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Do linguista Gustavo Conde: “Otavio Frias e Luiz Inácio”

Hesitei em comentar, no calor da notícia, a morte do Otavio Frias Filho porque antevi uma possível enxurrada de comentários agressivos a respeito do tema por parte da blogosfera progressista – o que, felizmente, acabou não ocorrendo. Esse tipo de catarse tende a ser tóxica, mesmo Frias tendo sido quem foi. Eu levo muito a sério a vida humana para subscrever sobrancerias póstumas.

É a maldição da esquerda, real e progressista: nós respeitamos a vida de todo o ser humano, até do inimigo.

E respeitar a vida significa respeitar a morte. Eu lamentei a morte de Frias, como lamento a morte de todo e qualquer ser humano. Fui realmente surpreendido, porque desconhecia sua doença.

Critiquei muito o Frias aqui e acolá. Não gostava do seu texto. Achava uma tentativa pedante de parecer erudito somada a um conjunto de pressupostos técnicos do jornalismo ‘apodrecido’ da distante década de 50.

Otávio Frias prejudicou muito a democracia brasileira com sua conduta persecutória ao PT e às esquerdas.

Um episódio é digno de nota para lembrarmos a problemática condição intelectual do publisher da Folha. Em 2002, Octávio Frias, o pai, convidou Lula para um almoço na Folha de S. Paulo. Lula era favorito a vencer as eleições daquele ano.

Tudo correu muito bem. Octávio Frias tinha respeito por Lula. Mas Otavio Frias Filho, não. Durante o almoço, Otavinho perguntou a Lula como ele almejava ser presidente ‘se não falava inglês’.

Há vários relatos sobre esse episódio. O mais popular é aquele que narra Lula ignorando a pergunta com um olhar de incredulidade.

Talvez, tenha sido exatamente assim, porque Otavio voltou a insistir: perguntou como Lula seria presidente se ele não tinha curso superior.

Nesse momento, Lula se ofendeu e deixou o almoço, junto com o grupo que o acompanhava. Pode parecer bobagem, mas Lula simplesmente teve autoestima e soberania de espírito. Seu gesto de abandonar o almoço foi de profunda significação política. Gesto que reverberou, enfim, até hoje de manhã na moenda mental que conduzia as ações e frustrações de Otavio Frias.

Octávio, o pai, naquele momento, pegou Lula pelo braço e o levou até o estacionamento, como que se desculpando pela grosseria do filho.

Esse episódio não marcou Lula, marcou Otavio Frias. Porque depois daquele almoço, Lula venceria as eleições e faria o melhor governo da história do país por dois mandatos consecutivos e mais a eleição da sucessora.

Sem falar inglês e sem curso superior.

Esse é o ponto. Frias falava inglês e tinha curso superior. Mas ambas as ‘façanhas intelectuais’ adiantaram de alguma coisa, senão a redigir textos pífios e a encampar teses vencidas sobre o jornalismo?

Frias descansou e Lula, certamente, fará uma prece por ele, tão religioso e magnânimo que é.

A compreensão classista sobre o significado do estudo formal é realmente um dos sintomas mais escandalosos de déficit intelectual. É até antiacadêmico pensar assim – porque os verdadeiros intelectuais-pesquisadores-pensadores valorizam o sentido e seus desdobramentos empíricos e não um documento institucional mergulhado em delírios fetichistas, o “curso superior”.

É muito classe média isso.

Seja como for, Otavio Frias cumpriu seu papel. Não foi picado pela mosca do conhecimento, mas tentou, ao menos, participar dele, com suas citações empoladas e quase juvenis.

Havia nele o frescor da autoafirmação.

Não deixa de ser um legado.

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