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Depois do desânimo: indignação, pulso e ação (II)

Quando o cenário de escuridão e violência se aprofunda é imperioso recordar e ter muito presente que mesmo as piores tempestades são sempre passageiras, mesmo quando o horizonte nada indique acerca de seu passamento e os danos, falsamente, pareçam irreversíveis. Não são, nunca são.

A mobilização dos indivíduos e da coletividade tem o potencial transformador que a ótica imediatista entorpecida pelo sofrimento atroz eventualmente obstaculiza. Isto é perceptível quando alertamos para a validade da reflexão de Éttiene Balibar ao sublinhar que “[…] los actores históricos son aquellos que cambian la relación de lo social con lo político […]”, e a chave de ignição da alteração destas relações se confunde com a visibilidade do horizonte após a rudeza da tempestade, é o primeiro momento de esperança. Mas esta chave ígnea não pode ser acionada eficazmente senão a partir de uma perspectiva coletiva, ou seja, como diz Balibar, que as ações previamente “[…] imponen el reconocimiento de intereses y de necesidades no sólo como “intereses particulares”, sino como intereses generales de la sociedad, potencialmente universalizables […]”. Efetivamente, o ânimo do espírito público após a tempestade para a reação passa por sua reunião através do compartilhamento dos interesses gerais da sociedade.

O potencial reativo apenas tem potencial para aglutinar forças quando opere em torno a interesses comuns, e é neste ponto crítico que nos encontramos nesta quadra histórica. Não o superaremos enquanto não compreendermos que o estímulo à covardia pública é o grilhão perfeito (e feito do melhor aço) e mais seguro imponível a homens e mulheres para que permaneçam em suas posições de submissão. Este é estágio tão somente suplantável através da mais eficaz gazua, a disposição corajosa de cada um para superar o temor e assim manter o seu próprio horizonte aberto para percorrê-lo segundo o fraterno pulsar pelo melhor sentimento de comiseração e fraternidade pelo outro. Projeção de braços ao ar e força bem endereçada.

A força para recuperar o país advirá da mescla da indignação com o ultraje, da reação ao insolente assalto às arcas públicas realizado por ilusionistas da política cujas máscaras hoje finalmente começam a cair. O fazem sem suavidade, proporcional à ofensa dos muitíssimos milhões descobertos nas contas bancárias de muitas antigas vestais agora conhecidas em sua verdadeira face. O novo caminho nacional não será encontrado senão quando a população compreenda a si mesma como o sujeito histórico recordado por Balibar, atuando desde as mais profundas vísceras de seu ser popular, e nunca desde Miami, pois é deste processo de colonização cultural que advém a má percepção e as frustrações da vida pública, com a política e as instituições.

A quadrilha instalada no poder com a chave dos cofres do Tesouro nacional está apressada pela aproximação de eleições que não pode vencer. Logo, não hesita e utiliza todos os meios para amealhar os bens que não lhes pertence, e dentre outros, não recolhe os devidos créditos nem dos contumazes devedores do Tesouro – os mesmos grandes empresários, banqueiros, industriais e seus associados transnacionais –, senão que os perdoa. A busca pela reposição das combalidas e maltratadas arcas públicas será realizada através do recorte das prestações e serviços essenciais dos quais o povo depende, tal como saúde, educação, segurança, previdência, etc. Exemplo da perversidade sem limites é o corte de 95% da verba federal contra a seca no semiárido, praticamente inviabilizando o abastecimento de água no Nordeste e em Minas Gerais, bem como aconstrução de cisternas nas zonas rurais com a previsível devastação humana. Projeções indicam que os investimentos nesta rubrica para o próximo período não ultrapassarão os R$20 milhões, valor que devemos considerar em proporção aos mais de R$30 bilhões – sim, bilhões – empenhados diretamente chefe quadrilheiro em favor de parlamentares, industriais e ruralistas, dentre outros, para lograr obter votos e bloquear a autorização parlamentar para o seu processamento e consequente afastamento da cadeira presidencial que provavelmente abriria para si e os seus uma outra porta de cujo fechamento derivaria extrema segurança para todos nós que ficaríamos do lado de fora. O que ainda é necessário explicar acerca de um ato de puro banditismo como este?

Um dia, certamente, a presente vileza bandida encontrará o seu ocaso. Um dia, os olhos hoje obcecados pelo ódio introjetado por incansável campanha midiática (ver o caso da Rádio Jovem Pan) vencerão a densidade das imagens e das narrativas constituídas pelas antenas quando a inexorabilidade da realidade abalroe este mundo do puro ilusionismo. Hoje os malfeitores que se apresentam como condutores da tocha redentora do bem cumprem a sua missão como mendazes Savonarolas mas perecerão como Robespierres tupiniquins. Os nossos olhos assistirão o fim do inverno, mas o que toca a todos nós é abreviar não apenas o sofrimento mas também evitar as mortes decorrentes destes dias de intenso e exuberante frio.

As antenas que coordenam o ilusionismo convocam pela mobilização transatlântica, além-pátria. Não choremos mais pelos que perecem nas ruas das grandes capitais europeias e nas grandes megalópoles norte-americanas por atos de homens e mulheres insurgentes, que tão bem dramatizados pela cultura midiática da vênus platinada termina por seduzir corações com suas Condessas de Surucucu de plantão. Distraem as misérias das urbes nacionais, tergiversam sobre as suas apropriações que propulsionam o mal e a miséria, ademais de ocultar as múltiplas chacinas campesinas em que a ordem legal democrática não chega e a pura imposição feudal a todos esmaga. A estratégia é a de atrair a comiseração para além-mar enquanto em nossas ruas e campos corre solta a morte ignominiosa organizada pela poderosa quadrilha. Deploremos as perdas humanas onde quer que sobrevenham, mas ajamos urgentemente para evitar que em nosso solo elas se multipliquem sob a nossa criminosa inércia.

É muito antiga, e odiosa, a prática de amplos grupos dominantes que se portam com indiferença relativamente ao humano, grupos que sempre estiveram voltados a persecução e condenação dos “ameaçadores” líderes populares. Quando estas lideranças são condenadas sob os mais exóticos pretextos, então se concretiza a hipoteca da democracia, que é a consequência direta e necessária do alijamento das lideranças populares do cenário político com a presteza ordinária dos homens das leis. A subordinação da ordem política às aspirações e interesses diretos dos estratos dominantes sempre foi uma realidade nas sociedades escravocratas e naquelas que o republicanismo não penetrou enquanto valor político. Ainda nesta quadra da história subjaz a descrição feita por Darcy Ribeiro de que as classes dominantes nativas brasileiras operaram no país como “[…] gerentes daquele pacto colonial e desta reprodução cultural, jamais formaram o cume de uma sociedade autônoma. Eram apenas um estrato gerencial que custodiava e legitimava a colonização”. O desânimo compartilhado por tantos nos dias correntes envolve a conclusão extraída da hipótese de Ribeiro, qual seja, que a proteção de seus próprios interesses levou as classes dominantes a “[…] continuar regendo suas nações como cônsules de outras metrópoles”. Ao comportar-se como súditos do poderio internacional e realizadores de seus interesses a partir da criação de uma relação de subordinação, esta lógica logo migra para as relações internas com intensidade para soterrar as liberdades através do agravamento das condições existenciais de seus cidadãos.

A hipoteca ou a definitiva ruína do sistema de liberdades não ocasiona qualquer problema ou drama para o mundo do capital, pois ele não tem conexão essencial com o mundo das liberdades. A relação que mantém é meramente esporádica, além de interessada, mas que tranquila e proveitosamente caminha muito à vontade ao lado das forças autoritárias. Exemplo disto foram as opções dos atores políticos unidos ao poder togado e aliados ao poder econômico sul-africano, que durante décadas tentou destruir o líder libertário sul-africano Nelson Mandela, e que finalmente lograram condená-lo à prisão perpétua da qual cumpriria 27 longos anos. Encerrado em alguns metros quadrados pode conhecer lentamente, segundo após segundo, durante dias, meses e décadas, as diversas faces da crueldade, do pavor e todas as dimensões de sofrimento de um cérebro potente dentro de um corpo pressionado.

Os perseguidores de lideranças populares e libertárias como Mandela sempre estão alertas para punir os corpos, destruir a mente e macular o legado daqueles que se ocupam seriamente com a tentativa de combater a miséria a dor humana, ou o que Ulrich Beck classifica como “[…] expressão de uma precarização massiva das condições existenciais no capitalismo de bem-estar social, cuja eficácia política é tão inédita quanto incalculável e global”. O sério ataque a este cenário de privilégios e exclusões que apenas lideranças populares estão em posição de realizer, finalmente, compromete os intensos interesses econômicos de grupos solidamente instalados. A resposta não tarda e nem é modesta, senão célere e agressiva, ainda agravada na proporção inversa a da mobilização popular em defesa de suas lideranças políticas.

No caso sul-africano a grande coalisão político-judicial de perseguidores de lideranças populares não conseguiu destruir Mandela nem dobrar-lhe o espírito, malgrado o cruel aperto a cada dia de cela, opressão que surtiu efeito público contrário, imprimindo no fundo d´alma de seus seguidores o símbolo da resistência. O mesmo movimento gravou na população o claro sentimento da profunda injustiça sofrida pelo seu líder. Através de movimentos deste gênero, ainda que lentamente, a oligarquia cava a profunda sepultura do Estado democrático de direito, levando consigo a credibilidade de seus atores jurídicos, não sem antes apresentar em público a manchada veste interna de muitas togas.

Não raro os Estados encontram-se no limiar dos desafios que a história pode impor sob a liderança de homens demasiado pequenos para os dias, e como recurso de poder mobilizam uma rara sanha persecutória. Ainda assim, contudo, não reúnem forças suficientes para dobrar as lideranças populares, e simplesmente porque estas últimas são maiores em todas as esferas do que a dimensão do perseguidor impositor da brutalidade. Em realidade, a injusta mobilização do poderio das forças togadas opera efeitos contrários e promove o enraizamento ainda mais profundo do valoroso líder n´alma popular, transformando-o em mito precisamente como consequência da injustiça com que o Estado se apresenta publicamente ao brindá-lo com vilipêndios mil. A voz das lideranças populares conclamam ao levante das massas para que sejam trilhados os caminhos que contraditam com os interesses oligárquicos, pois em face da desdita, como dizia Darcy Ribeiro, a realização do conjunto das potencialidades humanas depende de uma “[…] revolução social que interrompa a continuidade secular de sua dominação social e neocolonial”. Poucos são os líderes populares audaciosos o suficiente para levar adiante um projeto universalizante deste tipo. Líderes como Mandela possuíram este tamanho, e isto os torna infensos à destruição por meras canetas de ouro maciço, pois é no fundo da alma humana onde eles atracam, espaço onde as malfazejas canetas togadas persecutórias não alcançam.

Ilustrativa desta inacessibilidade até mesmo por parte do alto poder destrutivo do homem togado relativamente ao grande homem político foi a última fala de Mandela ao tribunal sul-africano que o condenou à prisão perpétua: “Durante a minha vida eu me dediquei ao sofrimento do povo africano. Eu lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu apreciei o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas vivem em harmonia com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual eu espero viver e atingir. Mas se necessário, é um ideal pelo qual eu estou preparado para morrer”. Este é o tipo de liderança e de discursos que colocam em xeque a oligarquia que emprega a toga disposta a perseguir os inimigos de seus generosos patrocinadores. Mas se a história não se repete, sim, ela se redesenha sob diversas formas. Mandela nunca sucumbiu às ofertas para ver-se livre de décadas de prisão em prol de distanciar-se do incentivo à luta aberta contra um regime político abjeto, opressor e escravizante sob a égide do apartheid. Esta é uma miséria que nós também conhecemos muito de perto em uma de suas múltiplas formas de aparição. Depois do desânimo, a indignação e pulso. Braço erguido, pulso fechado brandido ao ar. Conhecer, sucedido de firme ação. (fim)

Roberto Bueno. Professor universitário.

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