Alexandra Mihaylovna Kollontai

As lutas das mulheres grandiosas que rompem com a escravidão às famílias e aos homens

Queridíssima amiga professora Isa Canfield, São Francisco de Paula, RS
Minha amiga, sempre me recordo de ti com saudade de teu sorriso solto de mulher que incomodava desde a juventude,  movida pelo senso de liberdade e comunitariedade.
Sempre admirei o teu jeito de ironizar o estabelecido, o bem arranjado, principalmente pelos opressores da ditadura, dos paus de arrasto e mandados de igreja, dos de moral certinha, dos juízes de araque, sempre dispostos a arrastar e a apedrejar as Marias Madalenas.
Penso em ti nesse retiro por jubilação ai nessas paragens conservadoras de São Francisco de Paula, com essa gauchada que parou no tempo ditado pelos CTGs, e te imagino inquieta e constantemente nas estradas em busca do mundo e do libertário.
Hoje ao ler o lindo texto elaborado pelo professor Fernando Horta, historiador e doutorando na UnB sobre a grandiosa mulher russa, a respeitada Alexandra Mihaylovna Kollontai, me lembrei muito de ti e me perguntei o que fazes e o que acontece contigo aí.
Kollontai desafia o conceito estreito que muitas vezes temos de mulher e de família, mesmo entre os que se definem como progressistas e avançados.
Sempre desconfio das pessoas – homens e mulheres – que dizem ser defensores/as da família em primeiro lugar, como rezava a estapafúrdia e falsa definição da família como célula máter da sociedade.
Não raro vejo nessas pessoas traços de comodismo, de egoísmo, de conservadorismo e linhas auxiliares do capitalismo.
Comodismo por serem preguiçosas usando a “dedicação” à família como desculpa para não se somarem à luta popular pelas mudanças a favor de toda a sociedade.
Egoísmo porque, com sua desculpa, imaginam que cada família é o centro do universo ou ilha poderosa isolada do todo social.
Conservadorismo porque atendem a exatamente o que o capitalismo exige de todos: que nos isolemos convencidos de que as mentiras que os agentes burgueses pregam de que cada um na sua, dedicando-se, ajudando-se a si mesmo, ajudará a todos e, assim, chegaremos lá nas ilhas das ilusões, destinadas apenas a pequenas minorias privilegiadas e exploradoras do trabalho alheio.
Quando tento conscientizar e educar, até trabalhadores que traem sua condição de classe, e ouço esse discurso de que primeiro é preciso mudar os de casa e de tudo fazer por eles para depois lutar por todos, percebo as barreiras emperradas e petrificadas nas almas das pessoas. O meu desespero é de que tais dificuldades são quase irrompíveis.
Nas mulheres isso é ainda mais doloroso. Ao se submeterem aos caprichos dos homens e dos familiares, geralmente um bando de acomodados, consumidores e burros de carga do capitalismo, elas recaem à escravidão que as reduz à condição de dependentes e pequenas mental e politicamente. Pois o professor Fernando Horta consegue, com impressionante fidelidade histórica, mostrar que a heroína Alexandra Mihaylovna Kollontai é luz verdadeira e prática da ruptura desses modelos femininos e familiares, que cingem mulheres, familiares e homens às prisões tribais de redutos embolorados e desumanizadores de suas casas.
A luta de mulheres e homens tem que se somar ao sujeito histórico da revolução, a classe operária, na construção de um Estado responsável pela educação e saúde das crianças e da família, libertando as mulheres da escravidão.
Posto abaixo o texto do professor Fernando Horta publicado pelo site Brasil 247.
  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Anglicana Centro Oeste e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.
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ALEXANDRA KOLLONTAI: OS INSTINTOS E O AMOR EM TEMPOS REVOLUCIONÁRIOS

“Nós, conscientemente, não podemos deixar tudo que pertence ao campo da moral ou a outras construções ideológicas à disposição total do liberalismo burguês. Para nós, a emancipação feminina não é um sonho, nem mesmo um princípio ético, mas uma realidade concreta, um fato que diariamente precisa ser tornado real. O que é “utópico é a crença feminista de que novas e livres formas de amor, casamento e família são possíveis sem uma transformação radical de todo o sistema social”. Assim, Alexandra Mihaylovna Kollontai escrevia na introdução do seu livro “Bases sociais das questões feministas” (социальные основы женского вопроса) de 1906. A menina que nasceu em São Petersburgo, em 1872, filha de pais nobres, somente foi conhecer a filosofia marxista, os escritos de Plekhanov e os bolcheviques depois de casada e mãe. A transformação de nobre em revolucionária se deu através de muito estudo, ao que seu marido reputava como “uma ofensa pessoal”.
Kollontai foi testemunha ocular do Domingo Sangrento (22/01/1905), quando a guarda pessoal do czar massacrou manifestantes que marchavam pacificamente até o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, pedindo pão. O episódio é o deflagrador dos movimentos de 1905, conhecidos como “O ensaio geral”. Nas palavras de Kollontai: “Vi milhares de crianças mortas a tiro ou feridas além da possibilidade de sobrevivência”. Esta experiência marcaria toda sua trajetória política.
Em 1905, Kollontai já era conhecida por escrever artigos críticos acerca da situação russa e do marxismo, e por fazer “leituras coletivas” com operários de diversas fábricas. A verdade é que Kollontai não precisou dos Bolcheviques ou Mencheviques para se fazer política. Após sua participação nos eventos daquele ano, e por ser já conhecida crítica do regime dos Romanov, Kollontai é obrigada a se exilar (primeiro na Suíça e depois Alemanha) entre 1908 e 1917. Neste período, produz boa parte de seus trabalhos afirmando que “tenho mantido a luta pela emancipação e igualdade das mulheres mesmo com o duplo desafio de ser cidadã e mãe” demonstrando a dificuldade de uma mulher, mãe viver no exílio.
Retornando a Rússia após fevereiro de 1917, apresentou à Duma (governo provisório) um projeto de lei para criar um seguro maternidade. O resultado de pesquisa e argumentação em favor do projeto rendeu o livro “Sociedade e Maternidade” (Общество и материнство) publicado em 1916. Kollontai afirma a “necessidade” de qualquer governo de se envolver diretamente na proteção e no bem-estar da mulher grávida e da criança na primeira infância. Em que pese a extensão dos argumentos, o governo provisório rejeita a lei.
Em 1915 se filia aos bolcheviques e afirma que “cruzaria o Rubicão”, pois sentia que os bolcheviques estavam fadados por “seus sacrifícios a algo grandioso”. Durante a guerra, Alexandra Kollontai trabalha em estrita conexão com Lênin e é uma das responsáveis pela organização da III Internacional. As obras de Kollontai passam a ser impressas na Noruega, Suécia, EUA e Suíça e são tão conhecidas quanto as de Lênin naquele momento. Sua capacidade intelectual, sua proximidade com os bolcheviques e sua energia fazem-lhe a primeira mulher eleita para o soviet de Petrogrado. Em sua biografia, afirma “se me perguntarem qual foi o maior momento da minha vida, o mais memorável eu digo, sem dúvida, o momento em que o poder soviético foi proclamado em outubro de 1917”.
Já como Comissária Nacional da Seguridade Pública, no governo bolchevique, Kollontai coloca em prática a proteção à maternidade e aos trabalhadores em idade avançada, fazendo do governo revolucionário a vanguarda da proteção social às mulheres. Segundo o historiador Mark Steinberg, “nenhum marxista russo jamais escreveu de forma tão explícita sobre gênero, intimidade ou emotividade e de forma tão fortemente ligada às questões da revolução socialista”. Profética, Kollontai afirma que “na idade da pobreza capitalista, das contradições de classe e da moral individualista, nós todos vivemos e pensamos sobre o gélido sentimento da inescapável e inevitável solidão espiritual” (“A Nova Mulher” ensaio de 1913).
Kollontai fala de sexualidade, de amor, de prazeres no início do século XX com uma desenvoltura peculiar. Sempre buscando o Futuro e a “Nova Mulher” que surgiria através da luta contra a “prisão moral” e a “servidão amorosa”, buscando algo além da “monogâmica e possessiva forma de família” que necessariamente gerava a “subordinação da mulher”. Kollontai afirmaria que “o código moral sexual é parte integral da ideologia de classe burguesa” e por isto mesmo a questão sexual não poderia ser colocada em separado da luta proletária. “Os proletários precisam descobrir que as antigas formas de virtudes femininas são amarras que previnem a transformação social” e que para romper com isto a mulher precisaria se tornar um “ser humano com valor próprio”, não por ser mãe ou fêmea.
Em 1922, foi nomeada embaixadora na Noruega, depois no México e na Suécia trabalhando até 1945. Foi uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo de embaixadora no mundo, vindo a falecer em 1952. Na plenitude de sua juventude, Kollontai escreveria no jornal Pravda em março de 1917: “Não fomos nós mulheres as primeiras a ir para as ruas lutar por liberdade junto com nossos irmãos, a morrer por isto se necessário? Então porque exatamente quando se começa a construir uma nova Rússia estamos sentido o medo da liberdade e vamos ignorar metade da população livre deste país?”
Alexandra Kollontai é a própria revolução. Inescapavelmente.
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2 Comentários

  1. Este Blog é uma escola pública, com rico acervo histórico cuja primazia é o libertário humano.
    Não conhecia a história desta grandiosa mulher chamada Alexandra Kollontai.Uma revolucionária de sua época que inspira as mulheres revolucionárias atuais de modo que trago como aprendizado que a luta pela igualdade de gênero e justiça social começa com a ruptura das amarras da Mulher em todas as esferas de sua vida.
    E isto me faz refletir: quantas Alexandras Mollontais estão espalhadas neste mundo a fora, entregando-se às ações libertárias para a coletividade?
    #Lugar de Mulher é na Revolução !

    Abraços críticos e fraternos.

    Marly Valentim
    Ativista social no Movimento Negro Unificado-Recife/PE

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