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A Escrita Acadêmica: uma história de colonialidade do saber

Alexandra Batistela Ferreira[i]

[…] Se sentir estrangeiro em seu próprio território linguístico parece que vem sendo uma das grandes consequências dessa visão porque apaga completamente nossas errantes existências linguísticas por não se encaixarem em um sistema pronto e acabado que vê a língua como um fato social, apenas no sentido de que é partilhada por uma comunidade específica (MUNIZ, 2016, p. 5[ii]).

Na atmosfera acadêmica, na Universidade, com os pilares sobre os quais é concebida, as interfaces da identidade do indivíduo são reduzidas a apenas uma: a de universitário/acadêmico de determinada instituição. Isso se dá justamente devido aos parâmetros de regulação e critérios de cientificidade aos quais está submetida a universidade com vistas ao reconhecimento e à boa reputação. Por isso, a diversidade ou qualquer forma de resistência e insurgência são, geralmente, silenciadas por meio de padrões de conduta estabelecidos com base em parâmetros ocidentais de pesquisa e de escrita acadêmica.

Logo, torna-se fácil perceber que a democratização do ensino superior ocorre apenas na tessitura superficial da lei, prevalecendo no campo acadêmico a segregação por modelos e práticas cristalizadas de um modo eurocentrado de se construir o saber. A extrema relevância atribuída à escrita ao longo do tempo em detrimento a outras formas de linguagem, expressão e produção, bem como o arcabouço que regulamenta e normaliza tal escrita, podem representar barreiras para muitos e é o que passamos a discutir a partir de agora.

Iniciamos nossa trajetória com a pretensão de entender como a escrita foi constituindo-se o elemento central de muitas sociedades, fazendo o recorte de períodos mais relevantes para nosso intento, até os dias atuais, bem como os princípios reguladores e as influências trazidas para o campo acadêmico e seus modos de produção.

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Remetemo-nos ao período do advento, séculos VIII e VII, e do surgimento da pólis, momento no qual, segundo Vernant (2004, p.  34)[iii], “a vida social e as relações entre os homens tomam uma nova forma, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos”.

Com essa nova dinâmica da vida social, baseada em um modo de vida urbano e que seria mais tarde a base da civilização ocidental, novas formas de interação foram surgindo, destacando-se a supremacia da palavra que se estabelece como forte instrumento de poder. Como os assuntos de interesse público eram veementemente debatidos em praça pública, a retórica, o discurso persuasivo e a lógica do saber verdadeiro, própria do saber teórico (lógica essa que marca as características do modelo de cientificidade da linguagem até o momento), tornaram-se aparatos políticos, logo, aqueles que os dominavam, sobressaiam a agregavam para  si muitos aliados  e seguidores. No entanto, contraditoriamente a um outro princípio da pólis, fundamentado na “semelhança” entre os componentes da cidade (independentemente da classe, da origem, da função), por trás desse processo de aparente democratização, já se constituía um regime de regulação que promovia segregação e subalternização, pois, além do domínio estabelecido nos debates por aqueles que detinham o “dom da palavra”, as mulheres, crianças e escravos, por não serem considerados cidadãos, não tinham direto de participar efetivamente dos debates.

 A publicização das questões sociais mais relevantes, outra característica marcante da pólis e, necessariamente realizada através da linguagem, ganha maior alcance com a disseminação e uso da escrita, uma vez que, “é a escrita que vai fornecer, no plano propriamente intelectual, o meio de uma cultura comum e permitir uma completa divulgação de conhecimentos previamente reservados ou interditos” (VERNANT, 2004, p. 36).

Avançando no tempo, de maneira intencional, nos situamos no século XVIII (1715-1789), período em que surgiu na Europa o iluminismo, um movimento intelectual cujas ideias centrais eram a liberdade econômica, o avanço da ciência e da razão e o predomínio da burguesia e de seus ideais. Para identificar os principais valores do iluminismo nos apoiamos em Adorno (1996, p. 17-18)[iv], para quem “o programa do iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber, e a técnica é a essência desse saber”.

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Por esse motivo a ciência foi instrumentalizada e o proceder eficaz tornou-se o elemento central, pois, o homem procura conhecer as coisas na medida em que as produz e, consequentemente possa dominá-las. O pesquisar os objetos em sua essência e em seus sentidos próprios foi substituído pela investigação do “como fazer ideal” numa concepção de utilitarismo e conveniência à vida humana, ou seja, “o que não se ajusta às medidas de calculabilidade e da utilidade é suspeito para o iluminismo” (ADORNO, 1996, p. 20-21).

                Na busca pelo aprimoramento da técnica, a lógica formal da produção do conhecimento passou a se guiar pela uniformização, meio pelo qual os iluministas poderiam calcular os métodos, criar modelos e matematizar o saber, pois “o pensamento se torna objetivo e é transformado em coisa, em ferramenta, como o próprio iluminismo o denomina (ADORNO, 1996, p. 43)”.

            Nesse contexto, o poder e o conhecimento tornaram-se sinônimos, e a linguagem assumiu um lugar de destaque na história ao promover a disseminação desses novos princípios e, por si própria, os ratificou por estar sob a tutela de uma classe dominante, para a qual, os valores da verdade espelham, a igualdade dos cidadãos de pleno direito e a inferioridade das mulheres, crianças e escravos – permanência da segregação do século VIII inicialmente aqui relatada.

            No processo de universalização dos princípios iluministas, a linguagem na forma escrita também se destacou, pois, transformou relatos de mitos e crenças em “doutrinas”, ou seja, algo a ser ensinado e aprendido, seguindo, obviamente, critérios da ideologia em questão. Uma releitura que se converteu na materialização de um novo padrão a ser seguido para que se produzisse e validasse o conhecimento, pois, ainda segundo Adorno (1996, p. 42), “o iluminismo é tão totalitário quanto qualquer outro sistema e para ele, o processo está decidido de antemão”.

            Por essas vias de autoconservação do poder e controle do saber, a racionalização dos métodos preconizada pelo iluminismo, acabou por fechar o pensamento em si mesmo, empobrecendo tanto o pensar quanto a experiência, uma vez que o indivíduo deveria moldar-se à técnica e aos limites da imparcialidade, obtendo assim como resultado, achados rasos, inócuos ou a mera reprodução. Tão lamentável quanto esse acorrentamento do homem à técnica é o aprisionamento da ciência a uma supremacia econômica de classe, na qual é criada e reforçada uma relação de dominação e discriminação por meio da regulação da produção e do acesso ao conhecimento e, consequentemente da vida.

            Seguindo nosso percurso, fazemos parada nos conceitos do Eurocentrismo, uma visão de mundo que tende a colocar a Europa (abrangendo a cultura, a ciência e demais padrões) como base para os modos de vida em nível global. Essa visão prevaleceu, quase que como uma doutrina, durante o século XIX até meados do século XX, e segue influenciando o mundo até os dias atuais, arraigada na organização sociocultural, política e econômica de diversos países. Outro aspecto relevante à consolidação da visão eurocêntrica, deve-se ao fato de a Europa ter sido o elemento fundamental para a constituição da sociedade moderna e também o berço onde fora gestado o modelo econômico que de fato provocaria mudanças profundas na vida da humanidade, o capitalismo.

            No plano epistemológico, destacamos que o eurocentrismo teve a racionalidade como uma de suas referências. Portanto, ainda predominava o homem (a razão) versus o mundo, cisão que, de acordo com Bortoluci (2009, p. 59)[v], promovia “uma pretensa busca por conhecimento descorporeizado e descontextualizado, objetivo e universal, busca essa atrelada a uma noção de progresso, desenvolvida em um contexto de assimetria de poder global”. A ênfase concentrava-se no saber da técnica e na disciplina de seguir os padrões preestabelecidos. Naturalmente, a escrita tornou-se o meio pelo qual todo esse rigor “científico” se materializava e se disseminava tanto nas comunidades locais como alcançando territórios distantes além mar.

            Essa razão unívoca por essência, perpassou a colonização territorial e assumiu também a condição colonização cultural, gerando o legado da colonialidade do saber após a derrota do colonialismo social e político – movimentos pelos quais muitos povos foram dizimados e muitas vozes foram silenciadas. Vale lembrar que, teorias e pensadores decoloniais, vêm ganhando força e retomando seus espaços, sobretudo no meio acadêmico e editorial, com intuito de legitimar outras culturas, outras formas de produzir conhecimento e outras formas de viver.

            Todo esse caminho foi trilhado com o propósito de resgatar em alguns momentos importantes da história, o papel da linguagem, mais especificamente, desvelar as bases e os moldes sob os quais a escrita foi se tornando um instrumento de poder e um dispositivo de controle do saber.

            Evidenciamos que, mesmo aqui sendo apenas um recorte temporal, a escrita sempre esteve e está vinculada a contextos históricos e epistemológicos que marcaram a história da humanidade. Seu uso sempre relacionado à importante missão de registrar, socializar e mesmo armazenar informações e decisões, lhe atribuíram prestígio e confiabilidade, como afirma Lyons (1987, p. 10)[vi], “foi para fins de confiabilidade na comunicação a distância e de preservação de importantes documentos legais, religiosos e comerciais que se inventou originalmente a escrita”. Acreditamos que isso tenha ocorrido devido às diversas influências, inclusive ideológicas que a palavra em si carrega e a escrita sacramenta.

            Esperamos ter provocado uma reflexão sobre a escrita acadêmica partindo da crítica aos seus formatos prontos e acabados.  O que defendemos não é a negação dos elementos reguladores dessa escrita, mas sim o rompimento dos mesmos com interesses alheios ao campo acadêmico e com os padrões rígidos e inflexíveis ditados por uma cultura, mais do que nunca, tão distante da nossa. Acreditamos sim que o reconhecimento da diversidade, a valorização das histórias de vida e o acolhimento ao indivíduo e todo o constructo de saberes outros, dessas fontes originado, certamente podem tornar a academia um verdadeiro espaço do saber democrático e autêntico.

            Por fim, o que fica pra nós é a indagação no sentido de pensarmos se não é chegada a hora de irmos além das análises e críticas aos moldes da escrita acadêmica. Pois, pulsa um agir em prol de uma nova práxis, baseada na criação e na validação de espaços plurais, de formas efetivas de intervenções e de movimentos epistemológicos que promovam as transformações necessárias tanto à decolonialidade do saber, quanto à consequente ruptura com a racionalidade única que está posta e opera fortemente na escrita acadêmica e perpassa toda a universidade.

Mestranda no PPG-IELT da UEG.

[1] MUNIZ, Kassandra. Ainda sobre a possibilidade de uma linguística” crítica”: performatividade, política e identificação racial no Brasil. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 32, n. 3, p. 767-786, 2016.

[1] VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis B. da Fonseca. 14ª ed. Rio de Janeiro: Difel, 2004.

[1] ADORNO, Theodor W. Textos escolhidos. Trad. Zeljko Loparic, et. al. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

[1] BORTOLUCI, José Henrique. Para além das múltiplas modernidades: eurocentrismo, modernidade e as sociedades periféricas. Plural – Revista de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 53-80, 2009.

[1] LYONS, John. Linguagem. In. Linguagem e linguística: uma introdução. Trad. Marilda Winkler Averburg e Clarisse Sieckenius de Souza. Rio de Janeiro: LTC, 1987. p. 2-12. Disponível em: <http://paginapessoal.utfpr.edu.br/gustavonishida/disciplinas/linguistica-geral/LYONS%20-1987.pdf/view>. Acesso em: 30 de jul. 2020.


[i] Mestranda no PPG-IELT da UEG.

[ii] MUNIZ, Kassandra. Ainda sobre a possibilidade de uma linguística” crítica”: performatividade, política e identificação racial no Brasil. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 32, n. 3, p. 767-786, 2016.

[iii] VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis B. da Fonseca. 14ª ed. Rio de Janeiro: Difel, 2004.

[iv] ADORNO, Theodor W. Textos escolhidos. Trad. Zeljko Loparic, et. al. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

[v] BORTOLUCI, José Henrique. Para além das múltiplas modernidades: eurocentrismo, modernidade e as sociedades periféricas. Plural – Revista de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 53-80, 2009.

[vi] LYONS, John. Linguagem. In. Linguagem e linguística: uma introdução. Trad. Marilda Winkler Averburg e Clarisse Sieckenius de Souza. Rio de Janeiro: LTC, 1987. p. 2-12. Disponível em: <http://paginapessoal.utfpr.edu.br/gustavonishida/disciplinas/linguistica-geral/LYONS%20-1987.pdf/view>. Acesso em: 30 de jul. 2020.

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