perda da identidade

Crise, identidade e a reação do sujeito histórico (II)

O vazio existencial humano que percorre diferentes espaços da sociedade contemporânea é uma constante intranquilizadora conectada com a sombra ameaçadora que coloca em risco a todos quando se percebe que o futuro foi hipotecado e que até mesmo o passado alguns pretendem reescrever, manifestando que em todos os tempos e coisas sobrevive uma sombra profundamente ameaçadora. Uma das dimensões deste fenômeno é o esvaziamento existencial, conectado ao que Darcy Ribeiro denominou de “europeização compulsória”, derivada da forte expansão e dominação das macroetnias europeias mundo afora, o que pode desembocar corretamente na análise de que “Nunca o fenômeno humano foi tão severamente empobrecido e degradado”, o que explica o processo de desarraigamento sofrente dos indivíduos promovido pelo sistema. O fato da colonização étnico-cultural é elemento promotor de alta desintegração, corrosivo dos espaços culturais e, mesmo, das gentes. Mas há algo de prodigioso e forte no coração da diversidade cultural, há algo de misteriosamente resiliente na multiplicidade de culturas que mesmo sob o tacão das forças dissolvente-homogeneizadoras, eis que suportam todas as pressões ainda quando a escuridão se abate e, então, são capazes de hibernar para despertar com força inaudita e voltar à luz.

O efeito de desidentidarização é intenso a partir das estratégias de prosseguimento do empenho dos estrategas da dominação que estabelecem padrões culturais estrangeiros como referenciais para a vida nacional, forçando as fronteiras rumo a perda da identidade individual e coletiva, aplicando-se sobre as instituições civis e de Estado, criando um estrondoso hiato entre a formação cultural original de um povo, as suas formas de vida e as suas expectativas, o que se concretiza em suas estruturas e seus estatutos. Restam dominados os ricos e plurais espaços de transitividade dos diversos mundos, e neles a circulação da palavra (controlada) é o elemento constitutivo mediador, indispensável para os enfrentamentos típicos das sociedades democráticas.

Talvez estejamos sob a égide dos tempos em que sintamos profundamente o que Amós Oz descreveu como uma “[…] fisgada do medo: como um frio anel de aço apertando meu coração […]”. A negativa em vencer este tão duro medo conduzirá a outro e muito mais perigoso território, o da dura submissão. Este sentir compromete a afirmação de pressuposto das sociedades livres, a saber, a autoconstrução das identidades individuais e coletivas, as quais são postas sob ataque e pesado risco. As ações de infratores das regras política e dos valores básicos e das leis que comprometem as liberdades colocam a coletividade sob perplexidade e signo da dúvida sobre como reagir. A este respeito recordamos a certeira observação de Demóstenes sobre que devemos saber “[…] que és lo que va a sernos funesto caso de que no tomemos en cuenta la actual situación y no os esforcéis en hacer lo que es vuestro deber”. Ao cumprir este dever de resistir estaremos a realizar período de desenlutamento do homem, a superar momentos de escuridão que Amós Oz sugere ser um movimento (opressivo) circular que aparece e some temporalmente, mas que é sempre uma importante tarefa que percorre as veias profundas do humano, ampliando os lapsos temporais que medeiam entre o desenlutamento e iluminação histórica e os períodos de escuridão.

Os lapsos opressivos apresentam a constituição de supostas vitórias, mas as há de um tipo e intensidade avassaladora que, simplesmente, não compensam, pois as suas consequências desmontam internamente até mesmo os interesses dos vencedores pois inviabilizam a sua coleta dos louros da vitória. Recordemos a tragédia grega mais antiga da qual temos notícia, Os persas, de Ésquilo, obra na qual é representado o inimigo derrotado mas não com um ar de irresoluto triunfalismo, mas sob a atmosfera da compaixão. A tragédia da contemporaneidade reside na negação de que a palavra e a compaixão são inexoravelmente um bem coletivo, o que conduz a uma interdição do território da alteridade afim de promover a negação da outro.

Após a sofisticação das atuais estruturas de um mundo em que a lógica de fundo, como sugere Roberto Aguiar, é tornar o seu humano consumível (para além de consumidor) e descartável, e deste modo o horizonte é obscuro. Qual o rumo? Onde atracaremos? É difícil predizê-lo a priori, mas é certo afirmar que não será em porto seguro enquanto não concedermos o devido crédito ao fato de que a genuína e profunda corrupção não é aquela que consta das manchetes da grande imprensa, mas sim nos subterrâneos da formação da opinião pública cozida nas suas redações ou, ainda, aquela que é praticada pela obscura oligarquia que compra a legislação criadora de leis que lhes satisfaz os interesses e absolve as suas culpas ao tempo em que criminaliza os seus inimigos. Devido a estas entranhas perigosas é que não podemos compreender o fenômeno jurídico sem apreender a sociologia em suas injunções com a ciência política. Sem isto não há um bom e seguro porto à vista.

A literatura de Amós Oz alerta para um pressuposto sem o qual restaremos todos impedidos de realizar uma atracação adequada e segura. Em seu texto aparece um elemento humano resistente, ciente de que os elementos da vida são fruto da conquista e não de concessões, razão suficiente para que recorde que “[…] sem a Resistência os ingleses jamais vão nos dar esta terra. Nós somos a geração combatente”. Assim como posto e pensado hoje o capitalismo de desastre praticado constitui uma séria ameaça ao futuro da humanidade e do planeta, cujo aspecto objetivo constatável é a constituição de um restrito campo de bem-estar sob a égide do extraordinário, enquanto o campo da exceção é, ordinário-banalizada, que atinge um amplíssimo conjunto de indivíduos. Como diz Oz, hoje nós somos a geração de combatentes, mas que apenas obterá êxito em sua empreitada de superar o Estado de exceção oligárquico se dispuser de força e unidade para instaurar um Estado de emergência em que a nota seja a (re)emersão do social. (fim)

Roberto Bueno. Professor universitário.

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Um Comentário

  1. […] Fonte: Crise, identidade e a reação do sujeito histórico (II) – Cartas Proféticas […]

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