João de Paiva Andrade: “O alto comando e o controle da narrativa pelo Midipoliciário”

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Por Eng. João de Paiva Andrade

            A bomba escândalo-noticiosa, mas sobretudo semiótica, lançada ontem sobre o sistema político, com ênfase no atual e ilegítimo ocupante do Palácio do Planalto, Michel Temer, e no senador que foi candidato derrotado na última eleição presidencial, Aécio Cunha, e sobre o público que acompanha o noticiário, é destaque hoje na imprensa internacional e o assunto/acontecimento mais comentado em todo o Brasil. Pelo que foi noticiado, além das gravações, feitas por diretores da JBS, mostrando tanto Michel Temer como Aécio Cunha pedindo propina, seja para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, seja para colocar no próprio bolso, usando pessoas interpostas, há outras provas demolidoras contra a dupla de políticos que encabeçou o golpe de Estado. A irmã e braço direito de Aécio, Andrea Neves da Cunha, teve o pedido de prisão preventiva decretado pelo STF e por estar no exterior é, agora, procurada pela Interpol.

            Dois dos maiores impactos dessa bomba escândalo-noticiosa e semiótica é paralisar a degola dos direitos trabalhistas e previdenciários no Congresso Nacional e, claro, marcar històricamente o fim do governo ilegítimo de Michel Temer e sua camarilha. Se Temer vai renunciar, ser cassado ou afastado por meio de processo deimpeachment, isso continua uma incógnita. O certo é que os grupos de poder que coordenam a trama golpista (grande mídia comercial, o PIG/PPV, as instituições que compõem o chamado ‘sistema de justiça’, que são a PF, o MP e o PJ, com a anuência das FFAA), que podemos alcunhar de Midipoliciário, de forma bem planejada, concatenada e sincronizada, tomaram ações e decisões com o objetivo de manterem consigo o controle da narrativa e do andamento da trama golpista.

            Embora compreensível a euforia inicial com que os setores progressistas e democráticos da sociedade brasileira receberam a bomba escândalo-noticiosa e semiótica, enxergando nela a derrocada do governo golpista e a possibilidade de restauração da democracia, por meio de convocação de eleições gerais e diretas – mesmo que dependentes de uma emenda constitucional a ser aprovada no Congresso Nacional mais conservador, corrupto e golpista da História – é preciso muita atenção e cautela na avaliação desses acontecimentos e sobre os prováveis ou possíveis desdobramentos. Em caso de afastamento de Michel Temer (por renúncia, cassação ouimpeachment) o texto constitucional prevê que a sucessão se dê por meio de eleição indireta, em que os votantes serão os deputados e senadores; como não há regulamentação, por meio lei infra-constitucional, estabelecendo como deve se dar o processo e qual o peso dos votos de deputados e senadores, abre-se mais uma brecha/justificativa, para que se aprove uma emenda constitucional que estabeleça a sucessão por meio de eleição direta. O presidente da Câmara, o do Senado e a do STF, nesta ordem, ocupam a linha sucessória da presidência da república. Investigados por corrupção, os presidentes da Câmara e do Senado têm pouca legitimidade e são fortemente rejeitados pela população, embora sejam representantes e defensores dos interesses das oligarquias plutocráticas, inclusive as do PIG/PPV. É aí que entra em cena a 3ª colocada na linha sucessória, a presidente do STF, Cármen Lúcia, que já foi devidamente seduzida e cooptada pelo PIG/PPV, em especial pela Rede Globo de Televisão e veículos associados.

            Michel Temer e sua camarilha eram os instrumentos que o Midipoliciário utilizava para impor ao Brasil o desmonte do Estado Social e no lugar dele implantar o ultra-neoliberalismo oligárquico, escravocrata, cleptocrata, privatista e entreguista, sempre seguindo as ordens do alto comando internacional, que fica nos EUA. O ataque e desmonte da Petrobrás – com fatiamento e privatização dos setores mais lucrativos da empresa, vendidos na bacia das almas para petroleiras estrangeiras – assim como o desmantelamento dos setores estratégicos (nuclear, energético, de defesa e aeroespacial) ou em que grandes empresas brasileiras eram competitivas nos mercados internacionais (desbancando concorrentes estadunidenses e européias), como construção pesada e agropecuária de exportação, está sendo levado a termo com precisão suíça. Ao contrário do golpe de 1964, desta vez o alto comando não precisou sujar as mãos e atuar diretamente aqui com aparato de força. A reativação da IV Frota no Atlântico Sul foi apenas uma exibição de musculatura e um aviso ao Brasil: se ousarem um levar adiante um projeto de desenvolvimento soberano, nós derrubaremos o governo popular e desmontaremos o Estado Social. As espionagens por meio da NSA, da CIA, do FBI, do DOJ, assim como a cooptação da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, além do PIG/PPV, da banca e larga parcela do empresariado foram suficientes para aplicar o chamado ‘golpe suave” ou soft coup.

            É sintomático que a PF e o MPF tenham conduzido as investigações e ‘operações controladas’, com a colaboração dos donos da rede de frigoríficos JBS. Recordemos que, depois de arrasar com a engenharia e construção pesada, o próximo alvo natural do desmonte seria o setor agropecuário exportador, que fazia forte concorrência com as empresas européias e estadunidenses. Há menos de dois meses, uma desastrada operação da PF, apelidada de ‘Carne Fraca’, quase pôs tudo a perder; um delegado-pavão, inexperiente incompetente, além de ousado e abusado, Maurício Moscardi Grillo, deflagrou tal operação, causou prejuízo milionário ao País, já que alguns países que importam carne do Brasil suspenderam os pedidos e mesmo o desembarque de cargas já despachadas. Como os frigoríficos são grandes anunciantes dos veículos de mídia, imediatamente o PIG/PPV, assim como integrantes do governo golpista, divulgaram severas críticas à operação e o delegado-pavão saiu de cena. Michel Temer e sua camarilha sofreram uma baixa importante: Osmar Serraglio, nomeado para o Ministério da Justiça, foi grampeado se referindo ao chefe da máfia dos fiscais do Ministério da Agricultura no Paraná, Daniel Gonçalves Filho, como “grande chefe”. Desde então, Serraglio foi posto na geladeira e não sabemos se está vivo ou morto, se despacha ou delibera alguma coisa à frente da pasta. Importante lembrar que a JBS possui 56 frigoríficos nos EEUU e que o DOJ está na cola da empresa. Para manter as atividades lá, colocar ações em bolsa e pagar milionárias multas e honorários advocatícios a escritórios estadunidenses, a JBS precisa limpar sua barra em Pindorama.

            Está na cara que as agências e departamentos de espionagem e investigação dos EUA municiaram a PF tupiniquim – já cooptada e ‘comprada’ há mais de 15 anos, como mostrou a revista CartaCapital na edição nº 283, de 2002 – com informações acerca de procedimentos irregulares observados nas empresas JBS. Qualquer semelhança com o que foi feito pela NSA nas estatais brasileiras, sobretudo na Petrobrás, e também no governo brasileiro – grampeando os gabinetes da presidência da república – para municiar policiais federais, procuradores e juízes da Fraude a Jato com informações comprometedoras sobre políticos e empresários brasileiros não é mera coincidência. Essas operações combinadas e sincronizadas fazem parte da estratégia do alto comando, para desmontar o Estado Brasileiro e se apossar das nossas riquezas e setores estratégicos, de graça ou a preço vil.

            A sintonia e sincronia perfeitas observadas nas ações combinadas e coordenadas do consórcio PF/MPF e do PIG/PPV, por meio do grupo Globo de comunicação, levanta várias suspeitas. Por que a PF e o MPF celebraram esse acordo de delação premiada com os donos da JBS de forma tão distinta dos demais? Por que apenas o grupo Globo recebeu em 1ª mão a bomba escândalo-noticiosa, que através dos veículos de comunicação se tornou semiótica? Por que a TV Globo e outros veículos do grupo têm feito entrevistas e homenagens bajulatórias a Cármen Lúcia, que atualmente preside o STF? Será que a Globo agiria assim se Cármen Lúcia tivesse adotado uma postura e atuação garantista, altiva e independente no STF? Ou a Globo e seus veículos associados cooptaram Cármen Lúcia, com rapapés e salamaleques, para que ela faça exatamente o que o Michel Temer e sua camarilha vêm fazendo há mais de um ano, porém sem a pecha de ser denunciada por negociatas e corrupções? Quem conhece a incompetência e indecisão de Cármen Lúcia e que a viu tripudiar da Presidenta Dilma Rousseff, quando esta era vítima de um sórdido golpe de Estado, que terminaria por destituí-la da presidência da república, percebe claramente que Cármen Lúcia – em sua insignificância, recalque e incompetência – foi picada pela mosca azul e seduzida pelos palcos, palanques, microfones, holofotes e bajulações que a Globo e associados passaram a lhe oferecer. Cármen Lúcia é o Joaquim Barbosa de saias e deverá ter o mesmo destino que ele, assim que acabar a serventia dela para a trama golpista. Para uma juíza sem brilho algum, que mantém engavetados processos complexos que ela deveria ter julgado, é sedutora a possibilidade de vir a ocupar a presidência da república. É nisso que apostam não só o PIG/PPV, mas todas as oligarquias da velha política brasileira, a banca nacional e internacional, a direita política golpista órfã de seus líderes enlameados na Fraude a Jato, assim como o alto comando internacional. Ou seja: as oligarquias brasileiras e o alto comando internacional costuram o golpe dentro do golpe, que é a eleição indireta de Cármen Lúcia por meio do Congresso Nacional. É contra isso que a Esquerda Democrática e Progressista deve lutar.

            Como já escrevi em outros artigos e comentários, o PIG/PPV e o MP celebraram um pacto de sangue, sobretudo a partir de 2013, quando se associaram para derrubar a PEC-37. Com a PF tomada pelos tucanos, a empatia entre ela e o PIG/PPV foi consolidada e nenhuma dessas facções investiu contra a outra. A associação PIG/PPV e MP (sobretudo o federal) é mais estável, pois a classe dos procuradores é menos numerosa, mais homogênea e com interesses comuns fàcilmente identificáveis. Com a PF a situação é mais complicada, pois dentro da instituição as facções não se entendem, apenas se toleram. Os agentes, que fazem o serviço pesado, de investigação policial, que amassam barro e se expõem a riscos, não têm o prestígio, statu, remuneração e reconhecimento de que desfrutam os delegados. Portanto é muito mais fácil haver cizânia, disputas intestinas, traições, perseguições, chantagens e ameaças entre facções da PF do que entre as do MPF. Ciente disso, a TV Globo e veículos associados procuraram agir em conjunto com a PF e com o MPF nessas investigações e ‘operações controladas’ que caracterizam o acordo de delação premiada feito pelos diretores da JBS e os integrantes da força-tarefa da Fraude a Jato. A Globo sabe que se entrar em choque e ferir melindres da PF uma investigação pode expor falcatruas bilionárias perpetradas pelo grupo controlado pela família Marinho. Por outro lado a Globo conhece os bastidores e submundo da PF e pode colocar no ventilador escândalos capazes de arruinar carreiras de delegados e diretores hoje considerados acima de qualquer suspeita. Portanto o pacto entre PIG/PPV e PF ou mais especificamente entre grupo Globo e PF é semelhante ao de máfias e quadrilhas que combinam compartilhar um mesmo território, para suas práticas criminosas.

            Exemplos práticos do que a PF pode investigar e fulminar com a Globo: sonegação fiscal sobre os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002; empresas de fachada em paraísos fiscais, para lavar dinheiro e sonegar impostos, como Mossak Fonseca; Tríplex de Paraty, construído em área de proteção ambiental, empréstimo do Banerj para construção do Projac e que não foi pago, dentre muitos outros. Já a Globo pode comprometer a PF, colocando em seu noticiário diversas ilegalidades criminosas cometidas por policias federais – como as levantadas pelo jornalista Marcelo Auler e por outros jornalistas independentes – ou questionando as razões por que certas investigações, como as do helicoca jamais foram levadas à frente. A Globo tem munição pra destroçar a PF e vice-versa. É por isso que o acordo entre elas pode ser considerado um pacto entre máfias.

            Desmascarado por um ex-amigo (Eugênio Aragão) e pelos jornalistas independentes, o PGR Rodrigo Janot – que até o início deste ano sempre trabalhou em defesa de Aécio Cunha, engavetando ou arquivando inquéritos e pedidos de investigação contra o tucano, muitas vezes simulando um falso embate com o Ministro do STF, Gilmar Mendes – tenta se capitalizar polìticamente com essa nova fase da Fraude a Jato, marcada pela bomba escândalo-noticiosa e semiótica que se tornou a publicação de gravações em que Aécio Cunha e Michel Temer pedem propina para si ou para comprarem o silêncio de aliado preso (Eduardo cunha). Para agradar as maltas e matilhas lobotomizadas, manipuladas, e idiotizadas pelo PIG/PPV e cegadas pelo ódio que este dissemina, Rodrigo Janot pediu a prisão não só de Andrea Neves, mas também do senador Aécio cunha. Há cerca de um ano, Janot tentou uma jogada tão arriscada quanto essa, pedindo a prisão dos senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, além do ex-senador José Sarney. Naquela ocasião Janot quebrou a cara, pois o STF negou a prisão dos políticos. Há dois dias escrevi um artigo/comentário chamando a atenção para o fato de que, por ambição política e sede de poder e influência, Rodrigo Janot é capaz de qualquer coisa, inclusive trair amigos e aliados. Citei as traições de Janot a José Genoíno e à Presidenta Dilma Rousseff e cravei que Aécio tinha grandes chances de ser o próximo. Não deu outra: a ratoeira para pegar Aécio Cunha e Michel Temer já estava armada há algumas semanas. O desfecho é este que estamos vendo.

            Pusilânime que é, Luiz Edson Fachin recebeu o pedido da PGR e o mandou para o plenário do STF decidir. Essa ação de Fachin está em sintonia com a que ele tomou há poucos dias, quando por medo de ser voto vencido na 2ª turma, remeteu o pedido de HC que pode beneficiar o ex-ministro Antônio Palocci – preso há mais 8 meses, sem julgamento – ao plenário da côrte, numa atitude frontalmente contrária ao regimento da côrte e contra o Estado de Direito Democrático, já que tal manobra visa claramente prejudicar uma pessoa investigada pelo poder persecutor do Estado.

            As inferências e conclusões prévias a que podemos chegar é que as instituições burocráticas do Estado que conduzem a trama golpista – a PF, o MPF, o PJ – e o PIG/PPV estão se realinhando e se reposicionando, para instaurarem uma segunda fase do golpe de Estado. O alto comando – que fica nos EEUU – se mantém aparentemente quieto, já que seus objetivos estão sendo e continuarão a ser satisfeitos, caso os atores locais que conduzem as operações cheguem a um entendimento. Como já mostrei várias vezes, o elo mais fraco da cadeia era o político/parlamentar e por isso nunca o considerei como mais importante ou decisivo. O Midipoliciário constitui o verdadeiro agente local do golpe; é contra ele que os movimentos populares e sociais têm que voltar suas baterias. As FFAA, que por omissão ou ação velada deram apoio e sustentação ao Midipoliciário, podem deixar os quartéis e o golpe pode assumir as feições do perpetrado em 1964, mas isso deve demorar um pouco.

            Portanto todos nós, defensores do Estado de Direito Democrático, dos direitos individuais, trabalhistas e previdenciários, devemos tomar as ruas e pedir não só a destituição do governo golpista, mas a recondução da Presidenta eleita e legítima, Dilma Rousseff, para que ela, com plenos poderes para revogar todos os atos do governo e parlamento  golpistas, convoque eleições gerais ainda este ano. O atual parlamento fica impedido de votar qualquer mudança na CF e qualquer lei ou norma restritiva de direitos. Só assim será possível pacificar o País e trazer alguma estabilidade.

 Rio de Janeiro, 18 de maio de 2017

1 Comment

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