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A luta é muito maior do que o grito “fora, Bolsonaro”!

Caro professor Gilberto Maringoni da UFABC, São Paulo

Li o seu artigo postado em sua conta no Facebook intitulado “gente, por favor, gritar fora Bolsonaro não garante nada”.

Sempre leio os melhores intelectuais de nosso país. O amigo, na minha visão, se situa no lugar ideológico mais justo como pensador ocupado com o debate sobre a conjuntura pesada,  causada pela estrutura capitalista em crise e em espetacular decadência.

É desafio grandioso pensar esta crise eivada de destruição da pátria e do Estado brasileiro. Há intelectuais que a pensam desde fora da realidade, porque a julgam demasiada chocante e tensa. Agarram-se aos andaimes de teorias engenhadas no mundo das idéias, partindo do nada para o nada. Ou da aparente prática para a prática aparente. Contentam-se em citar autores, obras com notas abundantes em roda pé, estatísticas e teorias para defender remendos no capitalismo, mesmo que usem tons delirantes de esquerda. De uma esquerda de fala, de escritos, de poesia, de discursos, de conclusões “científicas”, de conferências e de retiros acadêmicos emocionantes, mas sem interferir na realidade.

Esses amam palavras de ordens, de darem a impressão de que agora vai, a revolução começou e terminou nas boas intenções, que também enchem o inferno. Parecem atenciosos e inovadores na substituição de velhas e acertadas fórmulas, até “superando” Marx e Lênin. Acham-se revolucionários  sonham em seus leitos chegar ao paraíso socialista “democrático”,   à cavalo de suas fórmulas românticas. São bons e belos nisso.

Porém, professor Gilberto, o desafio mais ousado, parece-me, é o dos intelectuais que descem a montanha arrogante das ilusões teóricas e de grupos que concorrem entre si, muitas vezes fratricidas nas disputas de espaços e de divulgação.

Crescer na direção do vale da prática, onde se dá a luta real e brutal, é  mais transformador e educativo, embora mais trabalhosa.

No ambiente da prática, que se move metodologicamente entorno do senso coletivo da crítica e da autocrítica, as boas intenções e os desejos idealistas se dissipam como nuvens secas, dando centralidade à realidade.

E a realidade é que o neoliberalismo entra em parafuso, levando na sua rosca o capitalismo injusto, concentrador de renda, de  poder, gerador de profundas injustiças, sem solução no seu sistema.

Porém, a luta é complexa e não aceita os  simplismos das palavras de ordem, que apelam para as rasas trocas de cargos, deixando o poder intacto.

Nesses simplismos não cabem as falsas esperanças alimentadas também por  eleições, grávidas de salvadores pessoais, desde os municípios até a gerência do Estado e da Pátria.

Portanto, os melhores intelectuais, os mais fecundos na organização do povo, são os que, além de se entregarem aos estudos e às pesquisas, se somam às Marias trabalhadoras domésticas, aos Joãos operários, aos jovens estudantes, aos pescadores atingidos pelo petróleo derramado no mar e nos rios pelos que boicotam o Brasil e o povo.

Conheço e convivo com intelectuais que se unem tanto aos trabalhadores e aos humildes de modo que estes não percebem diferença nem distância na luta.

Há poucos dias vivenciei, emocionado,  intelectuais quase às lágrimas diante de uma lutadora da Amazônia. Sorveram cada palavra dos discursos prenhes de vida e de luta da mulher corajosa e, no que lhe faltava, ajudaram a orientar e a fundamentar, dedicando, inclusive, sua energia para ler e estudar com ela.

Nessa luta há programas e táticas de ação em busca da estratégia libertadora, sem arrogância e sem abstrações.

 É bem como o senhor escreveu em seu artigo sobre as gigantescas mobilizações no Equador e no Chile: “elas começaram com reivindicações concretas, como preço de transportes, aposentadorias, emprego decente etc”. Ora, isso diz respeito ao povo e este não se deixa enrolar por pequenas estocadas no parlamento nem pelas palavras de ordem, apesar de, contraditoriamente,  ser enganado por eleições abundantes de clichês mentirosos, fundamentalistas e de messias salvadores, cujos pleitos são filhos de processos cooptados e apodrecidos,  de significados pobres de saídas para os grandes problemas.

Em setembro participei no Rio do “XIV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo”. Várias mesas de debates fizeram rodízios entre representações internacionais, intelectuais e movimentos sociais.

Escutei atento a muitos intelectuais na exposição de suas análises da realidade. Uns em vôos  supersônicos teóricos, sem encontrarem nenhum contato com a realidade, outros muito próximos da compreensão  da grande crise orgânica do capitalismo que vivemos, de campo fértil para golpistas, traidores da pátria e para sonhadores inconseqüentes.

Houve também quem, catapultado pela prática transformadora, percebesse que as condições reais da crise são dadas. O desencontro entre os de cima, sempre ávidos de dominação e opressão, não fecha nem se harmoniza com os debaixo, que são esmagados como sujeitos, pisados até ao último grau  na sua condição humana.

É, então,  desonestidade que nos contentemos com faixas e palavras de ordem sem mobilizar e organizar o povo, coisa que somente com ele os intelectuais orgânicos se propõem fazer.

Na mesa de intelectuais movidos pelo ímpeto da prática, que promove o encontro com o povo em marcha constante, empolguei-me com a fala do professor doutor Aluisio Pampolha Bevilacqua, autor da elucidativa obra “A Crise Orgânica do Capital O Valor, A Ciência E A Educação,  Volume I” (Fortaleza: co-edição Edições UFC e Inverta, 2017). Destaco uma frase de sua palestra: “não nos importa apenas o governo, mas ocuparmos o poder”.

É necessário romper o vazio entre o poder –  este nas mãos neoliberais injustas, perversas, atrasadas, entreguistas, egoístas, apátridas, no entanto no manejo de todas as instâncias do Estado – e povo desempoderado, mas gerando riquezas para quem não as produz.

Essa ruptura só se dá na articulação intelectual com o povo, notadamente  com a agredida e estuprada classe trabalhadora, que é saqueada de todos os seus direitos porque tem os frutos econômicos dela roubados.

No avanço,  precisamos aprofundar a superação de dialéticas modelo fundo de pires tais como “Lula Livre, Moro, Dallangnol, Bolsonaro e outros bandidos e delinqüentes presos, ‘fora, Bolsonaro mas fiquem Mourão e Paulo Guedes”.

Na prática,  o exercício intelectual constrói a unidade na luta,  contando com a libertação e autonomia da classe trabalhadora e, nessa aliança,  todos nós libertos de conchavos sem povo e por cima dele, pensando substituí-lo pelas intenções e pelos discursos eivados de slogans e dogmas.

Nesse campo vasto e complexo, mas de ações concretas que amedrontam os covardes da seara miliciana e laranjal fascista que, tremendo de medo faz ameaças com AI-5, dá  socos nas caras de jornalistas, incendeia matas, encharca o mar e os rios de petróleo para boicotar nosso país, o seu papel, prezado professor Gilberto Maringoni, é fundamental.

A missão de libertar o Brasil e o povo e depois punir os bandidos, os fascistas, traidores da pátria e covardes é a mãe da contradição que derrotará o neoliberalismo e arrancará as raízes do capitalismo, colocando abaixo os pés de barro de sua fase superior, o imperialismo internacional, pai das guerras e das injustiças.

Ousar lutar e ousar vencer são marcas do povo em marcha. Venceremos!

Abraços críticos e fraternos,

Dom Orvandil.

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