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A derrota é muito maior e profunda do que as eleições, como Lula não falou

Por Dom Orvandil

Assisti a entrevista dada pelo ex presidente Lula aos jornalistas José Trajano, Talita Galli e Juca Kfouri à TVT, na noite de 15/01.

Analiso aqui apenas a parte  em que ele se referiu às eleições de 2016 e o espírito que move a visão política  do ex presidente  e dos partidos autoproclamados e reconhecidos como de esquerda no Brasil.

Lula afirmou com todas as letras, dando a entender que se tratava de autocrítica, que “perdemos a eleição porque não tivemos coragem de ir pra rua nos defender”.

Com o seu jeito popular no uso de imagens para se referir ao comportamento humano, adaptando-as  à análise de resultados  eleitorais, mais de 5 anos depois, o ex presidente diz: “quando você tem uma doença grave, uma agressão grave, não se esconde. Você enfrenta”.

O líder respeitado em todo o mundo encontra como causa da derrota política no contexto de ataque ao partido dele,  na forma de perseguição e prisão de José Dirceu,  bem no auge da campanha, a  falta de coragem para a defesa.  “Nós perdemos 2016 no maior processo de condenação de um partido político. E perdemos porque não tivemos coragem de ir para a rua nos defender. Quando você leva seu cachorro para passear, se um maior late ele enfia o rabinho entre as pernas, ele perdeu. Por menor que ele seja, ele tem que latir e se fazer respeitar”, exemplificou Lula para justificar a covardia do PT. E mostra onde tal capitulação se deu  por causa do medo e quem os ameaçou. O palco da falta de coragem na organização para luta e para a defesa  foi exatamente o berço trabalhista onde nasceu o maior movimento da classe operária nas últimas décadas no Brasil,  e que também é berço do PT. “Em 2016, o PT não quis fazer comício em Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá, São Paulo, Guarulhos, Campinas, Osasco. Não quis porque as pessoas estavam receosas de ir para as ruas. Faltou enfrentar a situação”, analisou Lula.

O discurso que nosso ex presidente  externa, sem deixar dúvidas, é de que o partido dele e todos os outros do espectro da esquerda nasceram da classe operária, das lutas contra a ditadura imperialista militar – esse monstro que desgraçou a América Latina – e encaminharam-se a marcha célere à montagem de superestruturas sindicais e partidárias. Assim  chegou aos diversos parlamentos, aos governos municipais, estaduais e até federal.

Tais instâncias institucionais recolheram  da sociedade grandes lideranças intelectuais e populares, muitas se notabilizando por discursos nas tribunas, na criação e gestão de programas sociais, que deram uma “melhorada” na vida do povo, colocando alguns remendos no moribundo capitalismo, principalmente nos aspectos concentração de riquezas, de poder,  de renda e no rentismo.

A covardia como espécie de anemia que retira a energia, a força e a vitalidade do corpo político do povo, deu-se no desvio – para não dizer traição –  da ilusão com eleições, com parlamentos,  governos, judiciário e movimentos sociais.

Sem desconsiderar avanços computados como conquistas, tudo o que se conseguiu, desembocando na mentalidade mesquinha e tacanha de processos eleitorais, a verdade é que o golpe político de 2006, depois com a organização criminosa lava jato, já abrindo caminho para as mentiras sobre mensalão, em 2016 com a derrubada da presidenta Dilma e em 2018 com as fake news e eleições roubadas, os tais processos eleitorais funcionaram como transfusão de sangue do cadáver  social para o corpo opressivo da elite dominante, aliada traidora da pátria a serviço do capital e do mercado internacionais.

O povo, os movimentos sociais, sindicais  e  os partidos não organizaram o povo nem a classe trabalhadora, vitalizando-os com a coragem e com a defesa, pólos indispensáveis na luta  permanente pelo poder,  nunca de fato conquistado, apenas acariciado até com deslumbramentos sociais democratas.

Percebo na entrevista do ex presidente a continuação do vício doloroso de fragilizar e até de matar a coragem, a defesa e a resistência da classe trabalhadora e dos pobres contra o fascismo e o seu pano de fundo, o neoliberalismo. Tanto que Lula continua preocupado com as próximas eleições municipais de 2020 e com as estaduais e federais de 2022 como principais trincheiras políticas.

O líder perseguido pelo imperialismo e pelo fascismo miliciano de Sérgio Moro, o lacaio dos monopólios, bem como todos nós, precisamos entender rapidamente que não foram o PT, os sindicatos, os movimentos sociais, os partidos de esquerda e a pálida democracia da Constituição somente e os primeiros grandes derrotados.

A derrota não se restringe a eleições, mas ao econômico e político como fatores centrais nacional e popular, como fruto do abandono dos trabalhadores.

O povo e o Brasil são os grandes derrotados e não seriam vencedores apenas com preocupações, articulações de chapas e resultados favoráveis das próximas eleições.

Aliás, o espírito eleitoral do nosso ex presidente, corajoso por enfrentar altivo e honrado a prisão facínora, fabricada na estufa da geopolítica imperialista, não se diferencia politicamente das preocupações golpistas dos milicianos corruptos Jair Bolsonaro, Augusto Heleno,  Hamilton Mourão, Sérgio Moro, Rodrigo Maia e o lacaio traidor dos sonhos originários do partido de Brizola, Ciro Gomes.

Eles também só se preocupam com eleições. E dê-lhe sacanagem para ocupar espaços onde o PT se firmou  como curral eleitoral e dê-lhe puxação de tapetes e alianças com a direita sórdida,  parida no útero dos ruralistas e apoiadores da ditadura militar.

A mobilização, organização, qualificação, coragem e resistência da classe trabalhadora e do povo é desafio superior e anterior à eleições.

Nas campanhas eleitorais os movimentos de sons, propaganda, imagens, reuniões, agitação e cores dão a ilusão de grandes multidões mobilizadas, mas que desaparecem pelos ralos das urnas eletrônicas, virando em amargura e decepção com os resultados no domingo à noite.

O poder,  que deveria ser tomado,  continua,  desde a escravatura, nas mãos dos poderosos ladrões, corruptos, egoístas, perversos, mentirosos e desonrados nos acordos e negociações com o país, por mais que Lula confie no seu taco negociador com o mercado.

Também é desafio o debate com Luiz Inácio no sentido de que a luta e o discurso dele se libertem do “eleitoralismo” e da choradeira em relação ao judiciário para se fazer em ânimo e estimulo à organização do povo pela tomada do poder real. Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano poderiam ser inspiração para ele.

Leia e acesse também análises recentes:

*Entardecer PROFÉTICO: “Igrejas neopentecostais apoiam partido do miliciano Bolsonaro!”

*Cristovam Buarque não é o direitista Papa Bento XVI. É imoral e traidor da pior espécie!

* Chimarrão PROFÉTICO: “Os bebês chorões da traição e da autocrítica”;

*Tribos e organizações indígenas resistem ao fascismo miliciano de Jair Bolsonaro;

*Anoitecer Profético: “Respeito e solidariedade ao Irã na união contra as bombas dos USA!”;

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2 Comentários

  1. Vendo crítica e respeitosamente a entrevista do ex presidente Lula percebe-se a carência da visão política maior do que eleições e do que o PT. Ajude-nos a impulsionar o Cartas Proféticas compartilhando apenas o link do blog: http://cartasprofeticas.org/a-derrota-e-muito-maior-e-profunda-do-que-as-eleicoes-como-lula-nao-falou/

  2. […] essa razão analisei em meu blog Cartas Proféticas  um dos pontos que me parece por demais relevante e inquietante para o nosso país, para a […]

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