domingo sangrento

A revolução em debate: “O que a Revolução Russa de 1905 ensina à de 1917?”

Após 100 anos do mais fantástico fenômeno de massas desembocado no socialismo soviético, o debate  sobre as lições da revolução russa ajuda a entender o que lá aconteceu e o que serve para o Brasil e os países massacrados pelo capitalismo dependente e desumano,  hoje.

Nesse sentido, descontadas as discordâncias sobre sua metodologia de estudos e compressão daquele poderoso evento organizado de massas de caráter mais do que economicista,  mas político,  na tomada do poder pela classe operária, vale a pena ler um artigo do intelectual brasileiro Luiz Enrique Vieira de Souza,  doutor em sociologia pela USP e professor da UFBA.

Leia abaixo parte do texto do professor Luiz Enrique Vieira de Souza e clique aqui para ler a integra do seu texto no site Opera Mundi.

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Revolução Russa de 1905 relaciona-se com a Revolução vitoriosa de 1917 na medida em que esse processo representou um ganho de consciência política para os trabalhadores e também deixou como legado os sovietes.

O marco inicial da Revolução Russa de 1905 foi o episódio conhecido como “Domingo Sangrento”. Nesse dia, uma multidão de trabalhadores de São Petersburgo participava de um protesto pacífico que se encaminhava até o Palácio de Inverno para apresentar suas reivindicações ao czar. Essas reivindicações diziam respeito à melhoria das suas condições de trabalho, incluindo redução da jornada e melhores salários.

O protesto era pacífico, mas mesmo assim o czar reagiu com violência e ordenou que as tropas atirassem nos manifestantes. Houve centenas de mortos e feridos, e a consequência disso foi a radicalização dos protestos. Os trabalhadores organizaram greves massivas nos principais centros urbanos da Rússia, e agora suas reivindicações já não eram de natureza apenas econômica, mas também política. Os trabalhadores perderam a confiança no governo e passaram a exigir uma série de liberdades democráticas, como o direito de organização nos locais de trabalho, a liberdade de imprensa e a convocação do parlamento.

Apesar de essas demandas serem similares às demandas das revoluções burguesas do Ocidente, os empresários industriais sentiram-se acuados em face do protagonismo político dos trabalhadores e preferiram uma aliança com o governo czarista enquanto uma estratégia de preservação dos seus interesses econômicos.

É verdade que esses protestos foram derrotados. Os trabalhadores não tiveram suas reivindicações atendidas e o governo conseguiu recompor suas forças e manter-se no poder por mais de uma década. Mas a Revolução Russa de 1905 relaciona-se com a Revolução vitoriosa de 1917 na medida em que esse processo representou um ganho de consciência política para os trabalhadores e também deixou como legado os sovietes, organismos de democracia direta nos quais os trabalhadores se reuniam para discutir os seus problemas, encontrar as soluções que julgavam mais adequadas e implementar essas decisões enquanto um esforço coletivo.

Tanto Max Weber como os teóricos da social democracia interessaram-se pela Revolução Russa de 1905, não somente pelo que ela representava no contexto do império czarista, mas também porque eles tomaram esse processo revolucionário como base para refletir sobre as condições específicas das questões políticas e sociais na Alemanha.

Em meu livro, fruto de minha tese de doutorado defendida na USP e de um período de investigação na Alemanha, discuto autores que desenvolveram análises originais sobre o assunto. A maneira pela qual cada um deles refletiu sobre a Revolução Russa para pensar as especificidades do desenvolvimento alemão foi orientada por seus próprios valores e concepções políticas.

Max Weber empolgou-se com a Revolução de 1905 porque acreditava que ela poderia representar um sopro de liberdade e se contrapor ao enrijecimento da vida social e à crescente burocratização das instituições políticas na Europa Ocidental. Ele procurou analisar as chances de sucesso da democracia na Rússia, mas constatou com certa amargura que os defensores da liberdade não contavam com o apoio das classes economicamente emergentes.

Ao mesmo tempo, Weber analisou a Revolução Russa sob um ângulo nacionalista, tentando apreender em que medida os conflitos em curso poderiam acirrar as tensões políticas e até mesmo militares entre a Rússia e a Alemanha.

Já no interior do Partido Social Democrata Alemão, as discussões foram marcadas pela seguinte pergunta: em que medida a greve de massas, instrumento de luta dos trabalhadores russos contra o czarismo, poderia ser incorporada com sucesso pelos organismos políticos e sindicais da classe trabalhadora alemã?

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