neoliberalismo_nazifascismo

Concordo com que todos tenham direito à plena ignorância. Mas até isso tem limites

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 Por Daniel da Costa*

Para mim, a atividade intelectual é uma atividade responsável. E o primeiro posto de um intelectual responsável, consciente e honesto é o compromisso com a verdade e o “esclarecimento”, que, não obstante, é um conceito liberal que carrega consigo uma impostura congênita, que precisamos explicitar.

O conceito de “esclarecimento”, da ideologia liberal, quando surgiu, se referia ao esclarecimento da obscuridade do outro, como se a ideologia liberal mesma não levasse consigo obscuridades, irracionalidades, preconceitos e superstição. Como será a história do oportunismo liberal, os liberais do século xviii aproveitaram a vaga deixada pelo ocaso medieval e pelas guerras religiosas sangrentas, para emplacar sua ideologia como expressão última do bom senso, da racionalidade, da civilização e humanidade. Mas vejamos.

Definir-se como liberal é, creio, definir-se como alguém que defende as teses que formam a base desta ideologia e que se encontram nos livros dos seus formuladores a partir do século xviii. Pois bem, são estas teses que estou revendo à luz da história dos fatos e do conceito.

Assim, o mundo doce e suave criado pela ideologia liberal, mundo do contrato, da mão invisível auto reguladora do mercado, das instituições burocráticas “ditas” impessoais etc. compõem a promessa de luz e liberdade abstratas (nunca de justiça real distributiva) doadas pela ideologia liberal à humanidade, mas que logo em seguida a suas formulações gerou, nos EUA, a ideologia do White Power. Ideologia que foi em seguida exportada para as grandes potências mundiais liberais européias do século xix que, em nome de sua superioridade racial, civilizatória, cultural, religiosa (cristianismo), científica etc. impuseram a desgraça imperialista sobre várias civilizações que até hoje pagam pela sua rapinagem.

Este mesmo mundo liberal doce e bem arranjado, com sua defesa do direito de expressão do outro (de sempre defender as teses liberais, claro), desenvolveu e tentou aplicar a ideologia do White Power e de nação eleita por Deus, vinda dos EUA, em sentido totalitário, com o nazifascismo. Tudo crescendo e se desenvolvendo sob as barbas dos intelectuais e políticos liberais capitalistas europeus e estadunidenses, mesmo com os do outro lado nao liberal, atacados por Hitler e Mussolini como “o grande inimigo”, anunciando a catástrofe. (Para os liberais, estes estavam errados, pois os nazistas e fascistas tinham o direito à ignorância. E afinal era coisa passageira … Uma brincadeirinha inocente.)

Enquanto estas ideologias filhas do capitalismo apontavam suas armas para o “grande inimigo”: o socialismo, estava tudo muito bem no mundo liberal, que não queria, de forma alguma, que o exemplo de sucesso dos 13 primeiros anos da revolução russa em todas as áreas da civilização, a partir de um país continental que ainda vivia no modo de produção medieval, inspirasse a classe trabalhadora europeia em temas como: justiça, liberdade, igualdade e fraternidade, por exemplo.

O monstro do nazifascismo cresceu e se voltou contra seus genitores, daí os liberais capitalistas (sempre oportunistas, claro, com seu esquema suave de conciliação, e diálogo, pela lei, pela democracia blá blá blá) pediram ajuda ao “grande inimigo” para conter o monstro e a catástrofe. Mas o estrago já estava feito.

E assim continua caminhando a humanidade.

Como sempre defendo, a perversidade da ideologia liberal não está no que ela diz (retórica), mas no que ela deixa de dizer, já que, para seus mantenedores, é dado incontestável e que tem sempre que ser tomado como pressuposto natural: verdade acima de qualquer prova, axioma não sujeito à crítica. Para um liberal, isso deve ser mantido nem que seja até a destruição total.

Mas o mundo complexo atual fala outra língua, que a já morta do liberalismo. Nosso mundo não comporta mais a ideia “básica” e imutável liberal de “progresso” baseada na exploração infinita dos recursos naturais deste planeta, já que são recursos claramente finitos. A solução  política (de justiça e liberdade) para os sete bilhões de habitantes que vivem na terra hoje não comporta mais uma saída pela democracia representativa e formal liberal, sem que postulemos, na linha do horizonte próximo, com honestidade moral e intelectual que, se quisermos ainda apostar na democracia para poucos do liberalismo, um genocídio sem precedentes virá e fará o do nazismo ser brincadeirinha de criança, coisa pequena.

Agora, perguntando pragmaticamente, qual dos liberais brasileiros, detentores de influência e poder, (empresários, banqueiros, rentistas, juristas, donos da grande mídia, da ala superior das forças aramadas, líderes das maiores igrejas, líderes do congresso e senado etc.), qual destes liberais é defensor da democracia Inclusiva e participativa? Do direito trabalhista? Única e original expressão popular do direito gerada na história por iniciativa e luta da classe trabalhadora? Cada um responda para si mesmo.

No atual momento da história  da humanidade, com cada vez menos espaço de movimentação lisa, suave e descompromissada (indiferente) liberal, pois momento carregado de uma consciência clara da finitude  dos recursos naturais (que no fundo é o que está realmente em jogo: detenção do controle político, legitimado, destes recursos), todos continuam com o direito à ignorância, sim, mas com o dever de se prestarem a ser, no minimo, alertados quanto à alta periculosidade do suposto campus Elíseos liberal.

Pois, diferente do século xix até insistentemente meados do século xx, quando ainda havia certo espaço para se transitar confortavelmente o universalismo mentiroso e retórico liberal, (universalismo dos proprietários, baseado na “democracia para apenas alguns” do liberalismo), hoje, não é mais possível contemporizar com a ideologia liberal como se ela fosse uma coisa inocente porque sempre se mostra como cheia de boas intenções.

Recentemente, aqui no Brasil, em 2016, ficou claro o que sempre se pode confirmar facilmente na história da atuação da ideologia liberal no Ocidente: que se o liberal perceber seu mundo de exclusão e elitismo ameaçado em uma vírgula, ele correrá para o fascismo como o rio corre pro mar.

Alguma dúvida?

* Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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Um comentário

  1. Atente bem para esse texto do filósofo Daniel da Costa. O neoliberalismo não vacila em lançar mãos do fascismo para destruir os trabalhadores e a esgotar o planeta terra. Ajude-nos a movimentar o Cartas Proféticas compartilhando somente os links das postagens: http://cartasprofeticas.org/concordo-com-que-todos-tenham-direito-a-plena-ignorancia-mas-ate-isso-tem-limites/

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