desiste, professor

Desisti de ser professor

Edergênio Vieira*

“As rosas da resistência nascem no asfalto. A gente recebe rosas, mas vamos estar com o punho cerrado falando de nossa existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas”. Marielle Franco

No dia 23 de abril de 2017, o professor Juvenal Brasil deixou a sala de aula. Não foi um simples tchau. Foi uma despedida definitiva do local em que ele, um dia ousou sonhar conquistar a satisfação profissional, receber um bom salário e também transformar as estruturas viciadas e arcaicas desse país. Juvenal foi vencido pela desvalorização, sobrecarga de trabalho, condições precárias, desestímulos, baixos salários, indisciplina… Ele virou estatística, a cada dia só no estado de São Paulo, 8 professores concursados desistem de dar aulas e se demitem. A realidade paulista não difere da realidade brasileira. Nas terras goianas vivemos um processo parecido e tão cruel quanto. Sou professor concursado de uma rede de ensino e vivencio na pele os dessabores de ser professor no Brasil.

A educação é um processo social definido e regulamentado pelo sistema econômico hegemônico na sociedade. As relações sociais estabelecidas no sistema capitalista reproduzem-se no chão da escola. Somos sim proletariados da educação. E como tal padecemos da divisão social do trabalho tanto quanto ocorre nas fábricas. A escola que deveria ser o lugar de combate às verticalizações sociais e de luta para a horizontalidade nas tomadas de decisões é na verdade o não lugar do sentido democrático.

Mesmo a tão propagada gestão democrática, nas maiorias das vezes, salvando raras exceções, não passa de um engodo para inglês ver. Afinal o que observamos são verdadeiras panelinhas que se revezam no poder. Aquele que é diretor hoje, troca de local com o coordenador geral, que troca com o coordenador pedagógico ou técnico numa verdadeira suruba educacional. Por trás de tudo isso, está a ignávia de enfrentar a sala de aula. Ser professor, estar em sala de aula é uma atividade árdua que não deixa de vir acompanhada de dor e prazer, alegria e choro, satisfação e insatisfação.

Ultimamente temos observado nas redes de ensino um fenômeno que precisa ser denunciado: a intensificação do trabalho docente que não veio acompanhada da necessária valorização salarial.

Na rede municipal de Anápolis observamos esse fenômeno claramente. Isso se dá por meio do plano de aula, baseado numa rotina pedagógica que desde que foi implementada sequer foi avaliada de forma científica e objetiva. Uma ramerrame que tira da educação o elemento primordial: a inventividade.

Tudo tem de estar engessado, num modelo de plano em que nunca fomos convidados a opinar. Para a rede de ensino de Anápolis, somos meros reprodutores de conteúdos. Entra gestão, sai gestão e a rotina pedagógica permanece.

É preciso denunciar também a absurda quantidade de projetos que somos obrigados a desenvolver. Se formos trabalhar todos os projetos que o sistema de ensino está exigindo, em qual tempo seremos “professores”? Não entenda que com essas palavras desconsideraremos a importância da pedagogia de projetos. Pelo contrário cada escola sempre desenvolveu e bem seus projetos.  Educação começa com respeito e respeito ao professor. O filósofo Jean Paul Sartre nos ensina que não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você. Professor cabe a nós nos rebelarmos contra essa intensificação do trabalho docente. Manifestar nossa indignação em cada espaço de debates, em cada encontro pedagógico, em jornais, revistas e etc. Afinal você acredita que essa intensificação e controle do trabalho docente é despretensioso e não intencional?

O epistemólogo Michel Foucault, desenvolveu a concepção de poder, na obra Surveiller et punir (FOUCAULT, 1975) e no conceito de sociedade de controle estabelecido por Deleuze (2003). Nessas obras observamos o uso dos dispositivos de controle, vigilância e adestramento que estão presentes no ambiente educacional brasileiro contemporâneo, em especial no tocante à atividade docente. Há o uso de aparatos tecnológicos no cotidiano escolar enquanto mecanismos que, embora estabelecidos para contribuir junto ao trabalho do professor, funcionam, na verdade, como dispositivos de controle do trabalho docente, panorama cada vez mais constatado na gestão escolar contemporânea. A atuação dos chamados “assessores pedagógicos” tem se assemelhado a verdadeiros bedéis. São professores que não se percebem enquanto professores, pois são semelhantes aqueles empregados que são os queridinhos do patrão e não se sente explorado como os demais.

Deleuze evidencia que entramos nas sociedades de ‘controle’ que funcionam não mais pelo encarceramento, mas pelo controle contínuo e pela comunicação instantânea. Diz ainda que se pode prever que a educação será cada vez menos um meio distinto do meio profissional e que ambos desaparecerão em benefício de uma formação contínua e de um controle permanente exercido sobre os mesmos. Resta saber se aceitaremos isso de forma passiva ou ativa. Eu sou educador, militante e defensor da mudança dessa sociedade, não desistirei jamais. Antes morrer em pé do que viver de joelhos. Desse luta só sairei quando morrer. Professor? presente!

*É educador e poeta. Professor efetivo da rede de Ensino de Anápolis.

Um comentário

  1. Ótimo texto! Sempre muito consciente em suas palavras!

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