ratzinger foi o braço direito e perverso de João Paulo II no reforço do conservadorismo que favoreceu o afastamento da Igreja do povo e das lutas, ajudando o imperialismo na formação do pensamento único neoliberal que massacrou os povos e as nações nas suas autodeterminações. A Igreja Romana passou a ser instituição formal e suas missas apenas acontecimentos em si mesmos e de altar, debilitando as pastorais sociais de conteúdo libertário e popular.

Isso ajudou a dar fôlego ao imperialismo e influenciou negativamente até o movimento ecumênico no mundo, intimidando e desvirtuando as igrejas não romanas e evangélicas, que descambaram para um carismatismo conservador, alienante e colaborador do fascismo.

Agora, com a eleição do Papa Francisco, renascem os avanços da era de João XXIII e de Paulo VI.

A partir de impressionantemente fiel relatório (aqui) do Encontro Mundial dos Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco, elaborado pelo meu amigo João Pedro Stédile, líder nacional do MST, e do discurso (aqui) contundente do próprio Francisco, feito no encontro, percebo o radical compromisso pontifício com as mudanças necessárias.

Nos dias 2 a 5 de novembro 200 delegados de 60 Países se reuniram no Vaticano com o Papa Francisco.

Exatamente ao contrário da omissão dos outros Papas e até colaboração com o capitalismo destrutivo da dignidade humana e do sistema ambiente, o Papa Francisco se soma ao senso de mudanças deste caos em que está o mundo, segundo descreve Stédile sobre o encontro: “esse processo de debates e diálogos entre o Papa Francisco e os movimentos populares partiu de uma vontade política do pontífice, de dialogar e dar protagonismo aos movimentos populares em todo mundo, como estímulo à organização dos trabalhadores e dos mais pobres, como esperança e necessidade para as mudanças necessárias no sistema capitalista.”

Esse processo interessa a toda à humanidade e ultrapassa os limites da Cúria Romana e da Igreja Católica, até porque o Papa pediu preferência quanto à participação das delegações no sentido de que fossem escolhidas dos movimentos fora das pastorais populares, relevando etnias, religiões, idade, culturas e equidade de gênero.

Neste terceiro encontro mundial, depois de estudos e diálogos aprofundados desde os dois anteriores das causas da miséria, da pobreza e das injustiças a que são jogados os pobres e os trabalhadores Francisco mostrou-se um Papa consciente de que os problemas sociais não se originam de um mal abstrato ou num diabo ideal, mas no capitalismo e seu estado terrorista objetivo.

De modo didático e de fácil entendimento o Papa Francisco surpreendeu e assombrou os presentes no encontro e o mundo quando discursou e denunciou: Quem governa?”, perguntou. “O dinheiro”, ele mesmo respondeu. “Como governa? Governa com o chicote do medo, da iniquidade da violência econômica, social, cultural e militar, engendrando mais e mais violência numa espiral  descendente que nunca termina. Quanta dor, quanto medo! Há um terrorismo de base que emana do controle global do dinheiro sobre a terra e atenta contra a humanidade inteira derivados como o narcotráfico, o terrorismo de Estado e o que erroneamente alguns chamam de terrorismo étnico e religioso. Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É certo, há pequenos grupos fundamentalistas em todos os lados. Mas o terrorismo começa “quando se descarta a maravilha da criação, o homem e a mulher e põe no seu lugar o dinheiro”, disse Francisco.

Depois de descrever o drama das vítimas dos donos do dinheiro, que é o centro do terror e dos interesses de poucos (como já mostrei nesse vídeo),  para identificar sua compreensão da tragédia do capitalismo através dos Estados terroristas, Francisco ilustra com o exemplo emocionante frente à tragédia dos refugiados das guerras,  contando com as palavras “de meu irmão o Arcebispo Jerônimo de Grécia: “Quem vê os olhos das crianças que encontramos nos campos de refugiados é capaz de reconhecer de imediato, em sua totalidade, a “bancarrota” da humanidade” (Discurso no Campo de refugiados de Moria, Lesbos, 16 de abril de 2016). O que se passa com o mundo de hoje que, quando se produz a bancarrota de um banco imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando se produz esta bancarrota da humanidade não há quase  nenhuma milésima parte para salvar a esses irmãos  que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo se há convertido em um cemitério, e não somente  o Mediterrâneo… tantos cemitérios junto aos muros, muros manchados de sangue inocente.

O medo endurece o coração e se transforma em crueldade cega que se nega a ver o sangue, a dor, o rosto do outro. Disse o meu irmão Patriarca Bartolomé: “Quem tem medo de vós não os há olhado nos olhos. Quem tem medo de vós  não há visto vossos rostos. Quem tem medo não vê a vossos filhos. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem  o medo e a divisão. Esquece que a migração  não é problema do Oriente Médio e do norte da África, de Europa e da Grécia. É um problema do mundo” (Discurso no Campo de refugiados de Moria, Lesbos, 16 de abril de 2016).

No terceiro Encontro Mundial dos Movimentos Populares o Papa indica o caminho do ser e do agir cristão e político, hoje.

No Brasil, como há muito denuncio e analiso aqui, sofremos as consequências que se agravam desse centro global do dinheiro – do capitalismo sempre terrorista e perverso – em forma do golpe judicial-parlamentar, cujo processo deteriorante da democracia começou imediatamente após as eleições de 2014.

A miséria, a pobreza, o desemprego, a violência do Estado terrorista, ocupado por usurpadores, mentirosos e maus caráteres, o pior segmento político brasileiro, são as marcas da tragédia denunciada corajosamente por Francisco.

Assim como o Papa animou a que os movimentos populares assumam seu protagonismo e sua luta, cabe-nos denunciar esse estado de degradação de nossos direitos, como o fazem os estudantes secundaristas, universitários e vários setores sociais e realmente viremos esse quadro terrorista com policiais a serviço do horror.

Assim como o mal não é abstrato o bem também não o é. É absolutamente necessário engrossar a luta com a participação e a unidade de todo o povo brasileiro.

Convido João Pedro Stédile a encerrar esta postagem com o que nossa delegação fez na Praça São Pedro para denunciar o golpe no Brasil.

“De nossa parte, da delegação brasileira, levamos uma faixa com “Fora Temer”, em plena praça da Basílica de São Pedro, denunciando o golpe por aqui e saímos convencidos de que, além de São Francisco de Assis, agora temos mais um Francisco revolucionário na Igreja,” relatou Stédile.

Clique aqui para acessar o Canal CRP no You Tube.  Inscreva-se no Canal. E aqui para curtir nossa página no Facebook.

  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapazbispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

2 Comment

  1. Victor Alhambra says: Responder

    li na imprensa estrangeira (de esquerda e de direita) que o nosso progressista Papa Francisco está denunciando a ideologia de gênero como a mais perversa praga que domina o mundo atual. Verdade? A GLOBO não divulgou, nem o prezado e respeitado articulista……estou meio perdido…….

  2. […] o Estado burguês, amigos dos capitalistas rentistas e do dinheiro parado sem vida e sem partilha (como denunciou o Papa Francisco), não precisam destruir pessoalmente a juventude rebelde com a injustiça. Basta que fanatizem […]

Deixe uma resposta

contador de visitas gratis