Leonardo Boff e a crise perversa na educação, na saúde e o desmonte intencional da UERJ

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Certa vez solicitei licença ao filósofo e teólogo Leonardo Boff para publicar em meu blog um de seus textos. Sua resposta não inesperada e coerente com ele mesmo foi a de que seus textos são disponíveis a todos já que o conhecimento deve ser democraticamente compartilhado.

 Boff, um dos meus teólogos preferidos, para nossa honra brasileiro, também já me deu a subida alegria de publicar em seu blog alguns de meus textos aqui assentados quase sempre em forma de carta.

 Agora me sinto a vontade e provocado a publicar seu maravilhoso artigo a respeito do desmonte da UERJ, universidade amada por nosso professor que lá lecionou depois de perseguido pelo vaticano ocupado e governado pelo ódio da Opus Dei.

 Valorizo imensamente os textos que brotam grávidos da vida, do suor, do  sangue e da luta pela libertação. Esse é o caso do presente artigo de Leonardo Boff.

 Seu olhar crítico, rebelde e propositivo vê o destroçamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que tenho o privilégio de conhecer e de lá discursar mais de uma vez, como parte de dois pontos de partida para a análise. Um é o dos que vislumbram a educação e a saúde de um povo como sagrados e rigidamente dignos de defesa mesmo com sacrifícios de outros investimentos,  como se pode ler em seu texto abaixo. O outro é o dos endiabrados como Temer, Pezão, PMDB, PSDB, PPS, DEM e outros excrementos do inferno que tudo fazem para matar o povo nas doenças e na ignorância.

 Leonardo Boff menciona sua experiência intelectual a partir da UERJ, mas sempre vivenciando a vida dos povos e lideranças populares na busca da construção da justiça social. É um texto maravilhoso. Leiam carinhosamente e compartilhem!

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Dom Orvandil se disponibiliza a treinar educativamente em qualquer parte do Brasil – escolas, universidades, empresas, sindicatos, igrejas, associações de moradores, famílias etc –  através de seu curso “Irmanados no amor, na justiça e na paz”. Trabalham-se questões como a gentiliza, a compaixão, os potenciais humanos, lideranças e relacionamentos. Veja como contatar no menu.

  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

Somos a UERJ

  • Sobre o Autor: Leonardo Boff é professor aposentado da UERJ e sempre aberto a convites de palestras e de mesas redondas.

Crise da UERJ: o governo está secando a seiva da vida intelectual e artística do Rio de Janeiro.

25/01/2017

Já se disse quase tudo e se fez de tudo em termos de crítica, de manifestações de professores, estudantes, artistas e intelectuais no sentido de salvar um dos patrimônios culturais mais caros à cidade do Rio de Janeiro: a Universidade do Rio de Janeiro, fundada em 1950. Quero ater-me a um testemunho pessoal dos anos em que fui professor de ética e de filosofia da religião naquela Universidade que teve a generosidade de me oferecer uma cátedra logo após a minha condenação ao “silêncio obsequioso”pelas autoridades doutrinais do Vaticano. Poteriormente ingressei por concurso público. Mas antes vale recordar uma política exemplar vinda de Cuba.

A dissolução política da União Soviética que apoiava economicamente Cuba nos quadros de uma política de solidariedade, seguiu-se formidável crise generalizada, pois a nova Rússia não tinha mais condições de ajudar o país. Entregou-o à própria sorte. Tudo foi duramente reduzido e reajustado. Mas dois campos ficaram intocáveis: a saúde e a educação. Aí se mantiveram todos os investimentos necessários. É conhecido o alto nível da educação e da saúde de Cuba. A razão era óbvia: um povo doente e ignorante nunca poderá levar avante qualquer projeto nacional.

Pois não é isso que ocorre no Brasil. Cortou-se na saúde e na educação. Parece que a falta de educação e de saúde obedece à lógica da dominação das classes endinheiradas e do Estado refém de suas estratégias. É mais fácil explorar um povo ignorante e doente que sadio e educado. Muito do analfabetismo e dessasistência sanitária têm raízes políticas, o que é eticamente desumano e politicamente perverso.

Assistir à derrocada da UERJ, uma das melhores universidades do país, com méritos em quase todos os campos do saber e da pesquisa, a primeira a abrir-se à política de cotas face à carência de pobres e negros, é aceitar que se mate a seiva da criatividade e se feche o horizonte de um futuro da atual geração de estudantes e de professores. Bem dizia Celso Furtado em seu “O longo amanhecer: “Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade de improvisar, de ter ou não acesso à criatividade: eis a questão”(1999,p.67). O que caracterizava a UERJ era e continua sendo sua criatividade, sua abertura a fronteiras novas, seja ligadas a pesquisa de ponta em várias áreas técnicas e na saúde –a primeira a introduzir a medicina integral – seja sua articulação com as bases populares com cursos de extenção na formação de liderenças, em direito social e em educação em direitos humanos em vários municípios, sua atuação corajosa nos conflitos de terras.

Aceitei ser professor nesta universidade à condição de que minhas aulas fossem abertas a quem quisesse das comunidades e de outros interessados. Sempre havia representantes das bases que animavam as discussões, pois eles não falam palavras, falam coisas. Minha preocupação em filosofia era levar os estudantes a pensar com suas próprias cabeças e tomar como temas de tese realidades brasileiras. Não basta saber o que Aristóteles, Heidegger, Habermas, Bergson, Deleuse ou Gatarri sabiam. Importa pensar o que sabemos. Daí nasceram teses brilhantes, como, por exemplo, uma sobre o profeta Gentileza, outra sobre espiritualidade nos tempos modernos no diálogo com a psicologia analítica de C.G. Jung. Uma estudante grávida deveria observar-se nas várias fases da gravidez e fazer uma leitura filosófico-fenomenológica no sentido de vida que ia se revelando nela. Produziu um texto, digno de publicação. Exemplos entre outros tantos.

Contudo, o que mais me impressionou nesta Universidade da qual trago as melhores lembranças e cujo nome levei a todos os países nos quais dei paletras e cursos, na Rússia, na China e até entre os samis (esquimós) perto do pólo norte, foi o ambiente de abertura e de representação do que é o Brasil real, com a presença de estudantes vindos das classes populares da Baixada Fluminese, a coexistência sem qualquer discriminação entre negros e brancos, a orientação social de todo o ensino da Universidade, com forte acento na construção de uma nação livre, criativa, soberana e insubmisa às lógicas da dominação. Há que recordar a resistência da UERJ à ditadura militar com a morte de um estudante pelos órgãos de repressão .

O lema das manifestações é “luto e luta”: luto pela agonia deste centro de excelência e luta para garantir sua existência contra o sucateamento e sua eventual privatização. Salvar a UERJ é garantir a seiva da vida intelectual e artística da cidade e permitir que o Brasil inteiro se beneficie com seus serviços sérios e excelentes.

 

2 Comment

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