O cálice

Da manipulação dos sacerdotes e anciãos à mídia: “afasta de mim este cálice!”

Caro amigo José Rocha Santana, Salvador, Bahia

Estranhei-me me sentindo sem maiores emoções  nesta Sexta Feira Santa até agora quando decide escrever essa carta para o amigo.

Sempre viro com nostalgia de quinta para sexta feira santa, com tristeza profunda como se estive naquela noite no Cenáculo onde Jesus, embalado pelo terrível medo sofrido pelos seus discípulos, lavou os pés de cada um deles, imagino dizendo que palavras enquanto a água tilintava na bacia e sobre carnes, nervos e ossos de seus amigos.  Também me lembro dos textos evangélicos narrando a prisão de Jesus sob o beijo de Judas no Jardim do Gtsênami .

Nesta sexta feira santa, diferentemente das outras de anos passados, eu me mantinha alegre até que li aqui os bastidores da música “cálice” de Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil, narrados por este.

De repente as feridas de minha alma se abriram com dor virulenta. Num ímpeto, quinta feira se sobrepôs à sexta feira santa e passei às lágrimas descontroladas enquanto tentava em vão me reprimir, dizendo a mim mesmo que isso é coisa de atitude infantil e romântica.

Que nada, ainda vivo a experiência recente de traições provindas do contexto nacional, onde e quando quem era parceiro traiu; quem era amigo virou inimigo; quem era como da família virou algoz; quem era aparentemente nulo e insignificante deu o beijo da traição em busca de poder que não merece ocupar e de prestígio em nome de criminosos e golpistas da pior espécie.

Nesta conjuntura nenhuma organização e instituição escapam. Mentem-se fiel e leal quem o é publicamente e trai com o beijo dos elogios e de artigos demagógicos quem, no silêncio dito sagrado, estende as mãos para os inimigos de sempre, com suas mãos tintas de sangue e com sua consciência manipulada pela mesquinhez.  

Dores assim me fazem disparar o coração e ameaçam meu glaucoma com forte pressão ocular. O suor me recorda das gotas de sangue pingadas no Jardim do Gtsênami, onde pisou e sofreu Jesus.

Influenciado pela conjuntura fértil em traições e mudanças repentinas de comportamento, que não excluem nem os ditos religiosos, meu pensamento arrasta minha alma para frente do tribunal do horror em Jerusalém onde Jesus foi julgado por Pilatos.

Lá vejo uma das maiores farsas do direito, da religião e do campo do poder político. Religião e o Estado usado pelo império romano, poderoso no massacre dos povos e dos pobres, unem-se para se subjetivar no povo que grita contra o maior de seus amigos e libertadores: “crucifica-o, crucifica-o, crucifica-o”.

O evangelho de Mateus não deixa dúvidas sobre o cruzamento manipulador, que usa “autoridades” reconhecidas e respeitadas pelo povo exatamente com o objetivo de enganar a massa. “… os chefes dos sacerdotes e os anciãos convenceram as multidões para que pedissem Barrabás, e que fizessem Jesus morrer” (Mt 27, 20).  A situação foi tão espantosamente contraditória a todas as informações e provas, que não eram poucas, que se combinavam não somente a favor de inocência de Jesus como com sua inarredável bondade e compromisso justamente com as pessoas que mudaram sua avaliação pedindo pela eliminação do messias esperado, que perguntou: “mas que mal fez ele?” (23b). Talvez se fosse hoje Pilatos, o covarde e fraco moralmente, dissesse: a inocência dele não vem ao caso, o que importa são “as vozes das ruas”.

Não haveria julgamento enganoso nem crucificação com assassinato oficioso se o povo não se deixasse manipular e arrastar para o lixo da história na articulação entre  instituições religiosos, que perderam o rumo da justiça como valor ético absoluto,  se unindo ao Estado, aparelhado pelo ódio e pela traição usurpadoras.

Vivemos momento crucial hoje no Brasil. Depois de dois mil anos religião e os mentirosos manipuladores, hoje unidos através da mídia, do judiciário, do parlamento e do Estado, para crucificar as conquistas democráticas e dos direitos sociais que golpeiam profunda e dolorosamente o nosso povo.

Resta-nos a perspectiva esperançosa da manhã de páscoa, que para os cristãos primitivos durou décadas para ser descoberta e conscientizada até que fizessem explodir no mundo a religião libertária assumida por escravos e pobres da Galileia e da Palestina, tomando conta do império romano, relativizando-o e depois destruindo-o, como a pior das representações escravocratas violentas da opressão.

O processo libertário da manhã de páscoa afasta de nós o cálice da traição, das prisões e assassinatos como produtos de golpes e nos descongestiona das manipulações feitas pelos caras pálidas e envernizadas de hipocrisia e subserviência.

A essência dessa páscoa é o soerguimento do povo, mesmo sob ameaças da cruz com seus traidores e manipuladores.

Passe de mim esse cálice!

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

 

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2 Comentários

  1. Prezado Amigo e Profeta,Dom Orvandil,
    Solidarizo-me com sua dor e concomitantemente me coloco em seu lugar haja vista o teor tão doloroso e ao mesmo tempo esperançoso deste texto tão reflexivo na véspera em que revivemos,como cristãos, a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Assim, como cristãos, assistimos a morte da Democracia Brasileira e com ela nossos tão sonhados,sofridos e conquistados direitos trabalhistas .
    Espero um amanhã de Renovo,de Esperança, de pedido Perdão a nós ,o povo brasileiro, pelos traidores e Golpistas .

    Um grande abraço, em nome do Amor de Jesus Cristo.
    Que venha a PAZ!

  2. […] Fonte: Da manipulação dos sacerdotes e anciãos à mídia: “afasta de mim este cálice!” – CartaS e… […]

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