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A tragédia de Goiânia, o  bullying social e o mito da família burguesa perfeita

Querido amigo sindicalista  Olibio de Freitas, Uruguaiana, RS

Sou-lhe imensamente agradecido por sua fidalguia e à de sua família ao me acolherem com tanto carinho aí nessa terra fronteiriça e gaúcha por ocasião da primeira edição do seminário “irmanados na compaixão, na justiça e na paz”.

Nossa caminhada desde sexta-feira, dia 13/10, com a palestra no auditório do Colégio Dom Hermeto,  até ao processo de treinamento (desconstrução e reconstrução de paradigmas) durante todo o dia 14 foi muito  apoiada pelo amigo e seus amados irmão e irmãs.

O encerramento com os petiscos e a roda de cerveja naquele bar  no centro de Uruguaiana foi um presente gracioso de celebração das amizades lindas construídas.

O chimarrão e o churrasco na casa da grande heroína professora Yolanda Soares Azambuja, diretora da Escola de Arte de Uruguaiana e presidenta da Associação Amigos da Paz,  entranhou de tal modo em meu paladar e visão, que  fortaleceu meu carinho e compaixão pelo amigo e por todos os que se integraram àquela maravilhosa experiência de afeto e de esperança.

Depois de passar por Porto Alegre e de regar a alma com meus amados,  cheguei em Goiânia para sofrer o impacto com derramamento de sangue provocado por um rapazinho de pistola em punho,  atirando em colegas desarmados, colocando abaixo uma série de mitos e deixando um rosário de perguntas.

Uma pergunta que me inquieta é a sobre a razão do anonimato da coordenadora que impediu o atirador de matar mais colegas e a atirar em si mesmo.

Seria ela uma professora trabalhadora? Uma sindicalista consciente do massacre que toda a classe operária sofre sob a decadência do capitalismo?  Ou seria uma das donas do colégio Goyases de Goiânia?

Em todo o caso a professora ocultada sob misterioso silêncio, no momento do tiroteio, pelo que todas as notícias indicam, expôs-se heroicamente a tremendos riscos ao parar o atirador que carregou a pistola com o objetivo de continuar o massacre, quem sabe matando a própria profissional anônima e a si mesmo ao dirigir a arma para o próprio crânio, convencido a desistir pela grande mulher a quem ele deve a vida.

Vivemos ainda o impacto do martírio da professora Heley, morta ferida pelo fogo ateado por um trabalhador doente mental numa escola em Minas Gerais. Ora, mais uma professora arrisca a vida para defender outras crianças, famílias e uma escola. Por que a sociedade não merece conhecê-la?

Quem, numa conjuntura eivada de covardes e traidores, se arvora ao direito de esconder – e por que fazê-lo? –  uma mestra com tanta disposição de defender a vida humana?

A que interesses servem esse anonimato?

Outra pergunta é sobre o evento bullying. Este mal se expressa de modo tão violento, marcado com as cores, com o gosto e com a dor do derramamento de sangue humano de uma guerra assim tão de repente?

Quais são as responsabilidades da escola de uma desvairada, confusa e odiosa “classe média” numa barbárie deste porte? Que participação tem a família do chacinador nisso, já que seus pais são policiais graduados?  O que a polícia, tão violenta contra os negros, os pobres e os movimentos sociais,  tem a ver com a reação de um dos seus filhos ao alegado bullying?

Qual o papel da mídia na reprodução do aterrorizante bullying, já que o adolescente atirador copiou  acontecidos semelhantes nos Estados Unidos e no Rio de Janeiro, todos despejados acriticamente na mente dele e da sociedade?

Muito já se escreveu e se disse desde o triste evento  em Goiânia no dia 20/10.

Penso, meu amigo Olibio, que o problema se distancia de ser tocado e resolvido.

O bullying é muito maior e forte do que o que acontece nas escolas com tanta falta de respeito entre colegas, fazendo até crianças de criminosas, cruéis e bandidas.

Há quem encha a boca responsabilizando ignorantemente as famílias pelo bullying.  Alguém até escreveu sobre o fato em pauta afirmando que o que faltou ao rapaz atirador foram pai e mãe presentes e responsáveis.

Muito fácil culpar pais e mães de abandonar as crianças à própria sorte ou de confiar na “educação” a elas passada  por se ocuparem demais com a  corrida desenfreada pela sobrevivência.

Por trás do juízo que faz as pessoas desinformadas a reproduzir um certo bullying hipócrita jaz a ilusão de que a família é responsável e que tem o poder de arcar com todos os custos do cuidado com os filhos, que são também  da sociedade, da Pátria e do mundo.

Os juízes da normalidade, como disse o filósofo francês Michel Foucalt, se esquecem das vezes em que casais, até na presença dos filhos crianças, se ofenderam, se rebaixaram, se desrespeitaram e caluniaram se pensando  donos-proprietários um do outro. Qualquer suspeita “descoberta” em what’s app, em facebook ou em agendas telefônicas se tornaram suficientes para desconfianças e até violências um contra o outro, principalmente de homens contra mulheres.

Muitos dos que jogam pedras no misterioso casal de pais do atirador não conseguem entender a complexidade de um conceito falido de família, na verdade uma concepção hipócrita, mentirosa e farsante de que exista a família responsável pelas crianças, pelos adolescentes e pela juventude, sem nenhuma responsabilidade do Estado e do desgraçado mercado, que espera mãos de obras acabadas com pessoas perfeitas, sem nada fazerem  por elas.

Como podem exigir responsabilidade familiar quando a elite desemprega e destrói rendas de milhões de pais e de mães, ao golpearem a democracia,  obstruindo o Estado social responsável pela educação plena, gratuita e de qualidade de crianças, adolescentes e jovens?

O bullying que levou o guri do colégio Goyases a detonar uma pistola fazendo vítimas numa sala de aula, inclusive matando um amigo seu, não foi provocado pelos que o chamavam de fedorento, sabe-se se por preconceito, por racismo ou por outras implicâncias mesquinhas.

Lá, invisivelmente, quem moveu as mãos e os dedos do rapaz foi o capitalismo como neofascismo cruel e desumano, como o denuncia em competente artigo o professor Roberto Bueno.

Essa praga nefasta à comunhão, à fraternidade, ao companheirismo, à compaixão (como a trabalhamos aí no seminário),  à alegria do encontro e da convivência, faz as pessoas se acharem donas umas das outras ou propriedade sem autonomia, liberdade e consciência de si mesmas como sujeitos históricos.

A crueldade neoliberal esconde heróis e heroínas porque seu interesse é na propriedade e na imagem de seus negócios. Será que foi essa a causa do anonimato da coordenadora que salvou mais crianças de virarem cadáveres?

As chamas do inferno capitalista têm seus demônios protetores na polícia, nas prefeituras, nos governos dos estados, no judiciário  e em todas as instituições. Suas funções são as de ocultar os que incentivam o bullying social.

E nosso desafio é o de nos mobilizarmos para destruir a força motriz do bullying econômico, político e social, antes que todos nos matemos uns aos outros.

Com críticas ao bullying  capitalista invisível, mas abraços fraternos aos que lutam heroica e incansavelmente para destruir esse sistema insano e criar uma nova sociedade responsável pelo Estado de todos para todos, onde ninguém seja dono nem propriedade de ninguém,  sempre!

Dom Orvandil.

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2 Comentários

  1. Excelente analise sobre esse TRISTE fato. Uma visão global e focada do assunto.. Parabéns!
    Obrigada!

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