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A polícia matou um soldado

Edergênio Negreiros Vieira*

O título desse texto, poderia ser “A polícia matou um estudante”, “A polícia matou um traficante”, ou até mesmo “A polícia matou um trabalhador”, em todas as construções frasais a polícia está situada como a única instituição que detém o direito de matar, no Brasil. Esse mecanismo de poder, de direito sobre a morte, tem nome, necropolítica. A necropolítica é uma política de morte.

Venho trabalhando esse conceito, formulado por Mbembe, há um bom tempo. A necropolítica é a legitimação por parte especialmente, da Polícia Militar, de determinar quem pode viver e quem deve morrer. Sustentado na concepção de biopoder e em seus arranjos de controle populacional, o termo “bandido bom é bandido morto” se torna palatável aos olhos da sociedade. Mas esse sabor da morte, não é digerido de forma homogênea. Ou seja, não é aceitável a todos os corpos. E aqui não há um mero exercício de tautologia.

O elemento, para usar o patoá dos jornais policialescos, que pode ser morto é o que está em risco de morte impendente. Em países como o Brasil, recortes como classe social, gênero e raça são paradigmas determinantes nesse “direito de matar. ”

Esse estado beligerante das forças de segurança pública, se exacerbou nos últimos anos, com a política de morte, sendo alçada ao poder central da república de Bruzundangas, com direito a sinal de arminha, para simbolizar o feito.

A morte de um jovem soldado da Ala 2 (Antiga Base Aérea) em Anápolis, num movimentado cruzamento do município, evidencia como o direito de matar da polícia é forjado na sociabilidade brasileira. O caso, envolto em mistério tem duas versões: A da PM, que diz que o suspeito (num primeiro momento nomeado como “peba” outro patoá policialesco) trocou tiros com a polícia; E a versão da família que afirma que Guilherme Souza, voltava de uma confraternização com amigos, e após dar uma “empinada” na moto, se deparou com a PM, se assustou e fugiu…o restante da história todos em Anápolis já conhecem.

A morte de Guilherme Souza, poderia ser mais uma envolvendo “confronto” com a polícia, mais é aqui que a porca torce o rabo, como diria os mais sábios, Guilherme não era um “peba”, nem mesmo um jovem, preto e pobre, a quem “empurrar alguns flagrantes seria fácil. ” Ele era um soldado da Ala 2, e ainda segundo a família “menino de boa índole e de passado e presente irrepreensível. ” Enquanto a cidade aguarda o desfecho do caso, que está sendo investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM, é preciso que a sociedade cobre mudanças na forma de agir da Polícia Militar, não se pode aceitar uma polícia que atira primeiro e pergunta depois. Hoje foi o Guilherme, amanhã pode ser você.

*É professor, mestrando em Educação, Linguagens e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás.

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