O dia internacional da mulher é luta e não flores, jantares e motéis

Lugar da mulher

Querida Professora Carla Centeno, Campo Grande, MS

Agradeço sua deferência em solicitar a inclusão do seu nome na minha lista de preciosas amizades. Acolhê-la é acalentar a educação, a inteligência e a coragem femininas.

A conjuntura faz do 08 de março de 2017 comemoração especialíssima.

É necessário agendar essa data relevando o verbo comemorar, que desemboca em “comemoração” porque se origina do  latim commemoratio, de commemorare – “lembrar-se, trazer à mente”, de com-, intensificativo, mais memorare, “lembrar-se”, de memor, “aquele que se lembra”. E “memor”  provavelmente vem  do sânscrito smarami, signidando “lembro-me, desejo”.

Lembrar honesta e intensamente da origem do “dia internacional da mulher” é resgatá-lo historicamente da decadência que o resvala para a deterioração do romantismo machista e burguês atuais.

Li há algum tempo em algum lugar uma estatística que informava que neste dia as floriculturas, restaurantes e motéis registram movimentos acima da média.

Homens se apresentam sedutores e galanteadores com as mulheres, propondo-lhes prazeres loucos, desde que em troca contem com sua submissão e exploração na tripla jornada, notadamente como serviçais sexuais e prestadoras gratuitas dos serviços domésticos. É incrível que muitas das mulheres esperem por isso e se sintam prestigiadas pelo romantismo machista.

A aparente inocência desse romantismo sexista objetiva sepultar a história revolucionária envolvendo as mulheres desde o nascimento da concretização do capitalismo através da revolução industrial.

Ao contrário do romantismo tosco, as mulheres submetidas a violentas explorações desde os primeiros dias até o apogeu da revolução das máquinas na Inglaterra, expandindo a escravização pelo mundo onde o capitalismo crescia, descobriram desde cedo que o machismo se alimenta dos detritos da exploração da mão de obra.

Tanto é assim que as explosões libertárias das mulheres nas fábricas nos Estados Unidos, principalmente as têxteis, as levou ao enfrentamento do patronato atrasado, do judiciário policialesco assassino e do Estado burguês perverso.

Nas lutas as mulheres trabalhadoras foram heroínas e mártires da impiedade patronal e estatal capitalista, como se pode ler em várias obras praticamente clássicas, principalmente escritas por mulheres consagradas internacionalmente, como é o caso da combatente e autora russa Alexandra Kollontai.  

As lutas e marchas das mulheres trabalhadoras foram absolutamente decisivas na Revolução Russa de 1917.

Cansadas de ver seus companheiros e filhos mortos na aventura da primeira guerra mundial, para cujo holocausto e morticínio Czar enviou milhares para morrer, usando depois a mão de obra feminina na produção industrial e agrícola, desumanamente massacrada salarial e pelas longas jornadas diárias de trabalho escravo.

No alvorecer da revolução que se enraizava nas massas as mulheres despontaram com papel decisivo na derrubada do regime atrasado e iníquo czarista, que se sustentou por séculos com o apoio de um cristianismo eivado de preconceitos contra as mulheres e contra sua rebelião à exploração.

O 08 de março escoa pela história robustecido por uma greve iniciada no dia 23 de fevereiro de 1917, na Rússia, em grandiosa  manifestação organizada por tecelãs e costureiras de Petrogrado, constituindo-se em estopim da primeira fase da Revolução Russa.

Portanto, o 08 de março tem origem e significado na luta revolucionária bem para além do sexismo machista, patriarcal e capitalista, que fazem da mulher objeto de cama, mesa,  mão de obra barata e escrava.

No Brasil, nesta conjuntura, as mulheres retomam a comemoração timbrada pela memória  revolucionária original.

Muitos itens compõem as pautas variadas da luta, mas em todos eles há dois pontos de unidade como a energia que fará deste dia, neste ano, uma data memorável e de provável porta de abertura de movimentos grandiosos contra as novas marcas da opressão capitalista e machista.

Um dos pontos sensíveis para as mulheres é o fato de o golpe judicial parlamentar derrubar da república a primeira mulher presidenta, caluniada, injuriada e acusada de crimes que jamais cometeu.

Levantar a questão do retorno da presidenta Dilma Rousseff ao cargo surrupiado por machistas perversos, atrasados e ladrões é questão de honra não só para as mulheres, mas para a Pátria e a para a democracia brasileiras, aliás, ambas femininas.

Essa honra política e ética é a solução que se antecipa e se prioriza à proposta abstrata e inexequível de eleições gerais.

A luta deste ano, encabeçada pelas mulheres, lavará a honra do Brasil e de todo o povo ao lutar pelo retorno da presidenta Dilma.

É inaceitável  que um bando quadrilheiro ocupe o poder contra tudo e contra todos, principalmente em desfavor das mulheres!

O outro ponto unificador da luta revolucionária do dia internacional da mulher de 2017 é o pacote safado de maldades do golpista Michel Temer.

Aumento da carga horária, diminuição de salários, esticamento da idade da aposentadoria e afronta de todos os direitos trabalhistas são sujeiras crassas que serão enfrentadas pelas mulheres, as vítimas brasileiras da opressão modelo czarista russo.

Esse panorama massacra as mulheres fazendo pesar opressivamente sobre elas a tripla e desumana jornada.

Daí a comemoração deste dia como resgate do conceito da ideia de luta. Pois a luta se justifica no puro contexto de opressão marcada pelas ameaças de destruição de direitos, que agridem mais e profundamente as mulheres.

Nas falsas reformas golpistas as mulheres mais uma vez serão entregues às garras  da tripla jornada e engolidas por suas goelas devoradoras.

É inaceitável silenciar diante da imposição da aposentadoria aos 65 anos, principalmente para as mulheres, mais ainda sem considerar seu trabalho como mães e como donas de casa.

Essa desconsideração  esmaga a dignidade feminina por tratar as mulheres como chocadeiras e como escravas a cuidar de homens e de filhos, sempre bem arrumados e saudáveis para serem usados pela burguesia desumana e psicopata social.

Vale encerrar aqui com as sábias palavras de Alexandra Kollontai ( 1872-1952), tornadas lapidares no seu maravilhoso livro Comunismo e família, 1920: “O capitalismo carregou para sobre os ombros da mulher trabalhadora uma carga que a esmaga; a converteu em operária, sem aliviá-la de seus cuidados de dona de casa e mãe. Portanto, a mulher se esgota como consequência dessa tripla e insuportável carga que com frequência expressa com gritos de dor e lágrimas. Os cuidados e as preocupações sempre foram o destino da mulher; porém sua vida nunca foi mais desgraçada, mais desesperada que sob o sistema capitalista, logo quando a indústria atravessa um período de máxima expansão”.

Nem um direito a menos. Fora, Temer.

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

6 Comment

  1. Renata Beiro says: Responder

    As flores devem ficar nos jardins! Durante todo ano, exijimos respeito e cumprimos deveres, por ironia, mais do que muitos homens!
    Nosso feminismo é de lutas, um dia depois do outro!
    O mês de março dá uma visibilidade a nós, Mulheres, porém a luta por igualdade, contra o preconceito não cessa! #ALutaNãoPara

  2. […] Fonte: O dia internacional da mulher é luta e não flores, jantares e motéis – CartaS e ReflexõeS Prof… […]

  3. […] via O dia internacional da mulher é luta e não flores, jantares e motéis — CartaS e ReflexõeS Prof… […]

  4. Marly Valentim says: Responder

    Bom Dia,Dom Orvandil!!!
    Acabei de ler este tão significativo artigo que resgata de forma tão contundente nossa luta num contexto político social tão ímpar e ao mesmo tempo real de barbáries recidivas a cerca do desejo de nos calar, nos tolher os direitos,nos escravizar.
    Ainda bem que mantemos a mesma coragem,discernimento e espírito de luta por nós que militamos e pelas demais companheiras ainda cegas, surdas e amordaçada pelo medo .
    Ainda bem que não estamos sós .Temos umas as outras.Temos companheiros feministas que apoiam nossas causas, no enfrentamento dos desgovernos golpistas espalhados Estados à fora, seguindo a risca os ditames da quadrilha que saqueou o Brasil.
    Parabéns e muita gratidão por ser este homem- profeta que acolhe,reflete e enfrenta nossas dores e muito sofrimento .

    #LUGAR DE MULHER É NA REVOLUÇÃO! !!
    #NENHUMDIREITOAMENOS
    #FORATEMERESUAQUADRILHA
    #PRISAOPARAPOLITICOLADRAO

  5. […] O dia internacional da mulher é luta e não flores, jantares e motéis […]

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