Tati e Laura

Casal gay sofre constrangimentos numa padaria e expõe as vísceras da hipocrisia e do assédio opressor

Duas mulheres namoradas bebiam café carinhosamente numa padaria em São Paulo, no dia 23/12,  (postei abaixo o relato pormenorizado delas) quando foram afrontadas por uma trabalhadora também gay,  usada e constrangida pelo dono a cumprir papel reacionário, moralista e preconceituoso contra Tatit Brandão e Laura M Baruffaldi, dando ordens a que parassem de demonstrar amor publicamente.

Parece que o fundamentalismo que jorra das bancadas católicas e evangélicas, tão sujas, golpistas, canalhas e quadrilheiras quanto as do boi e da bala,  invade todos os recantos do País,  produzindo ódio e massacre.

A trabalhadora,  mandada pelo proprietário como anjo da morte do amor para expelir sobre Tati e Laura o horror do preconceito fascista,  mostra através do cumprimento da ordem do patrão atitudes que acontecem  frequentemente no País, em todos os setores.

  1. A covardia e o autoritarismo fascista dos clientes. De modo anônimo, sem capacidade de diálogo e desonestamente, pressionaram e chantagearam o proprietário a agir a favor do moralismo deles e contra o amor diverso.

Covardes e desonestos,  como esses clientes da padaria,  existem em todos os setores.  Espalham-se pelas escolas, pelas faculdades, pelas universidades, pelo comércio e até pelas igrejas.

Por serem covardes e desonestos, desqualificadamente usam do poder econômico para pressionar e ameaçar. Sua tática é a da facada pelas costas e nunca a do enfrentamento de rosto limpo,  com disposição de aprender e a crescer.

Não, são donos da verdade e, a cavalo de seus dogmas,  traem, dão tapas e escondem as mãos. Comportam-se como lixos do universo.

  1. Outro papel a analisar é a do dono do estabelecimento. Cumpriu tarefa suja e covarde de quem não tem conteúdo nem respeito ao próximo. Perdeu a grande oportunidade de defender a diversidade, o respeito ao amor e a quem o pratica de modo diferente do viciadamente costumeiro.

Este blogueiro, desde a ditadura civil-militar, quando preso pela primeira vez,  traído por uma diretora “santinha”, que não titubeou em chamar a repressão contra quem esclarecia, conscientizava  e aprendia educando, sabe o quanto os covardes que exercem qualquer poder, por pequeno que seja, são vazios e desonestos, sem projetos humanos, mas obedecem mesquinhamente por trocados aos opressores e transgressores do amor ao próximo.

O exercício do  poder, qualquer que seja,  por mesquinhos, covardes e clientelistas é risco para o amor e para a paz sociais.

  1. A trabalhadora, apesar de gay, foi pressionada pelo patrão a praticar bullying e assédio contra o casal de mulheres.

No relato é claro o constrangimento pelo uso opressor que o patrão fez de sua orientação sexual, no momento,  usada para oprimir outras mulheres massacrando a diversidade, certamente sob a condição de que ela precisava do emprego e tinha que obedecer.

O meio de campo feito por trabalhadores, sempre manipulados pela classe dominante para perseguir e humilhar, é coisa rotineira, desgraçadamente.

Assim como a trabalhadora,  policiais são usados para massacrar os movimentos sociais;  coordenações contra colegas professores/as;  executivos e gerentes contra colegas;  jornalistas contra a verdade, a justiça e a sociedade, mentindo para satisfazer os orgasmos e sadismos da elite dominante.

A covardia, a desonestidade e a opressão descem como cascatas das elites e de seus agentes,   tomando conta da sociedade.

  1. É preciso destacar a grandeza de Tatit Brandãoe Laura M. Baruffaldi. Elas perceberam o assédio covarde do patrão da trabalhadora e a perdoaram. Contudo, não se calaram, mas denunciaram o comportamento fundamentalista, autoritário, atrasado, perverso e fascistóide do dono da padaria e do cinismo dos clientes covardes.

O Cartas Proféticas se solidariza com Tatit Brandão e Laura M. Baruffaldi pela grandeza de sua postura.

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Veja abaixo o texto que Tatit Brandão e Laura M. Baruffaldi postaram no Facebook.

Manhã de sexta-feira. Um casal apaixonado demonstra amor e afeto enquanto toma café na padaria Delícia de Perdizes, no antigo bairro querido, a Pompeia. Duas mulheres comendo pão na chapa, café e suco de laranja enquanto conversam, se beijam, se abraçam, compartilham sonhos, sorriem e são felizes: eu e minha companheira Laura M Baruffaldi.

Uma funcionária da padaria se aproxima da mesa e me cutuca as costas. (Aqui, toda mulher que está amando outra mulher, como descrito ali em cima, conhece bem a qualidade do medo que surge imediatamente. O medo de estar prestes a sofrer mais uma vez a violência da homofobia.) A sensação do medo toma conta e faz com que pareça que virei meu corpo em câmera lenta pra ver quem me chamava.

“Olha, dois clientes já foram reclamar com o gerente o incômodo que vocês estão causando. Um deles, um senhor que estava com o filho e foi questionar que tipo de ambiente a padaria, que deveria ser um “ambiente familiar”, nesse momento está proporcionando. Então, eu peço a delicadeza de vocês serem discretas…”

Continuamos olhando e sugerindo, em silêncio, que ela continuasse a fala até concluir, mesmo em momentos em que a funcionária demonstrava querer parar de falar. Mas percebemos que estava bem difícil.

“Não é preconceito por vocês serem assim, nem nada, me desculpa, não é por mal, eu também sou gay e faz tempo, desde os meus 11 anos. Tem alguns lugares que eu me sinto bem à vontade… no Vermont, na República, no Arouche… mas é que lugares como aqui é bem complicado… Sabe? Meninas, me desculpem mesmo, a padaria quer receber e agradar todo mundo, o gerente pediu pra eu vir aqui falar com vocês porque ele sabe que eu sou gay e aqui nunca sofri nenhum preconceito em relação a isso, eles me aceitam normal…”

Falei que queria entender direito e perguntei o que ela estava nos pedindo. A moça tentou falar, continuou se embananando mais ainda, se emocionou, pediu desculpas e saiu da nossa frente chorando em direção ao banheiro. Essa cena se repetiu mais duas vezes. Ficamos, claro, paralisadas e incrédulas com o tamanho do horror a que NÓS TRÊS estávamos sendo submetidas.

Sofrer homofobia já é um horror sem fim. Sofrer homofobia e ao mesmo tempo presenciar um assédio moral descarado entre chefe-empregada sendo que a empregada sofre o mesmo tipo de opressão que você, é um horror elevado a enésima potência. A funcionária recebendo uma ordem do chefe não está em posição de argumentar, nem discutir, nem se negar a nada, ainda que a ordem seja oprimir pessoas iguais a ela, e a si mesma.

A questionamos sobre o posicionamento da padaria e perguntamos por que achava que a padaria não estava tendo uma postura homofóbica se pediram pra nos solicitar um disfarce de quem somos para satisfazer aqueles homens que não nos toleram, ao invés de anunciar aos mesmos que aquele era um lugar que acolhia a diversidade. A moça desmontou novamente, entre o que percebia que estava fazendo conosco (e consigo mesma) e o medo de não cumprir a função de forma satisfatória e correr risco de perder o emprego. Uma atrocidade!

Na sequência, saiu e voltou nos oferecendo um presente que, obviamente, não aceitamos. “Mas olha, esse é um pedido meu de desculpas, esquece a padaria, é meu presente pra vocês”. Explicamos que aceitamos o pedido de desculpas DELA, mas que não podíamos sair dali como se tivéssemos sido caladas por um panetone diante da postura HOMOFÓBICA SIM da padaria.

Saímos dali duas horas depois, paralisadas pelos infinitos minutos de violência. Em direção ao caixa, a passos lentos de um momento amargado, no chão de lama da nada delícia das Perdizes, com os olhos atentos a todos que nos olhavam e o coração entristecido.

Um verdadeiro assalto ao sabor do amor.

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