cego para m. quintana

Bendito pesadelo!

Reimont Otoni*

Participei de um encontro com irmãos e irmãs que vivem em situação de rua, no Rio de Janeiro. Foi no dia 15/05, na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São José, no Engenho de Dentro, na missa em memória de Maria Lúcia Pereira, principal liderança do Movimento Nacional da População de Rua, que, morreu no último dia 25/04, em Salvador (BA). Ali, na paróquia, o Pe. Gustavo Auler mantém um trabalho permanente de acolhimento desses irmãos e de encaminhamento de suas demandas quanto à retirada de documentos, procura de emprego, roupas, banho, alimentação e tudo o mais. A paróquia se doa de maneira clara, evangélica e missionária para esse acolhimento. Os dois últimos anos trouxeram, por causa do arrocho e do desemprego, um aumento de mais de 100% de pessoas morando nas ruas do Rio.

O nosso encontro foi para a promulgação da Lei Municipal 6350/2018, que estabelece a obrigatoriedade da prefeitura promover uma política pública para essa população em situação de rua, com a criação de um comitê intersetorial que discuta coletivamente essa mesma política e seus desdobramentos.

A Lei recebe o carinhoso nome de Lei Maria Lucia Pereira em homenagem a essa aguerrida companheira que, depois de ter vivido 16 anos nas ruas de salvador, tomou sua vida nas mãos e tornou-se uma das maiores lideranças do povo da rua, defendendo-o em todos os cantos, inclusive na ONU, em Genebra, quando disse: “se vocês tivessem encontrado comigo há 16 anos, não dariam nada pela minha vida. Hoje, eu estou aqui, na ONU, para falar sobre os direitos das pessoas em situação de rua”.

Pensei nas lutas desse povo e deparei-me com um fato que me saltou aos olhos e me comprovou a força negativa da escravidão mais perversa da humanidade, a brasileira, que durou quase 400 anos. Lembrei-me do racismo ainda presente no cotidiano de nossas vidas. Dos quase 70 irmãos e irmãs presentes na igreja, apenas três não eram negros. Não preciso tecer comentários sobre isso, só deixo no ar as minhas reticências e interrogações…

O que é uma pessoa deitada no banco de uma praça sem ter para onde ir ao cair da noite? E, na portaria do prédio onde moro, o que é saltar o corpo de uma dessas pessoas para prosseguir o meu caminho rumo ao trabalho, ao lazer ou à igreja? O que representa o odor mal cheiroso que nos toma a porta do restaurante? O que significa a mão estendida a nos pedir migalhas?

Esses e essas não são invisíveis. Nós é que somos cegos, do pior tipo, no único sentido pejorativo possível, que é aquele que não quer ver. Esses irmãos e irmãs invisíveis aos olhos de pessoas cegas por não quererem ver, cegas por lhes ser mais conveniente, são um espinho em nossa carne. Eles são o pesadelo da sociedade que se organiza nos parâmetros da exclusão, do acúmulo, do consumo, do dinheiro, da exploração e do racismo institucional. Eles são a confirmação de que o capitalismo gera morte e não é um projeto de Deus e nem um projeto permeado de humanidade, porque enriquece a uns empobrecendo a muitos. Queiramos ou não, esses irmãos e irmãs são o pesadelo da sociedade.

As políticas afirmativas dos tempos de Lula e Dilma, os ministérios e secretarias que fomentavam a participação popular e coletiva para discussões e reivindicações de orçamento para a área social, foram por água abaixo em dois anos de governo do golpe sobre os mais pobres e vulneráveis. Onde vamos parar, se a reforma trabalhista joga na rua milhões de desempregados e subempregados? O que pensar de uma sociedade que retira investimentos da área da saúde e da educação? O que esperar de um governo que extermina as políticas de habitação e todos os demais programas sociais?

Eis o nosso pesadelo! Aliás, bendito pesadelo a nos dizer que é preciso construir outras relações, outra humanidade, outra sociedade.

Francisco, o de Roma, acolheu na Praça de São Pedro as pessoas em situação de rua. Certamente contrariou a muitos “cegos”.

Francisco, o de Assis, foi morar no meio deles e contrariou os “cegos” de seu tempo.

Jesus de Nazaré, que nasceu, viveu e morreu na periferia, andou com eles e por isso foi condenado e morto pelos senhores “cegos”.

Os “cegos” depuseram Dilma, prenderam Lula e mataram Marielle e Anderson.

Hoje, permanecemos com o espinho na carne. Bendito espinho! Hoje, permanecemos com este pesadelo. Bendito pesadelo!

A nossa construção é para que um novo céu e uma nova terra emerjam e os pobres haverão de protagonizá-los, porque os “cegos” não encontrarão o caminho.

*Reimont Otoni é Professor, Administrador, Bancário e Teólogo. Está em seu terceiro mandato de Vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) do Rio de Janeiro.

http://cartasprofeticas.org/colabore/

 

Um comentário

  1. Muito lúcida essa reflexão. Um sopro nos nossos olhos, para retirar parte dos ciscos que nos cegam.

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