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Anápolis, “A Manchester Goiana”

Edergênio Vieira*

A cidade de Anápolis é também conhecida como Manchester, aos mais jovens estou falando sim do homônimo do time Inglês, Manchester United, na verdade a cidade no Reino Unido, abriga dois times mundialmente conhecidos, o United e o City. Feito a referência, a cidade de Manchester-Inglaterra também empresta o nome à emissora de rádio anapolina, Manchester FM, pertencente ao casal Santillo, tradicionais na política anapolina.

Anápolis recebeu o apelido de Manchester Goiana pelo fato de que (aqui assim como na verdadeira Manchester), somos uma cidade industrial. Pode parecer um pleonasmo né, o sintagma cidade industrial, mas não o é, pois ainda há cidades, que não têm essa característica predominantemente industrial.

A Manchester inglesa foi uma cidade fundamental ao desenvolvimento do modelo de produção capitalista. Esse papel importante no processo da Revolução Industrial teve como destaque a construção da primeira linha férrea de passageiros, ligando à Liverpool, e também a utilização da primeira máquina a vapor, essa que é uma prima distante das máquinas elétricas das indústrias de hoje. A máquina a vapor, era uma revolução à época, pois substituia o modo de produção artesanal, que tinha como base a manufatura e a divisão social do trabalho, o trabalho nessa fase era mais complexo do que o organizado pelo capitalismo, que aliena (alienação aqui sustentada em Marx) o trabalhador. Foi em Manchester que o jovem Friedrich Engels escreveu o clássico “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra” (1845), quando ele análisa por meio de relatos dos trabalhadores e pela observação empírica as condições de penúria do trabalhadores ingleses nas indústrias e em suas moradias urbanas. Engels registra, por exemplo, que a mortalidade por doenças, bem como a mortalidade entre os trabalhadores, era mais alta nas cidades industriais do que no campo. No texto ele evidencia uma pesquisa quali-quantitativa, um dos dados obtidos é de deixar qualquer um aterrorizado diante da narrativa, Engles constatou que antes da introdução dos moinhos (1779-1787), 4.408 em 10.000 crianças morriam nos primeiros cinco anos de vida. Após a introdução dos moinhos, o número aumentou para 4.738. Como não havia nenhum surto na cidade, constatou-se numericamente que as crianças morriam esmagadas pelos moinhos, pois os empresários colocavam crianças menores de cinco anos para trabalhar, nas fábricas. Tudo aquilo que leio, em Engels não está sub specie aeternitatis, obviamente muita coisa mudou de lá para cá, inclusive os avanços das ideias socialistas, gestadas no campesinato e no operariado, foram fundamentais à “humanização do capitalismo”.

Filho de um rico e próspero industriário textil, Engels se envolveu com a publicística, mandado para Inglaterra se torna mais radical ainda, lá conheceu Karl Marx, com quem estabelecerá uma das maiores parcerias do mundo científico.

Mas afinal, o que Marx, Engels, Manchester, Capitalismo tem a ver com Anápolis?

Continuando o desafio de analisar a situação de Anápolis, à luz de um pensamento de esquerda, ligado a uma perspectiva bibliográfica científica, vou falar sobre o modelo de desenvolvimento econômico do município de Anápolis. Vou tentar responder três questões: Quem são os “operários”, trabalhadores de Anápolis? Qual a base econômica do município e a sua consequente distribuição de riqueza? Qual o nível de organização social dos trabalhadores anapolinos? Vou usar dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatisticas), do Instituto Mauro Borges, do Banco Central, do Caged ( Cadastro Geral de Empregados e Desempregados ) do Ministerio do Trabalho e do Dieese ( Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos)

Com população estimada em 2018 381.970 habitantes, a maioria mulheres, nossa população é jovem, situada na faixa etária dos 14 aos 38 anos. Esses dados lançam um desafio aos próximos gestores: pensar políticas públicas voltadas para essas idades, e para o consequente envelhecimento dos habitantes do munícipio.

Anápolis tem o segundo maior PIB (produto interno bruto) do Estado de Goiás, mais de 14 bilhões de reais. Já em 2016 a renda per capita (por cabeça) era de R$ 35.372,45, em comparção com outros municípios do Brasil. Anápolis ocupa a 754º, do total de 5570 municípios, no Estado somos o 39º com a maior renda per capita. É preciso ressaltar que a média salarial dos anapolinos, é de até dois salários mínimos e meio (R$ 2, 495,00), sendo que 30% da população sobrevive com até meio salário mínimo (R$ 499,00). O capitalismo local não é diferente do mundial, a remuneração da força de trabalho é baixa. Com dados colocados, vamos às respostas, às questões acima colocadas.

Quem são os “operários” de Anápolis? Estão divididos entre funcionários públicos e trabalhadores do DAIA. Esses dois segmentos são o que poderíamos chamar de classe “operária” anapolina.

Qual a base econômica do município e a sua consequente distribuição de riqueza? Receitas externas, oriundas de repasses da União e do Estado compõe o grosso da arrecadação do município, 64,4% para ser exato. A indústria e o comércio impulsionam o desenvolvimento econômico da cidade. Porém, o modelo é semelhante ao processo de acumulação de riquezas em outros municípios e países. A riqueza produzida em Anápolis se concentra nas mãos de uma minoria, menos de 10% da população, detém 90% da riqueza produzida, enquanto 90% “divide” os 10 % restante. Ja dizia o maravilhoso Chico Sciense “A cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o debaixo desce”.

Qual o nível de organização social dos trabalhadores anapolinos? Pouco ou nenhum, o funcionalismo público já teve um momento mais ativo na organização de seus trabalhadores, hoje está opaco e no geral aparelhado, uma característica diga-se de passagem do sindicalismo brasileiro, Anápolis não é exceção. Junto aos trabalhadores do Daia, a organização é nula, no geral sindicados patronais, ligados a Força Sindical, que é a direita no sindicalismo nacional. Esse é o cenário geral que se aponta aos trabalhadores, na minha opinião, em Anápolis.

O que fazer? É algo complexo. Passa pela reorganização da base, é preciso retomar a cultura da planfletagens nas portas das fábricas, como forma de encontrar quadros e “educar políticamente a classe trabalhadora”; realizar campanhas de filiação sindical e consequentemente cursos que evidenciam a estes trabalhadores “como a sociedade funciona.” É preciso denunciar que a concentração de riquezas, nas mãos da minoria, está na gênese do capitalismo, e lutar de forma organizada contra isto é necessário e preciso. Estudo, diálogo e práxis são pilares indispensáveis para uma mudança nesse processo. O lema continua o mesmo de antes: Trabalhadores de Anápolis, uni-vos!”

*Professor da Rede Municipal de Anápolis, é mestrando em Linguagem e Tecnologia pela UEG, Colunista do Cartas Proféticas.

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