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Assassinato de Marielle, o despertar das ruas e a fresta que se abre

Por Daniel Samam

O assassinato de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, provocou uma onda de luto, solidariedade e indignação coletivas nas ruas. No centro do Rio, eram 100 mil pessoas com o objetivo de não só homenagear Marielle como também reafirmar a continuidade das suas pautas, como o combate ao racismo e ao machismo institucional, o fim de uma guerra às drogas travada nas favelas e periferias e que mata milhares de jovens negras e negros ao longo dos anos, e o fim da intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio.

A comoção em torno do assassinato de Marielle chacoalhou principalmente os setores médios da sociedade, que foram pra rua de forma espontânea, porém difusa e heterogênea.

Algo semelhante as jornadas de junho de 2013, guardadas as devidas proporções e motivações. Não havia apenas militantes de esquerda. Havia de tudo, de todas as bandeiras partidárias e de toda a complexidade dos setores médios da nossa sociedade.

Ainda é cedo para dizer quais serão as consequências.

Obviamente, interessa saber quem são os executores de Marielle. Mas, sobretudo, o Brasil precisa saber quem são os mandantes. De pronto, podemos afirmar que Marielle foi assassinada pelo golpe em curso. Foi o golpe que abriu a caixa de pandora dos preconceitos e intolerâncias, fazendo vir à tona o fascismo brasileiro, um caldo de cultura baseado no ódio político, social e racial que impõe soluções reacionárias e autoritárias para as nossas mazelas.

Foi o golpe, com apoio do seu braço jurídico totalmente fora de controle, da Operação Lava Jato, que criminalizou todo o sistema de representação política, deixando o país sem capacidade de mediação e diálogo.

Devemos estar alertas, pois estamos avançando no processo de decomposição social em nosso país. E a partir daí, podemos atingir um patamar alarmante que combina traços da nossa desigualdade secular; com as recorrentes execuções pelo narcotráfico encoberto pelo Estado no México; e da barbárie institucional nas Filipinas, com a autorização explícita do Estado para produção de mortes violentas. Desde que o consórcio golpista tomou o poder, massacres e assassinatos de lideranças populares, camponesas e indígenas cresceram vertiginosamente no Brasil. Desde 2016, foram registradas 25 lideranças populares assassinadas. Marielle foi a 26ª.

A Globo e seus asseclas iniciaram um movimento para capturar e controlar a narrativa do assassinato de Marielle e Anderson da mesma forma que fizeram com as jornadas de junho e julho de 2013. O que se pretende é controlar as reações políticas internas e evitar a construção de um argumento sólido contra a intervenção federal, no Rio, e, consequentemente, quaisquer menções ao golpe.

Em nossas análises, a intervenção não pode ser reduzida a um plano de Temer e Moreira para o governo ilegítimo não se consolidar como “pato manco” ou para fins eleitorais, a fim de garantir a manutenção do foro por prerrogativa de função a partir de 2019.

A intervenção serviu para realinhar os cinco grupos essenciais que formam o consórcio que dá estabilidade ao golpe em curso: 1) a Banca (capital financeiro); 2) a mídia monopolista; 3)o centro conservador (ou centro-direita) no Congresso Nacional; 4) os setores linha-dura das Forças Armadas (FFAA) liderados pelo Sr. Etchegoyen e 5) a “tigrada” (setores majoritários do Judiciário, do MP e da PF), convertendo a segurança pública no grande tema nacional, de forte inserção popular e retirando de pauta a desgastada agenda de reformas antipovo.

As milhares de pessoas nas ruas na última quinta-feira (15) reforçam que não estamos totalmente fora do jogo e que podemos romper com o isolamento que nos foi imposto. O golpe e sua agenda tem como ponto fraco a incapacidade de criar consensos, restando apenas a truculência, a força. Há uma fresta para se criar um novo caldo de cultura. Mas este não surgirá do nada.

Por isso, há a necessidade de mais formulação política ao campo democrático-popular. Se a presença de milhares de pessoas nas ruas é um fator capaz de interromper os retrocessos, é preciso garantir que esta se sustente. Isto significa estabelecer a partir do diálogo direto com a sociedade civil organizada e com o povo, as agendas que sejam capazes de mobilizar e engajar a sociedade de forma unitária.

Marielle, presente! Hoje e sempre!

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