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A educação e o caminho suave

Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe.” Albert Camus

O nascer do texto é um dos momentos mais inusitados que eu vivo. Escrevo sobre tudo, mas não escrevo sobre qualquer coisa. Quem acompanha meus textos pode até pensar que eu sou um articulista de temas da educação, porém, a narrativa é intruja. Muitas das vezes a educação é apenas o pretexto para eu escrever sobre os seres vivos e a fantástica relação deles com a história, a arte, a cultural e as relações sociais. A escrita em mim é uma prática social. Por isso não a naturalizo. Escrevo por uma necessidade de colocar no papel um olhar idiossincrático de mundo. Quem sabe um pouco de mim, entende muito do por que escrevo com certo pessimismo. Ser pessimista está na moda, antes não era, mas hoje é cult. Hoje muita gente lê orelha de livros de autores pessimistas como Sartre, Schopenhauer, Nietzsche, Martin Heidegger, Albert Camus, entre outros, apenas para arrotar em mesas de cafés por ai. Por falar em Camus, sou um apaixonado pela personagem Meursault, o anti-herói niilista do romance O Estrangeiro.

Apesar de guardar certa distância, a essência da personagem num aspecto, que tem uma certa indiferença com as coisas do mundo, penso que assemelho-me a ele. Sou resiliente.

Na educação essa palavra assume um sentido muito maior. Afinal, as narrativas construídas até aqui, demonstram que é preciso ser pessimista com relação às coisas que nos apresentam. Só assim, acredito ser possível resistir e contrapor as histórias construídas nesse campo de disputas e projetos tão caros a sociedade.

Há uma condição niilista no ser humano minimamente consciente do momento histórico que vivemos. Não dá para termos uma postura, tipo slogan do McDonalds “Amo muito tudo isso”. Pessoas que riem o tempo todo, cuidado, são perigosas, são um misto de alienação com idiotice.

Tome cuidado com pessoas pessimistas demais. Falo do pessimista de mau agouro. Aquele que sempre diz: “Ah, isso ai não vai dar em nada”.

A educação convive com esses dois arquétipos: o pascóvio e o pessimista demais.

Tem gente que enxerga a vida meio como novelistas da Globo, sempre termina em final feliz. É um maniqueísmo de dar ânsia de vômito: o bom, bonzinho é tão bonzinho que chega a ser bobo. E o malzinho é tal vil que as pessoas evitam dizer o nome dele.

Voltando para educação, a narrativa da alfabetização no Brasil nos apresentou uma cartilha que se chamava “Caminho Suave”, um verdadeiro fenômeno da educação em Pindorama. Até hoje a publicação que já vendeu mais de 40 milhões de unidades é utilizada em algumas escolas. O processo de aquisição da escrita e da leitura não é fácil e nem suave. É duro e difícil, como a própria vida, mas a mensagem subliminar na cartilha era que esse caminho deveria ser suave. Um provérbio espanhol diz “la letra con sangre entra”, muito utilizado antes para evidenciar como era duro o processo de aquisição da língua escrita. Não há a necessidade de fazer desse processo doloroso e fatigante, tampouco temos que fazer dele um “caminho suave”.

Temos observado um certo caminho suave na educação, as narrativas são de que tudo deve ser apresentado de forma lúdica para os alunos. A ludicidade é um elemento indispensável à escola sem dúvida nenhuma. Afinal, a origem da palavra escola remete a “lugar onde se conversa”, “lugar onde se brinca”. Mas é preciso cuidado, estamos “criando” crianças e adolescentes em bolhas de sabão, que serão incapazes de lhe darem com as relações complexas da nossa sociedade. Sujeitos imaturos e inconscientes políticos, historicamente.

Afinal, por que nossa escola evita certos temas e privilegiam alguns? Por que nossa escola não fala de morte, dor e sofrimento? Questões com as quais os seres humanos convivem o tempo todo? Nossa escola não fala da violência que está lá, depois do muro da escola. Quando falo, não digo de forma escancarada, sobretudo para as crianças que até podem conviver com isso de forma não velada, mas é preciso falar sim, por meio de um poema ou uma música que aborda a temática. É preciso repensar nosso caminho enquanto escola mesmo. Estamos e queremos formar para quem? Para o quê? Qual o sujeito que a escola está formando? Essas são as perguntas a serem feitas.

Não para termos as respostas, até porque na educação nada ficará pronto, mas para termos o caminho e a condição de avaliar. E por fim, o mais importante é que esse caminho não seja suave e nem pesado. Que ele seja, assim como nós e como pensa o Meursault, nem bons, nem maus. Somos humanos, demasiado, humanos.

Edergênio Vieira é poeta e professor na Rede Municipal de Ensino de Anápolis.

2 Comentários

  1. Simplesmente fantástico seu texto professor! Enquanto a sociedade não estiver preparada para criar seres pensantes e não meros robôs repetidores de conhecimentos em nada nos acrescentará essas ' mudanças na educação. '

  2. Obrigado professora pela leitura. Muito honrado em compartilhar e aprender sobre educação com vcs.

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