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Crise, identidade e a reação do sujeito histórico (I)

Há momentos em nossas vidas em que o porvir não parece claro e, inclusive, quase não podemos perceber e duvidamos até mesmo se existirá algum, tudo em face das turbações do momento. Talvez isto seja tão inapreensível quanto comparável a confusão das grandes multidões que deambulam pelas grandes metrópoles em meio aos movimentados parques, avenidas e estações, ali em cada esquina onde mil indivíduos se cruzam vidas cruas e se atropelam ostentando uma biografia oculta que apoia os seus desígnios absolutamente imperscrutáveis por quem apenas observa o trânsito caótico de tantos que vão e vem freneticamente sem trocar olhar.

Indesmentivelmente paira certo fascínio sobre esta errância coletiva urbana, deste tipo prenhe de conexões antropológicas, geográficas e estéticas, mas também um cenário paradoxalmente bucólico ao tempo em que multitudinário, em que é visível a multiplicidade de mundos possíveis imagináveis. Malgrado os ataques sofridos por parte do discurso do ódio, a diversidade é capaz de contribuir com maciças doses de esperança para obstaculizar o processo de deterioração do tanto que os coletivos sociais tem a perder quando as forças desintegradoras se põem decididamente em ação.

Há momentos históricos em que somos submergidos em um torvelinho imperscrutável, envolvidos e quase por completo engolfados enquanto indivíduos e coletividade, e cada qual desencontradamente conduzido por cegos objetivos e inspirações como se redentoras fossem. É de tal intensidade o processo que sentimos como se uma tempestade tivesse envolvido uma frágil embarcação em meio a um continente de dificuldades tempestuosas e obstáculos insuportavelmente fortes, virtualmente inderrotáveis, sob momento conflagrado e horizonte obscuro. Talvez seja esta projeção de impotência quanto ao rumo de suas vidas que descola homens e mulheres da percepção do sentido da existência, alheados da condução da história e, assim, alimentando o sentimento de crise identitária.

A superação de crises profundas remete a apropriação do que Roberto Lyra Filho sugere que o sentido profundo da vida humana que se encontraria na “[…] afirmação de que, em nós mesmos está o poder-dever de coletivamente e através da participação de e em classes e grupos montantes e progressistas criar a históriaem lugar de suportá-la[…]”. A condução da história por homens e mulheres é a consigna da suplantação das vias do absolutismo monárquico e suas formas simbólicas similares contemporâneas, mas também das diversas formas de elitismo que habitam o autoritarismo e as múltiplas formas de manifestação da ditadura. Estes sistemas precisam que as coisas transcorram de modo a destituir os indivíduos e a coletividade de seu sentido de identidade, pois isto permite a consolidação do centro de gravidade dos novos modelos históricos dos fascismos, brasileiro incluído, e sob tal cenário é reforçada a validade da advertência de Florestan Fernandes de que é preciso “[…] manter os pobres e as “pressões de baixo para cima” sufocados, inertes, impotentes”. Mas se acaso, mesmo que brevemente, este projeto perceber ameaça mesmo em longínquo horizonte então as forças da vanguarda do atraso forjarão o caos e sob as instâncias do estado de exceção proporão a reconstrução de estruturas da dominação em sua versão mais profunda, rude e bárbara, fazendo arrancar o trem da história em uma veloz e potente marcha à ré.

Sob estes sistemas homens e mulheres necessariamente são colocados à parte da condução de seus destinos e da vida pública. Este processo foi considerado pelo pensamento clássico ao considerar o teor do desvalor de um tempo em que os indivíduos são alvo de profundo domínio, e por isto Demóstenes sugeria que “[…] si […] tenemos presente que ese hombre es el enemigo y se apodera de todo lo que es nuestro y nos ha ultrajado por espacio de mucho tiempo, y que continuamente – cuando hemos supuesto que alguien actuaría por nuestra cuenta – ha terminado todo contra nosotros y que, si actualmente, no queremos combatir a este hombre allí, tal vez después nos veremos obligados a realizarlo aquí, si tenemos presente todo esto, tal vez nos decidamos a hacer cuanto convenga y nos dejaremos de inútiles discursos”. Demóstenes é claro o suficiente quanto ao valor da reação em face do inimigo objetivado, que descarna homens e mulheres tão violenta quanto sutilmente, capaz de comprometer a identidade humana e o seu sentido de valor. É então que convém abandonar – e antes tarde do que quando já inservível para qualquer fim se torne – os inúteis discursos e fazer aquilo que interessa aos indivíduos e no plano concreto enfrentar o inimigo.

O alheamento, o isolamento e a desidentitarização são chaves para a criação do vazio existencial dos indivíduos que facilita a extração dos benefícios econômicos sobre o seu trabalho por parte da oligarquia devido à zumbificação destes seus fiéis servos. Os estratos dominantes coordenam uma esfera política alimentada pelas forças do mercado financeiro, e o fazem emitindo incessantes conteúdos através da mídia para manter os zumbis em funções retroalimentadoras do sistema, do qual são levados a crer que fazem parte ativa. O órgão emissor das mensagens opera sob estrita contratação e gera efeitos similares aos de um feitor-prestidigitador cultural pós-moderno.

Todo este processo de encantamento foi dificultado e encontrou resistência na vigorosa emersão da cultura indígena nas Américas, fenômeno identificado por Darcy Ribeiro, conduzido por homens orgulhosos de sua etnia e posicionados no mundo cobrando autonomia e controle de seus destinos, individual e coletivamente. Este é o despertar que Ribeiro sugeria que poderia inspirar tantos outros povos, aliás, tão necessitados da veia anímica que se materializaria no caminho apontado por Demóstenes.

Hoje as altas esferas do poder denotam o deslocamento (e descolamento) de sua antiga forma de operar e buscar legitimidade para outra e nova forma, mas cujo sentido último é todavia preservado. Assim o transpasso de triunfo histórico-político da Razão de Estado para a Razão (do estrato) econômico-financeiro. Assim, ali onde Yves Charles Zarka mencionava que a Razão de Estado era uma “[…] parte obscura, secreta, inconfessável do exercício do poder: o resíduo irredutível de não-direito que acompanha a arte de governar, quando a necessidade o exige”. Hoje encontramos a outros sujeitos exercendo idêntica arte ávidos de agir no neste território típico do não-direito, onde apenas a (sua) vontade triunfa e solitariamente reina. O território que deveria estar habitado pelo direito é hoje apenas uma parte obscura, secreta e subjugada, plenamente capturada em suas togadas competências pelas forças econômicas. É assim que o Estado já não mais responde aos indivíduos e à coletividade que pretende legitimamente lançar mão dele como o instrumento de realização de seus projetos de vida individuais e coletivos. Esta interdição é firme e a muralha aparentemente inexpugnável, mas tão arrasadora e esmagador é o exercício dos termos desta vitória que ela carrega em si algo paradoxal, a força de sua própria derrota calçada na força do ódio que semeia. (segue)

Roberto Bueno. Professor universitário.

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