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A solidariedade e fraternidade que o povo brasileiro ainda mantém vem, em sua maior parte, dos negros que aqui foram escravizados

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Daniel da Costa*

Antes de entrar no nosso assunto, gostaria de dizer que a Divindade tem chamado todas as nações, principalmente a partir do ano 800 a.C., quando surgiram as grandes narrativas mitológicas que inspiraram as grandes religiões organizadas do mudo (as formas racionalizadas dos grandes mitos), a assumirem um determinado protagonismo, cada qual em sua diversa experiência com a Divindade, no empenho por serem instrumentos de solidariedade, fraternidade, justiça e paz no mundo e para com todos os seres humanos, sem distinção, e a natureza. Únicos valores sobre os quais a humanidade pode construir uma verdadeira liberdade, que é pautada na responsabilidade e cuidado, do próximo e do meio ambiente.

Desde já, importa enfatizar que a liberdade burguesa proposta desde 1500, liberdade irresponsável e de indiferença, reduzida ao materialismo sórdido do juridismo abstrato típico da ideologia liberal do século XIX como liberdade de ir e vir, é a exata mentira e desfiguração da liberdade humana possível e em suas condições de fato que foram desdobradas e desvendadas na história; condições expressas pelos valores antes citados.  

Todavia, é importante notar, nessa conexão, que cada uma das experiências profundas, que resultaram as religiões organizadas mundiais que conhecemos (os diversos politeísmos racionalizados, a religião dos Brâmanes, o Budismo, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo etc.) não assumiram, cada qual, sua responsabilidade, e se consideraram, cada qual, proprietária da Divindade pelo aspecto parcial que Dela, a cada uma das grandes religiões, havia sido permitido desvendar: todas as religiões descobriram apenas uma letra do grande e plural nome da Divindade, e, por esta letra, consideraram que detinham o “NOME” inteiro da Divindade, e, daí, o total domínio do Divino em suas mãos. (Desde sempre, na Antiguidade e hoje, deter o nome da Divindade significou e significa ter acesso a uma chave de controle da Divindade. É por isso que a ciência burguesa moderna (de índole religiosa e não laica) que surgiu em 1500, ciência do controle da natureza e dos objetos, materiais e imateriais, é sempre afoita em encontrar e definir os “conceitos das coisas”, e engessar as coisas na forma de teorias explicativas e definidoras racionais sobre o mundo concreto e psicológico para o seu total “controle”. O que deixa claro que essa índole da ciência burguesa é totalmente religiosa: no sentido pejorativo do termo. Ou seja, uma religião que, como as outras citadas, não cumprirá a vocação de promotora da fraternidade, solidariedade, justiça e paz, como dinamizadores do único tipo de liberdade realmente humana: responsável e do cuidado. Para tal, é preciso que a ciência moderna se torne laica. Ou seja, reconheça-se como ) Por isso também, cada religião do mundo passou a se considerar “proprietária” particular da Divindade e de plena posse de seu controle “real controle”. E se fechou em seus dogmas, suas doutrinas, suas sabedorias ditas espirituais. Com isso, cada uma das religiões no mundo se desviou de sua responsabilidade em serem instrumentos de promoção dos valores da fraternidade, solidariedade, paz e justiça em vista de todos os seres humanos indistintamente. E cada uma delas acabou se tornando apenas uma muleta de apoio aos esquemas de dominação e opressão que os poderosos deste mudo passaram a impor sobre o Povo de Deus espalhado sobre a terra e que pedia e pede por justiça. Muletas de apoio, direto ou indireto (na forma da indiferença), ao esquema de opressão, violência, crueldade sádica e bárbara que os historiadores ditos científicos da humanidade têm, hipocritamente, chamado de “política” (o único de encontro da civilização por parte da humanidade). Barbárie que a ideologia liberal do século XIX tem transformado em teoria e filosofia: um verdadeiro sistema de vontade de poder desvinculado da promoção da vida e da negação dos valores da fraternidade, solidariedade, paz e justiça. Vejamos a seguir.          

É importante saber o seguinte: o que nos resta de humanamente bom, como nação brasileira, vem da influência cultural dos povos indígenas e africanos; em maior destes últimos, já que aqui foram escravizados por (formalmente) 400 anos, e cuja presença mais marcante na formação cultural do Brasil é algo sem contestação.

Na prática, os descendentes de africanos escravizados no Brasil permaneceram escravos por muito mais tempo do que os 400 anos em que era considerado “legal e moral”, aos ditos “cristãos brancos”, possuir um outro ser humano como objeto de uso pessoal, tal como fazemos hoje com uma escova de dentes e depois de gasta a descartamos. Essa aberração inominável se manteve mesmo após a falsa abolição de 1888.

Todavia, é preciso notar, os legados culturais de sensibilidade ética fraterna e solidária herdada destes dois povos, os autóctones da floresta e os africanos, se define pela nossa ainda capacidade de solidariedade e fraternidade de hoje.

É importante notar, desde já, que a fraternidade e a solidariedade, que estes dois povos já possuíam em suas culturas originais graças ao dom da vida que Iahvé-Elohim, o Senhor da Vida, em seu grande amor, havia disponibilizado a estes dois povos, deveria se completar com os valores da justiça e da paz que, na mistura com os povos brancos europeus, seriam disponibilizados graças à cultura civilizatória proveniente da razão lógica e científica da Grécia, jurídica e de organização política de Roma, e ética de respeito à dignidade humana e singularidade da pessoa relacional da tradição judaico-cristã. Assim, com mais estes dois valores fortalecidos pela cultura civilizatória, os povos da floresta e os africanos constituiriam o maior exemplo e experiência de vida social, política, econômica, cultural e espiritual saudável que as demais sociedades (inclusive e principalmente a ocidental) jamais poderia chegar sozinhas.

É importante notar que o que vem a seguir pretende esclarecer que a “liberdade” humana, de fato, a real, só pode se dinamizar sobre os valores da solidariedade, da fraternidade, da justiça e da paz. Mas o ocidente dito cristão liberal tem representado uma amputação desta base de construção da real liberdade humana negando-a e destruindo-a na fonte. Sempre neutralizando qualquer possibilidade de seu surgimento por meio da imposição do seu reflexo individualista e belicoso através de sua visão social como rinha de disputa, de uma guerra perpetua de todos contra todos exportada para todo canto deste planeta desde 1500 e com requinte e sofisticação retórica e teórica desde o séc. XVIII.    

Assim, a primeira coisa a notar é como a espiritualidade africana logo se apresentou aqui, com o índice da ingênita solidariedade cultural trazida de suas culturas autóctones, nos “despachos” oferecidos nas encruzilhadas. “Caridade aos famintos”, que os “brancos cristãos” da Casa Grande nem sonhavam em fazer ao seu semelhante, mesmo indo às missas todo domingo.

Fato é que os “despachos” (desde já, para mim esta é a interpretação correta; e não concordo com a redução espiritualista que alguns propõem, esvaziando o sentido concreto e subversivo que pretendo enfatizar) eram simulacros ou “oferendas indiretas” aos orixás (no sentido de que eram atos religiosos sim, que representavam a vontade de continuação da vida com abundância para todos), mas que, de “modo mais direto, concreto e subversivo, de resistência” (menos religioso e mais espiritual, portanto), tinham a intenção de “fornecer a todo foragido escravo, em busca de liberdade, a alimentação necessária para que ele continuasse sua viagem até chegar a um quilombo”. Assim estes “despachos aos orixás” se destinavam, na verdade, a serem consumidos pelos escravos em fuga e foragidos da barbárie dos ditos senhores “cristãos brancos”, europeus ou descendentes, “livres”, com sua concepção burguesa reduzida de liberdade: liberdade materialista reduzida de “ir e vir”, porque baseada no falso valor do poder de dominação dos corpos das pessoas negras alimentado pelo ódio ao próximo diferente. Exatamente a negação da solidariedade e da fraternidade.  

Os despachos nas encruzilhadas (locais popularmente reconhecidos como pontos “cruciais” de manifestação espiritual) eram, na verdade, pontos mais fáceis de localização destes mesmos despachos, a serem encontrados pelos escravos em fuga. E isso, para que pudessem completar sua chegada salvos e bem alimentados nos quilombos que os receberiam. (Deixo claro, que falo dos despachos realizados durante todo o período em que este ensejo por liberdade real baseada na solidariedade e fraternidade se manteve durante o período da escravidão. Não me refiro aos despachos de hoje, já totalmente emburguesados e supersticiosos que expressam apenas a vontade do “despachante” de dominar, comprar ou convencer alguma “entidade espiritual” a fim de que esta conceda ou realize um desejo pessoal. Não me refiro a nada disso.)   

Estes despachos mais originários levavam ingredientes tradicionais da África (como o azeite de dendê), mas, além disso, alimentos de grande capacidade nutritiva: ovos cozidos, farinha de milho, e mesmo frangos inteiros (já sem sangue, supondo uma cerimônia sacrificial anterior, mas, na verdade, o que possibilitava, também, com menor liquido no corpo da ave, sua maior conservação até seu consumo); também arroz, feijão, além de aguardente, a bebida acompanhante mais disponível aos escravos nos engenhos de cana de açúcar etc.

Juntos a estes despachos, eram acesas velas, porque estes despachos eram realizados à noite. Tanto para a sua melhor visualização por parte do foragido, como para marcar um tom religioso que pudesse espantar os brancos e capitães do mato supersticiosos que estivessem no encalço do escravo em fuga. Estas velas, vindas da cultura religiosa do catolicismo ambiente, eram, (novamente, esta é minha interpretação), sinais luminosos à noite para que os alimentos fossem mais facilmente localizados nas encruzilhadas e lugares retirados. Assim, com o sentido de serem ingredientes já conhecidos e consagrados advindos da religiosidade católica romana ambiente, e que foram paulatinamente incutidos nos cultos africanos (até o sincretismo de hoje), estas velas, por seu tom religioso, afastavam os supersticiosos “cristãos católicos romanos”, ao mesmo tempo em que serviam como sinaleiros para os escravos em fuga, pelos quais poderiam encontrar mais facilmente os alimentos. 

Este ato era realizado reiteradamente pelas diversas comunidades de escravos nos diversos locais de trabalho forçado junto às casas grandes, nas encruzilhadas próximas a estes lugares, e eram ações toleradas porque os brancos escravizadores os consideravam apenas como oferendas religiosas culturais permitidas, típicas da “superstição dos negros”.

Apesar de muitos destes brancos chutarem os despachos, quando os encontravam pelas encruzilhadas, não ficavam sem receber alguma consequência, na mesma proporção do ódio e desumanidade que os orientavam neste ato. Iahvé-Elohim, o Senhor do Amor, da Paz, Solidariedade e Fraternidade, era quem inspirava, no profundo, para além das aparências, estes atos que expressavam o clamor por justiça do Povo de Deus africano que se encontrou no exílio, aqui no Brasil, por formalmente 400 anos: exatamente o mesmo tempo em que o povo de Israel permaneceu no exílio, no Egito, também por 400 anos. E seguiu uma história de resistência ao cumprimento de sua vocação de proclamador da justiça de Iahvé-Elohim no mundo. Justiça pautada sobre a solidariedade, fraternidade e paz. Únicos valores reais sobre os quais a humanidade pode desdobrar e dinamizar a “liberdade humana”. Como foi sempre lembrado ao povo de Israel pelo Pêssach: feriado da Páscoa judaica; ao mesmo tempo que negligenciado.    

Quando o liberal Sérgio Buarque de Holanda fala em seu livro (clássico sobre a formação da cultura social e política do Brasil) “Raízes do Brasil” do conceito de “homem cordial”, ele descreve a amabilidade hipócrita do que chama, imprecisamente, porque conceito meramente generalizante, de “povo brasileiro”. Faria, por outro lado, com mais precisão relacionasse este conceito ao legado de hipocrisia e desumanidade estabelecido pela minoria da “elite de dinheiro” dos brancos escravocratas e escravizadores brasileiros que, mesmo após 1888, mantiveram “ilegalmente” em muitos lugares o trabalho escravo. (Nestes nossos dias, podemos ainda ver este mesmo reflexo escravocrata da minoria canalha do dinheiro se manter. Mesmo com tanta informação sobre ética e frequentando as ditas igrejas cristas.) 

Elite de dinheiro apenas, (sempre porque gente sem educação, humanidade, civilidade, amor ao próximo etc., só “dinheiro”. Isso realmente torna o conceito de “elite”, usado aqui, impreciso, mas apropriado para os moldes do hierarquismo excludente que ainda vige na sociedade brasileira). Elite de dinheiro constituída pelos oligarcas ruralistas que se mantêm na cena do poder mesmo após o fim do Segundo Império decretado com o golpe militar de 1889. Mudança política esta (por meio de golpe militar) que “se impôs”, como sempre na história do Brasil, de cima para baixo. Sem a participação e nem o consentimento do “povo real brasileiro” constituído por caboclos, negros, mestiços, índios, pobres trabalhadores rurais que Sérgio Buarque de Holanda não consegue contemplar em seu conceito de caráter pretensamente geral. Assim, golpe de 15 de novembro de 1889 que estabeleceu a farsa da tal República. Esta, um esquema reformulado, pela vontade de poder do senhorio oligárquico, agora dividido e expresso na disputa pelo poder da ala ruralista e a burguesa comercial. Era o Estado liberal brasileiro, ainda incipiente, nascendo. Estado balcão de negócios particulares das oligarquias, das elites de dinheiro. Uma disputa de poder viciada, sempre fatiando uma troca de poder entre os latifundiários das regiões norte e nordeste e a burguesia comercial (e cafeeira) das regiões sul (predominante na produção da carne de charque) e sudeste. Esquema que vigorou praticamente intocável, até 1930.

Esta mesma burguesia comercial-empresarial-latifundiária hipócrita do século XIX, que sempre quis o Estado brasileiro, as riquezas nacionais e o orçamento público em suas mãos (não na do seu verdadeiro dono: o povo real brasileiro) fez herdeiros. Sua “cordialidade” (outro nome para sua hipocrisia sádica) se manteve e assumiu hoje tons entreguistas e traidores. Sempre, contudo, para que o Estado continuasse, de alguma forma, sendo seu balcão de negócios particulares de 500 anos.

Essa cordialidade se desdobrou hoje, após o golpe de 2016. É uma mesma cordialidade, cujos herdeiros sabotaram a democracia brasileira em formação. Estes não titubearam em retirar, na marra, uma presidenta eleita que não cometeu crime algum de responsabilidade, Dilma Rousseff. Dando início à desestabilização das mínimas bases civilizatórias que se ancoravam nas instituições públicas e de justiça do Brasil, liberais e frágeis, de índole meramente formal não real, herdadas do século XIX. Assim, baseadas na velha ideologia liberal do século XIX que sempre soube conviver tranquilamente, e com consciência tranquila, com a escravidão e o racismo, enquanto estes serviam aos seus interesses e em vista de sua vontade de poder no mundo. (Como veremos mais abaixo.)

Esta “elite de dinheiro” brasileira atual golpista, (elite de dinheiro só, pois ainda sem cultura, sem humanidade, sem educação, sem ética, sem qualquer sensibilidade humana, sem fraternidade e nem solidariedade etc., apenas com dinheiro e poder de influência), pressentiu que, após 500 anos de existência e injustiça, finalmente, em recordes 13 anos, nos governos Lula e Dilma, o “povo brasileiro real” havia sido inserido no orçamento público. 40 milhões de seres humanos brasileiros incluíram os que saíram da linha da extrema pobreza e os que ascenderam socialmente e de qualidade de vida, graças aos projetos de ampliação dos direitos civis, econômicos e educacionais etc. da gestão do Partido dos Trabalhadores que passou a prestar um serviço público responsável para com seu povo, conforme a CF de 1985. Em 13 anos, o povo real brasileiro foi recolocado no orçamento público do Estado brasileiro como solução e não como problema. Ou seja, finalmente, o Estado liberal brasileiro havia entrado nos trilhos de um projeto de civilização mais plena. Quer dizer, com reais ensejos à concretização dos valores da solidariedade e da fraternidade, advindos das culturas dos povos das florestas e, com maior presença, dos povos africanos escravizados. Todavia, por força das circunstâncias históricas, valores estes delineados e dinamizados sobre o solo muito frágil e movediço do tipo de “justiça e paz” mantidas pelas atuais instituições públicas que, nascidas no século XIX e viciadas pelo elitismo e hierarquismo, se mantêm sobre o signo do individualismo e da competição, típica decadência da ideologia liberal que aqui ainda vige e que compactuou e sempre compactuará com o golpismo.

Quando essa elite de dinheiro atual percebeu isso (mesmo sem ter perdido nenhum dos seus privilégios durante estes 13 anos do governo petista, pelo contrário, até mesmo ganhando mais dinheiro do que havia ganho antes), não titubeou em seu reflexo golpista histórico. O que resultou fatidicamente, hoje, na atual tentativa de volta ao poder com sua vontade de dominação autoritária (escravocrata), mesmo que por meio de golpe fascista. Ou seja, exatamente com a possibilidade de volta aos moldes da sociedade escravagista do século XIX.

Essa tal “cordialidade” das elites de dinheiro oligárquicas brasileiras, de que fala Sergio Buarque de Holanda em sua obra, a temos visto, hoje mesmo, na procrastinação e demora, por parte do governo federal, e em muitos dos seus sequazes aloprados que ocupam cargos de comando e decisão importantes no país, em atender às demandas atuais em plena pandemia. Demora proposital e sádica em tomar medidas responsáveis e pautadas no respeito à vida e dignidade humanas, à ciência e à organização racional sanitária desenvolvida através dos séculos por países que já sofreram muitas vezes problemas de epidemias. Demora nas aplicação de ações que podem diminuir os impactos letais do Coronavírus-Covid-19. Ações estas na forma de informação científica publicamente disponibilizadas sobre cuidados higiênicos e prevenções através de informativos diários pelos meios de comunicação de massa; ações de apoio econômico na forma de liberação de verbas públicas (dinheiro que pertence ao povo) para distribuição de renda às cidadãs e cidadãos para que estes permaneçam em quarentena em suas casas com suas famílias até que o processo de inoculação viral esteja controlado; ações na forma de apoio estratégico e organizado às pesquisas no combate e descoberta de antídotos à pandemia nas universidades públicas e institutos de pesquisa; na forma de apoio imediato e estratégico (inteligente) aos profissionais da saúde da linha de frente, em sua lide perigosa na recepção e tratamento de infectados etc.

Sabem por que há esta demora? É que, por causa dos reflexos da tal “cordialidade” brasileira que têm se mantido nas e pelas elites de dinheiro oligárquicas aqui do Brasil do passado e de agora, a forma de expressão de sua hipocrisia sádica pode, através dessa demora proposital e desdenhosa, ser novamente realizada. É por meio dessa atitude sádica e genocida, cruel, que esse tipo de gente se sente realizada em seu reflexo demoníaco, irracional para a malignidade cruel. Pois esta elite de dinheiro sempre contou e conta que a morte chegará para os escravos; para o povo real: os pobres, os sem-terra, os encarcerados, os moradores da periferia, os sem-teto, os órfãos, os desempregados etc.; e nunca para esta elite de dinheiro e seus descendentes. Continuam agindo como os senhores brancos da casa grande e seus capitães do mato que chutavam os “despachos” dos escravos, e, como aqueles, receberão a devida recompensa.  

Vejamos agora, como nos EUA, país dito cristão, bonzinho, democrático e mais rico (poderoso) do mundo, a “cordialidade” da elite de dinheiro estadunidense se manifestou, por sua resistência ao testemunho de solidariedade e fraternidade característico dos povos africanos escravizados que para lá foram.

Na base da formação religiosa, que embasa a cultura dos EUA, há, em maior parte, o moralismo religioso protestante que ficou embutido na cultura estadunidense secular até os dias de hoje. Este, um moralismo protestante, que procura equilibrar a contracultura da barbárie burguesa liberal capitalista, própria do modelo individualista e competitivo liberais que lá vige desde sua formação como colônia inglesa. Este moralismo protestante (tipicamente calvinista de lá) exorta os estadunidenses a pouparem e aos ricos a fazerem “doações aos pobres” que não conseguem ter o que comer lá, quanto mais poupar. O capitalismo, lá nos EUA (e no resto do mundo), promete que quem trabalhar bastante vencerá na vida e terá a tão sonhada “segurança vital e existencial” para si e sua família pois seus méritos serão  reconhecidos Daí o indivíduo alienado pela ideologia liberal sai a trabalhar por toda vida e, em sua maioria esmagadora, na metade da vida útil desperdiçada num trabalho insalubre e nada realizador em prol da manutenção do sistema capitalista de morte, vê-se sem a tal retribuição do capitalismo e em muitos casos na miséria. É óbvio que esse resultado não é “sentido” nunca como uma regra pelos “fieis individualistas em competição”. O esquema religioso laico protestante calvinista se encontra aqui também. Como nas igrejas protestantes e neopentecostais de hoje, há sempre alguém para contar um testemunho de vitória por seu esforço e reconhecimento de mérito a serviço do deus Mamon (dinheiro). Testemunho que sempre serve para humilhar e criara baixa autoestima, frustração, complexo de inferioridade e recalques no restante da congregação de fracassados que não devem parar de trabalhar para o “senhor”, mas, sim, se esforçar. Já que seu fracasso só expressa que não fizeram o suficiente. Fracassados como os 45 milhões de estadunidenses miseráveis que hoje se encontram nas ruas, sendo que 17 milhões são crianças que passam fome. Fora os que moram em trailers sem lugar fixo, sem endereço; os que moram nos guetos sem esperança, só sobrando a vida de crime, o tráfico, a prostituição e a pornografia; fora os estadunidenses que conseguem subempregos, e que se armam até os dentes, odiando os latinos e imigrantes como os “seus inimigos” (e não o sistema e regime capitalistas que lá vigem e os esmagam diariamente); não os banqueiros que fraudam e viciam todo o sistema econômico capitalista fajuto que já é viciado em si e nunca resolverá o problema da distribuição justa; não os empresários das armas e da guerra perpétua; da indústria alimentícia da morte lenta; da indústria farmacêutica da doença, sobrevida miserável e morte; dos lobistas destes “grandes empreendimentos de negócios” do Estado liberal estadunidense que se compraz em permanecer refém dessa canalha etc.       

Esta “cultura filantrópica calvinista, do estadunidense caridoso e de bom coração”, recebeu, é verdade, no Brasil uma versão mais hipócrita, sádica e cruel (porque meramente sentimental e sem apelo real para a boa-ação para com as pessoas carentes). Isso, como já notamos, recebeu um bom nome de Sérgio Buarque de Holanda: “homem cordial”. Assim, é somente este diferencial, no nível da hipocrisia, que diferencia a minoria endinheirada estadunidense da de cá, do Brasil. Mas esta diferença quase se anula, quando a elite de dinheiro dos EUA passa a não ter mais motivação religiosa para fazer sua “caridade por boa consciência religiosa protestante calvinista expressa e consciente”. (Motivação religiosa que era o freio frágil que ainda se antepunha a sua barbárie, sempre atualizada e sutilizada pela ideologia liberal adotada lá também; mas freio meramente moralista e baseado no medo de ir para o inferno, é verdade). Todavia, hoje, essa elite de dinheiro estadunidense passa a fazer “caridade laica” tanto por motivação de isenção governamental de impostos em suas fortunas, como pela possibilidade de veicular seu nome, ou de alguma marca famosa, ou nome de alguma “celebridade”, a tais atos de caridade e filantropia expostos em shows televisos ou em filmes açucarados de Hollywood. Mas isso com ainda a “intenção religiosa de fundo” de fazer esta minoria endinheirada ser a dos atuais “santos seculares” que, na religião do dinheiro do mundo burguês, liberal e capitalista de lá, EUA, devem ser seguidos tanto no exemplo de suas ações de caridade, quanto em seus supostos modelos de vida de “sucesso”: como homens e mulheres bem-sucedidos, pessoas de mérito que souberam bem servir ao deus Mamon e têm seu mérito reconhecido. Que conseguiram “vencer na vida” porque trabalharam muito e deram duro. Exatamente como nas igrejas.      

Nessa conexão, podemos ver como alguns Estados dos EUA, tais como Mississipi, Lousiana, Geórgia (caracteristicamente com grande população afro descendente) e Novo México (caracteristicamente com grande população mexicana autóctone) são historicamente abandonados pelo Estado liberal estadunidense, sem nenhuma dor no coração por parte dos seus líderes políticos sempre caridosos e bem-intencionados em suas ações de ajuda humanitária. Estado liberal que diz, hipocritamente, que é diminuído porque o Estado não tem que administrar empresas e serviços públicos, mas “cuidar do povo”, cuidar das pessoas!

Essa expressão liberal hipócrita, “cuidar do povo”, vigente sob o regime capitalista, como vemos, expressa a maior hipocrisia sádica e cruel da história da humanidade, e tem sido doce e cegamente seguida por todos os presidentes dos EUA, desde a fundação, sem exceção. O que nos faz pensar em como seria a vida das pessoas nestes Estados abandonados dos EUA se não fosse a cultura de solidariedade e fraternidade vigente entre a maioria do povo pobre destes Estados. Cultura vinda dos povos africanos (e autóctones mexicanos) que para lá (principalmente também os afrodescendentes) foram levados e também feitos de escravos à servidão dos “brancos europeus cristãos calvinistas puritanos” ruralistas do sul; e sempre desprezados pelos burgueses comerciantes e empreendedores do norte dos EUA, até a escravidão ter se tornado um “mau-negócio” e este seu desprezo ter se tornado, hipocritamente, expressão de humanitarismo filantrópico abolicionista. Como veremos à frente.   

O ódio à cultura de solidariedade e fraternidade, típicos valores do reino de Jesus Cristo, cultura esta que, ampliada e enfatizada, poderia ser expressa e se tornar exemplo de humanidade em meio à cultura individualista, egoísta e da competição selvagem vinda dos “brancos europeus cristãos” que colonizaram os EUA”, lá também, como aqui no Brasil, não aconteceu. Os “brancos cristãos” colonizadores dos EUA passaram a se considerar religiosamente como “raça eleita de Deus”. O que, em suas ações políticas internas e depois sobre o resto do mundo, os inspirou e fortaleceu, cada vez que sua pragmática da vontade de poder e dominação funcionava (pois alinhada estruturalmente à malignidade estruturante da sociedade burguesa desde 1500) a se entenderem como “raça superior” (White Power) aos demais povos, que deveriam se submeter ao seu regime. Passaram a se considerar “nação eleita” (eleita para ficar numa boa, comendo bem, com muito dinheiro e com  direito a ter paz em sua consciência dita “cristã” mesmo depois de pisotear, amputar, esmagar, assassinar, escravizar, barbarizar, estuprar, amputar, e mesmo usar os bebês filhos dos escravos como isca para atrair e pegar jacarés nas beiras dos rios para fazer, com o couro do animal pego, bolsa de luxo para as madames “brancas cristãs” ficarem mais elegantes em seus trajes de luxo nos cultos e missas das igrejas aos domingos etc. Afinal, eram boas contribuintes, dizimistas e faziam muita caridade.) Enfim, “raça branca cristã eleita” que podia sempre se sobrepor aos demais povos, considerados raça inferior; com toda essa canalhice entendida, por esta elite de dinheiro sádica e hipócrita estadunidense, como endossada pelo Criador da Vida, Iahvé-Elohim, sempre tomado como o avalista particular desta barbárie racista e escravocrata liberal sempre reformulada.

Essa situação de “inversão total” e deformação do mais básico de humanidade, que vem da pregação do evangelho de Jesus Cristo, foi tão grande na formação dos EUA que o próprio Abraham Lincoln (o dito “grande abolicionista humanitário”), apoiado pelo “antiabolicionista” general James Watson Webb, ambos do mesmo partido dito Republicano, quis enviar, pagando 600 mil dólares em 1862, no valor da época, “todos” os negros escravizados estadunidenses ao governo brasileiro de Dom Pedro II; para que fossem deportados para o Brasil, na Amazônia. O que não foi aceito por Dom Pedro II. Vejamos como foi o caso.

Retiro os extratos abaixo de: https://revistapesquisa.fapesp.br/2009/02/01/o-dia-em-que-o-brasil-disse-nao-aos-estados-unidos/; visitado em 21/05/2020.

“Não é apenas do interesse dos Estados Unidos e absolutamente necessário para sua tranquilidade interna que se livre da instituição da escravidão, mas também, em consequência do preconceito de nosso povo contra a raça negra, se torna indispensável que o negro liberto seja exportado para fora de nossas fronteiras, pois conosco ele jamais poderá gozar de igualdade social ou política”, afirmou Webb em carta ao secretário de Estado de Lincoln, William Henry Seward.

“O tom, mais “discreto”, ainda assim não renegava (mesmo que Webb, então na situação, passasse a se dizer contrário à [Guerra de] Secessão e, logo, à “lepra da escravidão”) os editoriais que escreveu, em 1843, para o Courier & Enquirer: “Libertar os negros do Sul e deixá-los onde se encontram será o início de um conflito que só poderá terminar com o extermínio de uma ou da outra “raça”. [aspas nossas] A raça negra é caracterizada por uma ignorância degradante e inferioridade mental, enquanto os escravocratas são honrados, patriotas e de mente elevada”.

Sempre tomando a “Deus” como o avalista divino de sua safadeza e canalhice sádica, os liberais estadunidenses não se esquecem do quão são “raça superior” e “eleita para ser cabeça do mundo” e não sua calda. Como se, com base em sua loucura e mania de perseguição e índole competitiva individualística, o restante do mundo os quisesse como cabeça ou calda e não cuidar, cada qual, dos seus próprios problemas.     

“Deus criou nos corações do povo dos Estados Unidos, cujo clima e solo são propícios ao trabalho escravo, uma aversão à escravidão que resultou na maior guerra civil jamais vista. O negro que está prestes a ser manumisso (libertado) foi treinado para o trabalho: é dócil e tratável, mas suspira por liberdade. Deus, em Sua infinita sabedoria e misericórdia, tornou possível, por meio da política e interesses dos EUA e do Brasil, assegurar-lhe essa liberdade. O Brasil sofre pela falta de mão-de-obra. Quatro milhões de negros preparados para o trabalho, cada um valendo o equivalente a três africanos nativos, estão suspirando por liberdade e prontos para comprá-la no solo congenial do Brasil e sob as leis e instituições liberais brasileiras.” Afinal, continua Webb, “a Constituição do Brasil [que obviamente, pelos motivos que ele, o piedoso Webb, elenca, não deve ter aval divino] reconhece como iguais os negros dos homens brancos e igualmente elegíveis com eles aos mais altos cargos do Império, onde a distinção social entre as raças branca e negra, que já existiu, está quase erradicada”. O projeto, assegurava o filantropo Webb, era filantrópico, assim como ele mesmo e Abraham Lincoln eram homens de bom coração, tementes a Deus e com as melhores das intenções.

Todavia, uma escavadinha mais profunda e, pronto, encontramos motivações nada filantrópicas dos senhores Webb e Lincoln.  

“Há indicações fortes de que havia interesses comerciais no projeto, tanto de Webb como de brasileiros interessados em lucrar com a administração de uma companhia de imigração, nos moldes lucrativos das companhias de colonização na África, como a que gerou a Freetown, em Serra Leoa, em fins do século XVIII, por abolicionistas ingleses, com o objetivo de desembarcar africanos apreendidos em tráfico ilegal, ou a compra do território da Libéria pela American Colonization Society, nos anos 1820”, avalia a historiadora Maria Helena. “O dedo de Deus aponta para as províncias do Norte do Brasil como o futuro lar dos escravos libertos dos EUA. O Brasil e o negro liberto irão ambos se beneficiar na mesma medida: um tratado entre os EUA e o Brasil, pelo qual todos os negros libertos dos EUA lá sejam agraciados com terras pelo governo do Brasil e ao término dos anos estabelecidos se tornem cidadãos brasileiros com todos os direitos e privilégios da população negra do Império”, argumentava o puritano, religioso, moral e homem de bem filantropo, Webb. Um homem que nunca se esqueceu de dar os créditos devidos a sua filantropia desinteressada, ou seja: a “Deus”, o seu avalista divino. 

Todavia, esta sanha por destruir qualquer exemplo de humanidade fraterna e solidária que viesse dos povos africanos permaneceu nos EUA. Mesmo após o período das abolições, tanto a dos EUA como na do Brasil, no final do século XIX e início do século XX, a noção de “raça superior branca” (White Power), germinada nos EUA, influenciou e passou a inspirar todas as moções imperialistas das potências europeias liberais capitalistas que passaram a considerar o resto do mundo e suas riquezas como propriedades suas e capazes de serem surrupiadas ao infinito; e aos demais povos (africanos, asiáticos, orientais …) também como raças inferiores que precisavam receber sua “caridosa ajuda” cristã e civilizatória, pela qual estes povos sub-humanos milenares ascenderiam à civilização, à ciência e ao cristianismo. Assim, a ideologia liberal (que vive do individualismo e da competição, dois entes que fundamentam sua visão da vida social como uma permanente “guerra de todos contra todos”), nunca poderia tolerar uma organização social solidária, fraterna e respeitosa ao meio ambiente que viesse como exemplo de vida dos povos da África com acesso aos valores civilizatórios complementares da justiça (distributiva) e da paz. Já que isso poderia inspirar todo o resto do mundo cristão dito civilizado como outra possibilidade de vida à que tem sido proposta pela industrialização europeia de meados do século XIX, apoiada e mantida, inicialmente, por toda burguesia ocidental endinheirada liberal capitalista. Assim, levar “realmente e de fato” valores civilizatórios (o que a ideologia liberal não possui e nunca possuirá), tais como a ciência (grega), a organização política republicana (romana) e a ética judaico-cristã do respeito à dignidade humana e singularidade da pessoa relacional aos africanos, faria com que a cultura de confronto tribal milenar, tradicional entre os povos africanos, fosse superada fosse superada pelo maior amparo e aporte sobre os quais os valores da fraternidade e solidariedade mais internos tomariam a dianteira. Todavia, esta mesma cultura de guerra de todos contra todos, tribal africana, vigia no resto do mundo e se manifestava, na Europa cristã e EUA, de maneira mais requintada e sofisticada que a mesma barbárie tradicional tribal africana. E isso graças à adoção da ideologia liberal no comando que sutilizava e tornava mais eficiente a destrutividade humana. Como já dissemos, esta mesma cultura bélica era a que havia sido assumida desde a fundação da sociedade burguesa no século XVI, sofisticada em formas jurídicas e tocada por instituições inspiradas pela ideologia liberal que organizou a barbárie belicista emoldurando-a na forma de teoria e filosofia política e jurídica liberal a partir do século XVIII no Ocidente. E mesmo com discurso filantrópico e de defesa da dignidade humana. 

Nessa conexão, é bom lembrar que os principais financiadores do tráfico de escravos no Ocidente moderno burguês do século XVI foram os ingleses “cristãos”, puritanos e servos do senhor caridosos. Claro, até o século XIX deixar claro para estes filantropos ingleses que a escravidão humana não era um bom negócio. Daí deram lugar à boa consciência liberal abolicionista.   

Outro fator preponderante foi, também, que, com o surgimento da industrialização e os processos de fabricação de armas de fogo, manter a cultura das guerras tribais africanas (e de outras regiões invadidas), era uma forma de “desovar” as armas produzidas neste novo nicho de mercado da guerra perpétua, do genocídio. É a partir deste momento que o lobby das indústrias de armamento passam a fazer parte da vida política dos EUA. Passando mesmo a influir diretamente sobre os rumos da nação estadunidense; rumos orientados pelos capitalistas donos das indústrias bélicas. A partir disso, sempre, o discurso hipócrita dos liberais capitalistas imperialistas de que “estavam levando a palavra do senhor e a civilização para os povos africanos” no século XX se tornou a desculpa esfarrapada do dia para que pudessem surrupiar o ouro e pedras preciosas, enfim, os recursos naturais e riquezas dos africanos, dando em troca suas armas de fogo para a manutenção da cultura de guerra entre as tribos; agora já, falsamente, “civilizadas e cristãs” ao modo liberal.

Fato é que a barbárie africana, na forma de cultura de guerra entre as tribos fomentada agora com armas de fogo produzidas pelos brancos cristãos ocidentais ditos civilizados, poderia ser superada por meio de um real absorvimento, por parte das tribos africanas, dos dispositivos culturais civilizatórios que haviam se constituído no Ocidente durante sua formação histórica. Se houvesse realmente essa intenção por parte das potências imperialistas europeias. Mas também, neste momento da história mais recente do domínio da ideologia liberal, não foi esse o caso.

Haviam sido os valores da civilização ocidental advindos da racionalidade científica da Grécia, da organização política republicana, jurídica, de saneamento e planejamento urbano de Roma, mais o sentido da ética da pessoa humana e sua dignidade intrínseca a sua singularidade advinda da tradição judaico-cristã que barraram a cultura de guerras sanguinolentas sem fim das hordas e tribos bárbaras que constituíam o que nós chamamos hoje de Europa civilizada. Foram estes valores civilizatórios (herdados da Grécia, Roma e Judaísmo-cristianismo), valores baseados na apropriação por parte das pessoas da competência escritora e leitora, pelo ideal de “educação universal” (universidade), que colocou freio na barbárie que imperava antes que a Europa bárbara se tornasse um continente mais civilizado, antes que reeditar a barbárie sofisticando-a e refinando-a na forma da ideologia liberal e suas falsas instituições democrático republicanas.

Portanto, estes dispositivos culturais civilizatórios que os impérios europeus, e o regime estadunidense mais atual, herdaram gratuitamente, já o possuíam como legado cultural advindo da Grécia, Roma e judaísmo-cristianismo, mas que (não tendo conseguido atualizá-los devidamente em suas próprias culturas por causa da ideologia liberal individualista e competitiva (que inspira a vida social como guerra de todos contra todos), não repassaram estes valores para os povos africanos. Pelo contrário, encontraram um meio de manter a cultura de guerra perpétua e ainda fazer um “bom negócio” e tirar lucro com a necrofilia.

Assim, a ideologia liberal, no Ocidente, conseguiu sofisticar a franja da barbárie que persistia e resistia, sempre acompanhando o desenvolvimento civilizatório. E o fez na forma e imposição ao mundo ocidental do seu esquema social individualista e competitivo movimentado pelo seu mundo do dinheiro; introjetando e mantendo, na dinâmica de funcionamento de suas ditas instituições republicanas democráticas, a cultura do ódio e da guerra de todos contra todos. Ou seja, o domínio pleno do que passou a constar apenas como uma sombra, uma franja no desdobramento civilizatório: a barbárie.                

É isso o que também explica o ódio visceral dos liberais europeus e estadunidenses a qualquer exemplo de sociedade baseada em um modelo de democracia formal não liberal, inclusiva e participativa, que rompa com a contra cultura da barbárie do ódio e guerra perpétua de todos contra todos que é o que alimenta e justifica as mentiras e as falsas soluções da ideologia liberal.

É isso o que explica a cultura de ódio, mentiras e difamações dos liberais da Europa e EUA, difundidas por todo o mundo, contra a revolução Russa. Isso explica também porque se deu o seu contínuo processo de ameaças de guerra ao povo russo, durante o primeiro período revolucionário (1917-1930) e que deu ensejo e vitória ao argumento que fez surgir, e se instalar na Rússia democrática, o modelo centralista e ditador de Stalin; e não o modelo de caráter colegiado que se seguiria aos anos 1930, como defendia Lenin e era a vontade da ala de revolucionários mais democratas inclusivistas não centralistas, como Bukharim. A revolução russa havia conseguido estabelecer um modelo de equalização social civilizatória, em um país continental marcadamente agrário e medieval, como era a Rússia czarista, em recordes 13 anos, com um mínimo de uso de força letal. O que a sociedade capitalista, burguesa e liberal ocidental, não havia conseguido em 500 anos, com massacres e sanguinolência por todo o período. 

É isso que explica o ódio do inglês liberal Winston Churchill à cultura de paz promovida e vivida por Mahatma Gandhi na Índia duramente a ocupação inglesa.

É isso que explica o ódio do regime vigente dos EUA, hoje, a qualquer possibilidade de surgimento de um exemplo de sociedade baseada no respeito real a à dignidade da pessoa humana relacional e singular e cooperativa. O ódio dos governos dos EUA a qualquer exemplo de sociedade baseada na fraternidade, solidariedade, paz e justiça reais sobre o que uma mais autêntica liberdade humana possa ser fortalecida e dinamizada, fora do modelo fajuto liberal de uma abstrata, reduzida e materialística “liberdade de ir e vir”.

É isso que explica o reflexo de ódio e ameaças constantes dos governos dos EUA a Cuba e Venezuela que, com todas as dificuldades possíveis e imagináveis em termos de pesados embargos econômicos, campanha de mentiras e difamações, boicotes de todo tipo, só estão tentando encontrar seus próprios caminhos para estruturarem suas democracias formais não liberais, inclusivas e participativas. 

É isso o que explica o que está acontecendo no restante da América Latina e no Brasil. Será eu há ainda alguma dúvida sobre o caráter letal e destrutivo do modelo de sociedade proposto pela ideologia burguesa capitalista liberal ocidental?   

* Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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Um comentário

  1. Por gentileza, dedique atenção à leitura desse artigo do professor, teólogo protestante e filósofo, Dr. Daniel da Costa. Nesse texto o autor desmonta a farsa da espiritualidade burguesa católica e dita evangélica, relevando a riqueza fraterna e legitimamente espiritual dos orixás originais africanos. Obrigado por nos ajudar a alavancar acessos diretos ao Cartas Proféticas. Abraços fraternos na preparação para o grande confronto: http://cartasprofeticas.org/a-solidariedade-e-fraternidade-que-o-povo-brasileiro-ainda-mantem-vem-em-sua-maior-parte-dos-negros-que-aqui-foram-escravizados/

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