CARTA A LULA

Carta aberta ao Presidente Lula

Presidente Lula, em sua longa trajetória política que se projeta há algumas décadas, todas elas perpassadas por continuadas investigações a procurar-lhe riquezas nunca encontradas e crimes nunca praticados. Nessa longa trajetória mobilizou as lágrimas populares, mas enquanto as originadas de suas ações eram movidas por amor, as de seus adversários políticos eram provocadas pela dor. Nessa sua longa trajetória muitas terão sido as cartas recebidas, inúmeras delas bem escritas, outras recheadas pelos sentimentos mais sinceros, mas certamente todas elas prenhes de extremo carinho, profundo afeto por quem trata o povo com a dedicação de quem o conhece e compartilha a sua sorte, as suas dores e a esperança de um futuro melhor, indiferente apenas aos indiferentes, gente que aspira continuar a amealhar as riquezas que poderiam refundar este imenso país em que sob a égide da desigualdade horrenda e homicida, hoje, a violência cruza o caminho do futuro e extirpa dos mais pobres qualquer expectativa de vida e esperança.

 

Presidente, há algum tempo vínhamos vivendo dias sombrios e hoje começamos a submergir em turbulentas águas. Dias profundamente desorientadores nos aguardam, e que atingem duramente aos homens pequenos, dura e cruelmente se abatem sobre nós, a massa, que estamos nessa débil posição. Essa não é a mesma sorte reservada às grandes figuras, nunca para esse tipo de homens, cujo sopro da fortuna e forja de aço os tempera para esses tempos rudes. Esses são tempos feitos à medida para a força que se nega à grande massa e nos quais se possibilita que Lula evidencie em toda a sua inteireza a singular e admirável cepa de estadista da qual não temos nessa quadra histórica nenhum há que se aproxime, suspendendo a proteção de sua integridade física para agir em benefício do povo brasileiro.

 

Presidente, hoje o senhor foi vitima daqueles que querem distanciá-lo de sua profunda natureza, o povo, pois, rasos, desconhecem que a fundação humana transcende o espaço e radica n´alma histórica, que lhe dá ânimo e faz pulsar. Hoje o senhor teve o seu corpo confinado a estes 15 metros quadrados, como se a limitação espacial fosse suficiente para retirá-lo da memória de milhões em cujas vidas influenciou direta e positivamente. A restrição de liberdades que lhe impôs o Estado de exceção em curso mal consegue mascarar esta sua real face. Esse espaço de poucos metros é pequeno para qualquer homem passar os seus dias, mas o caso é que qualquer um não tem o seu tamanho ou o coração generoso capaz de, mesmo preso, atingir e manter-se conectado a milhões de brasileiros.

 

Presidente, o material de que é feito e a sua talha são inversamente proporcionais ao espaço que o Estado de exceção apoiado pelo império externo a quem tanto o seu Governo incomodou ao propulsar a emersão do Brasil, e a sua capacidade de sobreviver e crescer nestes tempos se deve à força que apenas o seu grande passado lhe permite. O senhor, Presidente, foi o único homem na história brasileira capaz de articular forças e propor exitosamente o desafio de alterar o rumo da política nacional e designando um novo lugar para o povo, incluindo a enorme massa de homens e mulheres no orçamento federal. Nunca o mundo político brasileiro foi capaz de realizar isso, nunca.

 

Presidente, aqui deste lado de fora estamos todos preocupados, observando-o isolado de contato nestes poucos metros quadrados que lhe impuseram, mas que esse seu rico e amplíssimo universo pessoal é capaz de transformar em dimensões latifundiárias. Aqui do lado de fora estamos oscilantes entre apreensão e resistência, entre lacrimosos e operantes, indignados e rebelados, mas que em nenhum caso abandona a tarefa maior desses penosos e pesados dias que é justamente a de defendê-lo. Nestes tempos nenhum outro trabalho encarna tão bem a proteção da democracia, da República e da Constituição e, sobretudo, a soberania e o povo brasileiro que essa diligente proteção de sua maior liderança hoje encarcerada, isolada e ameaçada, mas que consigo mantém o povo e sua esperança.

 

Presidente, o único e óbvio lugar que o establishment pode lhe reservar nestes dias é esta cela, pois a sua defesa do povo brasileiro incluindo 40 milhões de indivíduos no orçamento do Brasil ofendeu, e muito, os escravocratas tardios que continuam a manter as estruturas de antanho e as suas mucamas com roupagens modernas. Presidente, esta nação lhe deve penhoradas desculpas, tanto pela ação das instituições como pela insuficiente força até aqui mobilizada para defendê-lo com a mesma força e empenho que o senhor empenhou para retirar da miséria a 40 milhões de homens e mulheres, desassistidos que estão por aí, em algum lugar, incrédulos, mas que o carregam no mais remoto e recôndito espaço de seus corações reservado ao carinho e gratidão, mas que nem sempre conhece as vias da ação.

 

Presidente Lula, nunca haverá sonho ou ideal no presente ou futuro deste país que não passe pela recordação expressa deste seu hercúleo e exitoso esforço por elevar miseráveis e pobres a uma condição de dignidade material e substancial orgulho pessoal e coletivo. Presidente, este é o projeto político cuja implementação o coloca hoje na condição de preso político de um regime político marionete do império e que internamente mobilizou escravocratas e corruptos para fazer o serviço de alienação da soberania popular. Presidente, o grande serviço que o senhor prestou à nação não tem preço e nunca poderá ser pago, nunca poderá ser dimensionado o valor e o poder que exerceu em favor da retirada da miséria de crianças, idosos, doentes, homens e mulheres sem futuro nem esperança. Presidente, se hoje lhe confinam, carregue consigo nestes momentos de tristeza pessoal a imagem sorridente de milhões de brasileiros que tão sinceramente o abraçaram e ainda mantém em suas faces a alegria radiante com o tão só recordar de seu nome. Presidente Lula, o tempo é o alimento da história, e a história é o espaço em que são registrados com letras douradas o nome daqueles que, como o senhor, conduziram os seus povos com virtudes singulares, enquanto que aqueles outros seres políticos animais ocuparão um minúsculo rodapé da história, apropriado para as suas talhas morais.

 

Presidente Lula, a prisão é capaz de deter e bem aprisionar aos homens menores, mas não aqueles que transcendem os limites da ordinária vida humana. Presidente, ordinariamente orientamos a conclusão de nossas missivas augurando o melhor para os nossos interlocutores, apresentando-lhes nossas melhores recordações, quiçá, com um forte abraço, ou, ainda, quem sabe, desejando dias alvissareiros. Mas, Presidente, tudo que me ocorre não é desejar-lhe algo como isto, mas desejá-lo, que esteja entre nós o mais rapidamente possível, pois de tudo que precisa uma sociedade como a brasileira abjetamente desigual, pornograficamente odiosa, injusta e prenhe de ódio artificialmente implantado é mesmo de corações grandes e de bondade transbordante e de propósitos transcendentes, justamente como a sua figura possui e generosamente não se furta de oferecer ao povo brasileiro.

 

Presidente Lula, os caminhos são muitos, por vezes obscuros, nem sempre claros e antecipáveis em suas vias tortuosas, não raro, perigosos, e comumente sofridos, mas a justiça se fará, a si e ao Brasil. Este próximo alvorecer coincidirá com o seu corpo liberto percorrendo cada um dos mais remotos rincões deste país, coordenando movimentos físicos com os mais sofridos homens e suas secas vidas, levando a todos eles pessoalmente o afeto e a ação objetiva que urge aos mais pobres e necessitados.

 

Roberto Bueno. Professor universitário.

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