2018

Desprezo os votos de “feliz natal” e “feliz ano novo”

Prezada amiga Maria Genci Silveira, funcionária pública da saúde, Caxias do Sul, RS

Agradeço a mensagem que a amiga me enviou pelo Messenger do Facebook.

Não é a propósito de sua lembrança afetiva que escrevo essa carta, mas a partir de observações e reflexões que faço durante toda a minha vida.

Para os dias consensuados socialmente de natal, virada do ano e páscoa essas felicitações me soam mal, me enojam e me entristecem.

Os tapinhas nas costas e os abraços que as acompanham como cumprimento imposto por datas ditas especiais, sem o olhar profundo marcado de afeto e compromisso com o que dizem,  repercutem em mim como fingimento e falência cultural da humanidade.

Poucas pessoas – pouquíssimas – dizem algo que realmente vale a pena em termos de identificação de projetos de vida, de compromisso com o país, com a luta por mudar o mundo e com o amor pelas pessoas, principalmente as injustiçadas.

Desprezo essas festas de natal e de fim de ano e enojo-me do foguetório sem sentido que fazem os cães sofrerem de dor de ouvidos e de medo.

De parte de pessoas religiosas esses cumprimentos são ainda mais abomináveis porque eivados de superstição e irresponsabilidade. Nada fazem para se somar ao povo para mudar o Brasil, profundamente “merdificado”  por uma quadrilha das mais imorais de nossa história, mas  fazem votos de que no próximo ano tudo mudará pela vontade de Deus.  Heresia total e falta de fé, ao contrário do que dizem.

De camaradas de esquerda, então, a chatice aumenta. Como alguém pode esperar imobilizadamente que o próximo ano seja feliz e bom sem  atender ao mandamento da práxis, tão bem pensado por Karl Marx nas teses a Feuerbach  ao afirmar  em favor da prática contra o subjetivismo cheio dos desejos abstratos e inconsequentes: “até aqui os filósofos se contentaram em interpretar o mundo, importa-nos transformá-lo”?

Abraços com o malfadado e cansativo “feliz ano novo” de quem vê o Brasil afundar,  negociado por quadrilhas que tomam conta do governo, do parlamento, do judiciário e de organizações criminosas como o  da mídia, “esperando” que tudo mude por atos miraculosos ou mágicos,  é colaborar  com os opressores e vendilhões safados.

Desejar felicidades e sucessos formais,  sem nada fazer para reforçar a mobilização em favor de mudanças estruturais profundas,  além de puro fingimento e ignorância, muitos vezes confundidos com educação, é monstruosa sacanagem contra nós mesmos. Isso, sem dúvidas, agrada a satânicos como MiSchel Temer  e seus pilantras como também aos lavajateiros,  com o peão do imperialismo, Sérgio Moro e seus goldy boys  procuradores, os tais fundamentalistas cheios de convicções sem ciência, à frente.

Tapinhas nas costas ou aqueles beijinhos fingidos no ar que muitas madames paneleiras dão,  fingindo desejo de “feliz ano novo” de quem vive para futilidades ou para si individualisticamente  só ajudam a empurrar o Brasil para o abismo sem pré sal, sem suas estatais, sem direitos, sem previdência e com muitos desempregados na miséria.

Neste sábado, 30,  desci à calçada para falar com um trabalhador dos serviços gerais do prédio onde moro. Ao abordá-lo recebi dele um ensaio de abraço com outro de me desejar “feliz ano novo”. Disse-lhe que recusava, a menos que pudesse contar com ele na luta contra o golpe e pela derrubada da quadrilha suja que nos rouba. Ele me olhou emocionado e, impactado, disse: “olha que coisa interessante, o senhor me faz pensar desse jeito”. Encostou sua vassoura no muro e me contou que conversava com sua família sobre as pesquisas eleitorais, sobre a ascensão do ex presidente Lula e acusações sem provas contra ele. Disse-me que ele e a família mudaram o pensamento sobre a avaliação positiva sobre Sérgio Moro, desconfiados de que aquele juiz é inimigo do Brasil e que persegue Lula. Convidou-me para me reunir com a família dele, com seus amigos e me perguntou como participar das mobilizações contra o golpe e suas reformas desgraçadas.

Daí sim, eu tomei a iniciativa em dar um abraço no trabalhador e firmamos o pacto de nos unirmos em futuras lutas para mudar o Brasil e o mundo.

Aí sim vale a pena.  Com a luta prática, unitária, centrada nos interesses e necessidades reais de nosso povo vale a pena abraçar e reforçar os sonhos de mundo novo, que não tem nada a ver com mudança de calendário.

Pensando nisso,  felizmente,  me deparei com um texto do pensador italiano Antonio Garmsci, que se intitula “odeio o ano novo”.

No dia 1º de janeiro de 1916, Antônio Gramsci escrevia no jornal socialista Avanti! o artigo “Odio il Capodanno”. (Nesta obra rara o comunista italiano expressa seu ódio ao imobilismo e ao conformismo pequeno-burgueses. Antes que termine o ano de 2017 compartilhamos com todos inconformados leitores de nosso diário esta tradução ao português baseada em artigo publicado em espanhol na rede internacional de diários Esquerda Diário”, escreveu Clara Mallo).

Portanto, ou nos entregamos à luta unitária pelas mudanças no Brasil golpeado e sangrado ou os abraços e as felicitações não passarão de farsas e excitações de preguiçosos e alienados.

Diante de uma Itália que se rendia ao imperialismo criminoso,  sangrento, destrutivo do povo, que impunha sobre o mundo a primeira guerra  Gramsci repudiava os nojentos abraços e felicitações de “feliz ano novo”  e dizia, com razão:

– “Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me.”

Abraços críticos e fraternos na luta por um Brasil e um mundo mais justos e novos,

Dom Orvandil.

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Leia também: “Os que produzem cadáveres buscam a morte de Lula”. 

18 Comentários

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