Dom Oscar Romero, o santo profeta revolucionário

Dom Romero

Amado Padre Francisco Gervásio Dezem,  Gravataí, RS

Quando recebi teu livro, a mim dedicado em 25/01/215, intitulado “A dor por não amar e ser amado”, li-o, ou melhor, bebi suas 105 páginas  em poucos minutos.

Emocionaste-me profundamente com o que chamaste de “… um filete de água que brota do ventre da terra, assim como a história de minha (tua) vida.”

O ribeirão de tua vida sempre correu pelos vales, longe e até abominando os picos das montanhas onde vivem os poderosos em suas mansões como os deuses das mitologias.

Sempre fizeste parte dos pobres, dos injustiçados e enfrentaste subversivamente a dureza da ditadura imperialista-civil-militar, com quem muitos padres, bispos, cardeais e pastores conviveram em plena cumplicidade com a opressão do povo e da democracia.

Nesta semana rebentou na memória latino americana mais um desses profetas, que quando pensamos mortos se levantam de suas tumbas para continuarem a denúncia que desmascara a barbárie.  Referi-me a Dom Oscar Romero, que o Papa Francisco dos pobres beatificará como mártir vitima do ódio dos opressores.

Creio, Padre Francisco, que há pessoas tão pequenas que se diluem e somem nos pecados e crimes de suas igrejas, principalmente os da alienação e da omissão em face dos gritos dos pobres. Mas há outras que não cabem nos limites de suas confissões religiosas, esborrifando-se para o meio da humanidade. Quando isso acontece mostram, mesmo sem intenção, as manchas de suas igrejas e também os méritos de serem grandiosas no serviço humilde à humanidade.

O universo desses profetas passa ter como referência a humanidade e não mais suas igrejas incoerentes.

Quando o Papa Francisco declarou que Mons. Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, sofreu martírio por “ódio contra a fé” e que não foi assassinado simplesmente por razões políticas, ao mesmo tempo a história dos conflitos de classe mostram que nosso arcebispo foi alvo do ódio dos esquadrões da morte da ditadura salvadorenha.

Dom Romero não foi assassinado a tiros na capela do Hospital da Divina Providência em São Salvador porque era arcebispo católico. Foi alvo dos tiros da ditadura militar e de seus esquadrões da morte porque sua opção preferencial pelos pobres o colocou em campo oposto ao dos ricos e proprietários que dominavam o pequeno El Salvador, como dominam toda a América Latina.

A prova desse domínio destrutivo da organização do povo no sentido de avançar na conquista da realização profunda dos direitos humanos é o fato de o major Roberto D’Aubuisson ser o autor intelectual do seu assassinato. Dom Romero era amigo pessoal desse chefe do bando de esquadrões da morte.

Dom Oscar Romero era amigo do presidente do seu País e dos ricos que participavam das missas dominicais quando percebeu que eles se moviam por trás das chacinas de agricultores trabalhadores, de jovens que estudavam teologia e de muitos padres, sacrificados porque fizeram opção preferencial pela causa dos pobres.

Rapidamente o arcebispo ainda quando bispo do interior fez a transição de uma visão ingênua de quem não percebia que as causas da miséria e da pobreza estavam na casta dominante do estrato social rico do País. Esse setor se dispunha muito mais a matar o povo e gastar com armas para chacinas em massa do que em resolver os problemas humanos e sociais de El Salvador.

No seu processo de conversão dom Romero passou a dedicar seu ministério episcopal a defender os direitos dos pobres e a denunciar a elite dominante e sanguinária de seu País. Com isso converteu-se numa voz profética amada e respeitada em toda a América Latina e pelo mundo.

Creio, padre Francisco, que o fato da beatificação de Oscar Romero agora revela pontos importantes nesse contexto de sombras que vivemos em nosso Continente.

Um é o de que a religiosidade de quem apenas reza e dá dízimos não significa nada em termos de se afirmar que isso é cristianismo. Muitos que rezavam na catedral de São Salvador mataram quem lutava pela mudança de estruturas e pagavam mal seus trabalhadores arrancando-lhes o coro com carne e tudo.

Nessa linha se encontravam e se alinham muitos padres e bispos que consideravam Romero nefasto à igreja, como narra o teólogo Juan Hernández Pico numa entrevista ao site Instituto Humanista da Unissinos.  Parte desse clero levantava boatos diabólicos, levando-os até ao Vaticano com o objetivo de destruir a reputação daquele que veio a ser martirizado com um tiro em plena missa.

Muitas igrejas ainda hoje, e não somente a católica, são eivadas desse tipo de falso cristão. Nosso Congresso Nacional no Brasil está cheio deles, bem como Assembleias Legislativas, Câmaras de de Vereadores e até prefeitos.

A anunciada beatificação do já considerado santo Romero é também uma gritante denúncia das máscaras do falso cristianismo.

Outro ponto é o que mostra o transbordamento de Dom Oscar Romero para o meio da humanidade como única possibilidade de um cristianismo coerente com Jesus. Isto é, o cristianismo que vale é o que tem a marca profética dos que são capazes de ver e denunciar lutando o enorme fardo das injustiças sociais que esmagam principalmente os pobres e miseráveis.

Dom Oscar Romero não será um santo somente católico romano, mas um mártir latino americano, que soube ser cristão dentro de sua igreja e para fora dela.

Por isso vale a pena guardar suas palavras pronunciadas num sermão no dia 04 de dezembro de 1977: “A religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve os clamores das injustiças não é a verdadeira igreja de nosso Divino Redentor.”

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

 

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