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A arrepiante tortura e assassinato de uma revolucionária, mãe e seu bebê pela ditadura terrorista militar

Caríssimo amigo Professor  Geraldo Antônio Capelassi

Morador e lutador em São Paulo.

Sou-lhe profundamente agradecido por sua participação numa edição do Programa Fé e Luta em 2021 e, agora, por contribuir com a memória da grande companheira latino americana, a combatente revolucionária  Soledad Barrett Viedma.

Lamentavelmente ouvi mau juízo sobre essa irmã de luta. Tomei conhecimento de sua prisão, tortura violenta e assassinato numa roda de militantes.

O tema entorno do qual girava a conversa era, a meu ver, de uma vulgaridade impressionante, nada em acordo com pessoas e organizações que se auto avaliam como as melhores, mais corretas e puras do mundo. Uma das mais proeminentes participantes da reunião, além de choramingar por engravidar-se e ter que cuidar de sua criança quando deveria se dedicar integralmente à revolução, disparou críticas aos e às camaradas que usavam colchões como método de aliciamento de novos militantes. Nesse bojo de barbaridade, com ofensas a pessoas que namoraram  e, com  suas/seus companheir@s, tiveram que se transferir de Estado e de  base para militar, o mais “sábio” da roda introduziu o caso da mártir Soledad Barret Viedma.

Puxar o nome de Soledad como um exemplo de risco e descuido com o movimento revolucionário, sem nenhuma crítica séria ao “onipresencismo” dos aparelhos repressivos da ditadura, com críticas a ela e não à barbárie é de uma desumanidade, falta de respeito e desconsideração com a memória da poetisa revolucionária Soledad Barret Viedma (presente!).

Com sua sensibilidade militante e humanista, querido Prof. Geraldo, que nos brinda diariamente com suas poesias intensas em compaixão humana, nos trouxe à memória a companheira latino americana, que deve ser lembrada e honrada como revolucionária e, jamais,  ser julgada por juízes fariseus.

O senhor nos lembra de que no dia 08 de janeiro completaram-se 49 anos sem a nossa poetisa, vítima de um dos mais sangrentos, brutais e violentos crimes cometidos pela ditadura fascista militar no Brasil.

Para uma crítica séria e rigorosa é necessário que se busque a história, num exercício antropológico de escavação, para compreendermos as raízes e os fundamentos da militante. No caso de Soledad as vertentes progressistas e revolucionárias são absolutamente justificativas de sua luta arrojada e de seu amor pela revolução. Sua sede e fome de conhecimento da ciência revolucionária nasceram de seu avô Rafael, escritor paraguaio, espanhol de nascimento. Dele herdou a rebeldia com as injustiças e a identificação com a classe trabalhadora.

Fiel à orientação recebida, exilada em Montevideo aos 17 anos com seus pais, Soledad foi presa por nazistas que a obrigaram, sem conseguirem dobrá-la, a fazer saudação nazista e a beijar a cruz suástica. Por se recusar a trair seus princípios, os nazistas gravaram a cruz suástica a navalha nas suas pernas.

Na sua busca por formação revolucionária profunda e treinamento guerrilheiro, Soledad Barret Viedma viajou para Cuba. Lá conheceu e casou com o brasileiro e revolucionário José Ferreira de Araújo, com quem gerou uma filha. Embora planejasse retornar ao Brasil com seu marido não pode, já que ele viajou para cá um ano antes. Em 1970 conseguiu seu intento já como militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

No confronto duro e sangrento, que nada tinha a ver com colchões e festas burguesas, se deparou com a notícia da morte de seu marido.

Na realidade nublada pela luta, de um lado, pelo oportunismo de alta intensidade, de outro, com o famoso Cabo Anselmo se projetando  em 1963 como líder do movimento dos marinheiros e alardeado como mito da esquerda,  empurrado à clandestinidade após o golpe fascista militar de 1964, de fato era um soldado de patente. Mas, fora da Marinha e ex soldado  Anselmo se filiou na mesma organização de Soledad. No entanto, descobriu-se mais tarde, que Anselmo era agente duplo. A serviço da repressão, entregava informações sobre a luta e os militantes, possibilitando que muitos fossem presos, torturados e mortos, alguns assassinados por ele mesmo.

Sem o poder de adivinhação e sem bola de cristal, Soledad contou que seu companheiro fosse leal à revolução, já que demonstrava-se grande colaborador do movimento armado contra a ditadura.

No dia 08 de janeiro de 1973, o denominado “massacre da Chácara São Bento”, narrado pela versão oficial como tiroteio com a morte de seis guerrilheiros, revelou-se a verdadeira cara de Anselmo. Foi o único a escapar vivo. Como sempre fazem os “vencedores”, ao contarem sua história,  incluíram a morte de Soledad nesse massacre, que chamaram de tiroteio.

Contudo, a verdade,  oculta ou mascarada pelos sanguinários que mudam autores, escondem traidores e modificam cenários, sempre aparece aos olhos dos pesquisadores e escavadores sérios da história. Foi assim que em 1996, com a abertura de arquivos escondidos pela ditadura veio à tona que Soledad foi capturada juntamente com Pauline Reichstul na butique onde trabalhavam. Lá foram alcançadas e levadas por cinco homens (entre eles Anselmo), que se diziam policiais. Invadiram o local e, sob golpes brutais, dominaram Pauline enquanto Soledad, grávida,  insistentemente se perguntava: “por que?”. Foram arrastadas e enfiadas em dois carros.

É possível imaginarmos a dor dessa grande mulher ao descobrir da pior maneira possível a verdadeira face terrorista de seu companheiro, que, traidor,  a arrastou para morte  covarde e cruel com o filho no ventre.

Envolta pelas mãos peludas dos ratos assassinos, chocada com a dor por conhecer a traição de seu companheiro, Soledad foi entregue imediatamente às garras do torturador, estuprador e assassino delegado Fleury.

Os documentos arquivados, embora sucintos, nos movem à situação de terror vivenciada por Pauline e Soledad. A advogada dos presos políticos pela ditadura fascista, Mércia Albuquerque,  conta o que encontrou no depósito de cadáveres do cemitério Santo Amaro. A respeito de Soledad ela declarou, em depoimento formal:

“Ela estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta, e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta, ficou algum tempo deitada e depois a trouxeram. O sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror.”

De modo, que, meu amigo Prof. Geraldo, o caso da luta contra a ditadura das prisões ilegais, das torturas, das chacinas e assassinatos nos porões fétidos da morte, no caso como no de Soledad se vê a barbárie inominável do fascismo a serviço da burguesia.

Soledad e Pauline foram presas e arrancadas para a morte do trabalho delas, atingidas por monstruosa covardia,  com gorilas armados, plenos de ódio e pelas mãos de um traidor.

O fato é que Soledad, essa mulher mártir da revolução latino americana, não tem nada a ver com discussões burguesas torpes e levianas como a historieta do colchão como meio de aliciamento revolucionário. A paixão revolucionária de Soledad nasceu das raízes rebeldes de seu avô, robusteceu-se na experiência cubana e seu sangue se derramou sob as mãos covardes e assassinas de um dos piores torturadores e assassinos a serviço da tirania.

A alma de Soledad Barret Viedma se move na memória d@s mártires do fascismo e da tirania.

Mas Soledad era filha, também. Na sua poesia de despedida demonstra o amor pela mãe. Esse poema abaixo testemunha o quanto revolucionári@s são libert@s do ódio e plenos de amor.

Mãe, me entristece te ver assim

o olhar quebrado dos teus olhos azul céu

em silêncio implorando que eu não parta.

Mãe, não sofras se não volto

me encontrarás em cada moça do povo

deste povo, daquele, daquele outro

do mais próximo, do mais longínquo

talvez cruze os mares, as montanhas

os cárceres, os céus

mas, Mãe, eu te asseguro,

que, sim, me encontrarás!

no olhar de uma criança feliz

de um jovem que estuda

de um camponês em sua terra

de um operário em sua fábrica

do traidor na forca

do guerrilheiro em seu posto

sempre, sempre me encontrarás!

Mãe, não fiques triste,

tua filha te quer.

(Soledad Barret Viedma)

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

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