povo nas ruas

Dialogar com o Povo é o melhor remédio contra o derrotismo e o desespero

Daniel Samam*

A Banca e a direita estão eufóricos desde a condenação e aumento da pena de Lula pelos três desembargadores do Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4). A mídia monopolista, por sua vez, decreta o fim e a iminente prisão de um dos maiores líderes populares que este país já teve. A elite está embevecida, encantada com a possibilidade de eliminar Lula para sempre da disputa. Mas, pergunto como o gênio das pernas tortas, o Mané Garrincha: “combinaram com os russos?”

Já no campo progressista e de esquerda, o clima é outro. Há os que acreditavam na absolvição de Lula. Inclusive, estes são os mesmos que acreditavam que o impeachment poderia ser derrotado no próprio Congresso. Frutos da ilusão de classe. No entanto, a frase que dá o tom quase sempre iluminista na esquerda é: “Eles não deram o golpe para devolver o poder em eleições democráticas”. Um pessimismo e uma resignação plausíveis para a derrota que sofremos. Mas, também, como dizia Millôr Fernandes, “Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.” O derrotismo é uma saída fácil, pois ignora a análise da conjuntura e a busca de saídas táticas concretas.

A euforia do Capital escancara o caráter classista do golpe. O consórcio golpista, formado pela Banca (capital financeiro e o rentismo), parte da classe política, setores da burocracia estatal (Poder Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público) e a grande mídia, reuniram força para impor retrocessos e o desmonte do Estado Nacional. Mas, engana-se quem acha que não houve resistência no campo popular e que o clima das ruas é de apatia. Eu mesmo errei quando escrevi sobre essa questão, cunhando o termo “depressão cívica” para a suposta letargia da sociedade frente à destruição do Brasil. Ledo engano. Conseguimos vencer algumas batalhas, como tem sido quanto à Reforma da Previdência, principalmente por conta do salto organizacional da luta de massas que resultou na greve geral do dia 28 de abril do ano passado.

A partir daí, vem se formando uma oposição consistente às contrarreformas, ao ponto da posição do povo brasileiro ser majoritariamente contrária ao conjunto de desmonte da Nação, segundo pesquisas de opinião. O que prova que o consórcio golpista pode até ter a hegemonia, mas não tem o controle. Esse dado também é nítido na disputa presidencial. Não há acordo entre o consórcio golpista que viabilizou a vendeta neoliberal e este virá com várias candidaturas, todas sem musculatura, como revelou a última pesquisa Datafolha (31).

Em maio de 2016, o pacto político que sustentava a Nova República começou a ruir após a farsa do processo de impeachment que cassou 54 milhões de votos que o povo brasileiro depositou em Dilma Rousseff. Se aprofundou com a aprovação de medidas que rasgam a constituição cidadã de 1988, como foi o caso da Emenda Constitucional 95, a do teto de gastos. Daí, desencadeou-se uma série de medidas antinacionais como o fim do regime de partilha na exploração do pré-sal, a reforma trabalhista e a nova onda de privatizações de empresas públicas. Hoje, mais uma farsa, dessa vez no TRF-4, que condenou Lula sem provas, poderíamos dizer que a Nova República acabou.

No entanto, há duas alternativas colocadas. A primeira alternativa é a de um cenário de legitimação, de “lavagem” do golpe em curso a partir das eleições e da vitória do Estado ultraliberal, e da derrota da política enquanto possibilidade real de transformar a sociedade.

Neste caso, é a consolidação dos retrocessos impostos a partir de 2016. A segunda, implica em interromper o golpe em curso, restabelecendo a Democracia e abrindo caminho para a disputa democrática de projetos para o país. E a vendeta neoliberal não resiste à Democracia.

Se conseguirmos escancarar o que está em jogo, a maioria do povo brasileiro fará sua escolha. E é isso que explica o porquê de Lula estar em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de votos, mesmo após quatro anos de bombardeio diário da mídia monopolista, do Judiciário e de parte oportunista e ideológica da classe política. Retirá-lo do jogo não é uma tarefa tão fácil quanto parece. Lula compreendeu que a única saída é ir pra cima, é “dobrar a aposta”. Ao fazê-la, mantém viva a disputa, ganhando tempo e impedindo que a correlação de forças desfavorável ponha fim ao jogo.

Ao meu ver, é corretíssima a estratégia de Lula manter a candidatura até o fim. Primeiro porque tira-se proveito de uma brecha na famigerada Lei da Ficha Limpa, onde não há cassação automática de candidatos. Registrada a candidatura à Presidência até 15 de agosto, é preciso que seja requerida a nulidade da mesma ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aí sim, feito isso, cabem recursos, ao próprio TSE e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Como o primeiro turno das eleições ocorrerá em 7 de outubro, será praticamente impossível evitar que a foto e o nome de Lula apareçam nas urnas.

É óbvio que todo esse roteiro se aplica num ambiente de normalidade institucional, da qual não vivemos, mas que o consórcio golpista precisa dar ares de normalidade. Logo, deve-se recorrer aos tribunais superiores sim, mas não se pode ignorar a realidade que, pelas vias institucionais, as chances são mínimas por conta da forte partidarização do Judiciário. Por isso, é fundamental termos clareza de que junto às ações institucionais, temos de reunir um amplo e massivo apoio popular. Como dizia o gênio da revolução de outubro de 1917, Lenin: “de baixo, para cima e pelo alto”.

Visando exatamente o amplo apoio popular, Lula retomará as caravanas na região sul no final de fevereiro. Denunciando as ações antinacionais e antipovo, e se colocando como alternativa real da classe trabalhadora para derrotar o consórcio golpista, a superação da crise e a retomada dos direitos, do desenvolvimento e do emprego. Com isso, se houver prisão, esta será vista pelo povo e, principalmente, pela base social do lulismo, como uma vingança das elites. Lula seria transformado em um perseguido político. Aí, não adianta. Livre ou preso, Lula será o principal fiador das eleições de 2018.

No mais, a ideia de submeter todo o entulho aprovado pelo consórcio golpista a referendos revogatórios, cria as condições para se desenvolver ideias e projetos de unidade do campo para além da disputa eleitoral.

A nós, do PT, a tarefa é menos especulação e futurologia, e mais trabalho de organização da base popular, preparando o povo para a luta democrática através da ampliação e capilarização dos Comitês de Defesa da Democracia e de Lula (CDDL) e na construção, junto a Frente Brasil Popular, do Congresso do Povo. Sem essa de “plano B”. A realização do Congresso do Povo é um passo fundamental para restabelecermos as pontes de diálogo com o povo brasileiro, falarmos sobre as consequências e o porquê do golpe, o caráter plebiscitário das eleições deste ano e o porquê de sair em defesa de Lula.

Não há dúvidas de que só com mobilização popular poderemos nos manter vivos no jogo, reequilibrando a correlação de forças. Então, organizar o povo é o nosso papel central como militantes. O que não pode é o PT, seus dirigentes e sua militância caírem na esparrela de demarcar campo e se auto-afirmarem ao pregar revolução popular sem povo.

Mãos à obra. Venceremos!

*É MÚSICO, EDUCADOR E EDITOR DO BLOG DE CANHOTA. ESTÁ COORDENADOR DO NÚCLEO CELSO FURTADO (PT-RJ), MEMBRO DO INSTITUTO CASA GRANDE (ICG) E MEMBRO DO COLETIVO NACIONAL DE CULTURA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT).

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