Arte

A arte existe para que a realidade não nos destrua

Recentemente reencontrei um grande amigo, reencontrar na verdade é uma maneira de dizer. Nosso reencontro na realidade foi pelo facebook. Reconectamos.  Mas ao reencontra-lo veio à minha memória o desastre ambiental da Samarco/Vale na bela cidade de Mariana. Leonardo, o meu amigo, morou em Mariana/MG. Ele relatou-me que Mariana hoje é quase uma cidade fantasma. Leo não mora mais em Mariana, mudou-se com a companheira para Rio Grande/RS. Ao falar sobre a nova cidade, meu amigo disse-me que aquela cidade também padece de uma crise: a demissão de milhares de trabalhadores da empresa ERG de propriedade da Ecovix, que faz parte da Engevix, empresa envolvida nas investigações da Operação Lava Jato, que já teve, inclusive, seus diretores presos. Tanto Rio Grande quanto Mariana tentam se levantar de uma crise, causada pela corrupção, ganância, pela falta de moral e ética (ou pela moral e ética deles, regulado por eles) desse modelo de desenvolvimento – desenvolvimento? – chamado neoliberalismo.

Hoje vivemos uma crise moral e ética. Da Samarco/Vale que matou o Rio Doce e sua biodiversidade (homens, fauna e flora), passando pela absolvição politica de Aécio Neves e Michel Temer pelo Congresso Nacional, da parcialidade de um judiciário que se diz neutro, mas que na verdade é também representante das elites econômicas e politicas desse país, à pavimentação de uma estrada que atravessa a fazenda do Vice-Governador do estado de Goiás, mostra que sim, Renato Russo estava certo: “… há sujeira para todo lado”.

É evidente que essa crise é reflexo de uma complexidade que envolve não apenas um, mas vários fatores que não estão no domínio do sujeito, do eu somente, fazem parte de um todo complexo. Contudo, os números abaixo contribuem para uma paralisia e alienação a tudo isso por uma parte bem considerável da população brasileira. 44% dos brasileiros não leem e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura (Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro, entidade mantida pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros)) realizada no ano de 2016.

Ainda no campo da cultura 92,5 % dos brasileiros não costumam ir a exposições de arte; 91,2 % não vão a espetáculos de dança; 88,6 % não frequentam teatro; 73,8 % não vão ao cinema.

Se um país se faz com homens e livros, está faltando-nos tanto homens públicos éticos e morais quanto livros e arte, sobretudo arte para romper com esse processo de degradação da natureza e da humanidade.

O filósofo alemão Frederick Nietzsche viveu de 1844 a 1900 e mesmo assim foi capaz de antever algumas questões que marcam a vida e o pensamento do século XXI. Para Nietzsche, nós temos um modelo de pensamento, que tem origem na Grécia antiga, com o filósofo Platão. Antes desse modelo de pensamento atual, segundo o autor de “Assim Falava Zaratrusta”, o que caracterizava o pensamento pré-socrático era a arte. A arte como mediação entre as coisas. A ideia de verdade não era algo que havia se estabelecido.

A arte sempre foi usada para interpretar o mundo, sobretudo na Grécia arcaica, ao estudar os pré-socráticos Nietzsche percebeu que nela havia sabores, cheiros, havia vida na arte. Mas, com o advento da ciência no início do século XIX, há um rompimento com essa ideia de que a arte guia nossas vidas. Racionalismo será o verdadeiro saber. Então o racionalismo científico mata a pluralidade, mata o devir, mata a arte.

Em “O Nascimento da Tragédia”, Nietzsche vaticina que, se a ciência produz cada vez menos alegria em si mesma e gera cada vez mais alegrias colocando sob suspeitas os confortos da metafísica, da religião e da arte, então a maior fonte de prazer, a qual a humanidade deve quase toda a sua qualidade humana, fica empobrecida. Uma cultura elevada, portanto deve dar ao homem um cérebro duplo, duas câmaras cerebrais, por assim dizer: uma para experimentar a ciência e outra a não ciência.

Mas a arte deve ter alguma finalidade? A poesia e a literatura devem ter alguma utilidade? A arte passaria ou poderia ser uma totalidade criada? Não acredito, pois a arte não pode ser aprisionada. A arte é libertadora. Por meio dela criamos, assim como os gregos pré-socráticos, interpretações do mundo e fugas da realidade. Por isso adoramos narrativas, histórias, tragédias, tudo isso faz parte da nossa condição humana.

Na religião grega, que é mitológica, temos a ideia da transformação, um mundo que muda o tempo todo. Segundo a mitologia grega, no início havia a divindade chamada Caos, um vazio sem forma do tamanho de todo o universo do qual se originou Gaia (a Terra), Tártaro, o submundo e Eros, o mais belo dos deuses. Do Caos também sai o Érebo, a escuridão do submundo e Nix, a noite. Da união entre ambos nasceu o dia. Gaia deu a luz a Urano (O céu estrelado) e com ele, numa relação incestuosa, tiveram diversos filhos, entre os quais Oceano (O Mar) e Chronos (O Tempo), o mais jovem e mais terrível de seus filhos. Chronos, sob a ordem de Gaia, castra Urano e se casa com sua filha Rea, com quem tem filhos que mais tarde se rebelam contra ele e assumem o poder. Esses novos deuses dividem entre eles o poder e a autoridade: Zeus fica com o céu, Posseidon com o mar e Hades com o submundo.

Chronos, antes de ser destronado, governava como déspota. Quase nenhum dos outros deuses ousava desafiar sua autoridade. Ele sempre destruía tudo o que fazia. Sim, o tempo apaga nossas memórias, a morte também, porém havia uma deusa que ousava desafiar Chronos, Mnemósine (deusa da memória)… Preservava, ou melhor, tentava preservar o que Chronos insistia em apagar com o tempo. Mnemósine é quem nos preserva do esquecimento. Seria a divindade da enumeração vivificadora, frente aos perigos da infinitude, frente aos perigos do esquecimento, que na cosmogonia grega aparece como um rio, o Lete, que cruza a morada dos mortos, (o de “letal” esquecimento). O Tártaro é onde as almas bebiam sua água quando estavam prestes a reencarnarem-se, e por isso esqueciam sua existência anterior.

Por meio da memória é que criamos relações com o mundo e essas relações são baseadas, sobretudo no contar e no recontar, tem a arte como mediadora. Os primatas do período paleolítico médio morriam jovens, não deixavam legados, memórias. Quando passa para o paleolítico superior têm-se primatas com representações simbólicas, com pingentes, flautas de ossos, até mesmo imagens de deuses, como da deusa Vênus.

Na modernidade, sem dúvida,  perdemos as referências, os modelos desapareceram. Carl G. Jung, no livro, “O homem e seus símbolos”, assinala que já não existem deuses cuja ajuda pode-se invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia (Afinal por que o Estado Islâmico seduz cada vez mais jovens?), para Jung, as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais, e os homens deuses desapareceram no mais profundo do nosso inconsciente.

De fato padecemos de um niilismo, mas como romper com isso? A tese do eterno retorno, elaborada por Nietzsche durante um passeio em 1881 na cidade de Turim, quando ele refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se “repetem” pode nos ajudar a entender um pouco esse processo. Ainda que em várias de seus escritos encontremos pistas do que seria o Eterno Retorno, é no livro  A Gaia Ciência (1882) que ele nos apresenta a ideia mais nítida do que seria esse conceito. Perdemos a conexão com Gaia, a Terra. Com a arte, não a arte sublimada, mas a verdadeira arte, a qual mediava as nossas vidas perdemos a conexão. A conexão caiu. A história da humanidade tem nos mostrado que as civilizações que perderam essas referências se perderam também enquanto civilizações. A civilização ocidental dá sinais de um declínio cada vez inevitável. Mas, cabe a nós, apenas a nós mesmos decidirmos o nosso caminho. Decidirmos como caminhará a humanidade.

Referências Bibliográficas

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

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