Dom Paulo - um ano da morte

Dom Paulo deve inspirar mobilização contra retrocesso: ‘Indignação não basta’

Durante relançamento de sua biografia, arcebispo, cuja morte completa um ano hoje, foi lembrado por sua resistência ao arbítrio e ataques a direitos.

por Vitor Nuzzi, da RBA.

São Paulo – No relançamento de biografia sobre Dom Paulo Evaristo Arns, ontem (13) à noite, o nome do arcebispo emérito de São Paulo foi lembrado várias vezes como inspiração para resistir à perda de direitos imposta pelo atual governo de Michel Temer. “Só indignação não basta”, disse Frei Betto, pedindo mobilização, ao afirmar que em um ano e meio o país regrediu 150 anos. Se não houver resistência, acrescentou, “o trator só vai avançar”.

Dom Paulo – Um homem amado e perseguido (Expressão Popular, 455 páginas), das jornalistas Evanize Sydow e Marilda Ferri, teve a primeira edição em 1999. A segunda sairia antes, mas a morte do religioso, que completa um ano nesta quinta-feira (14), adiou o cronograma. Durante o evento de ontem, na sede do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp), na região central de São Paulo, as autoras anunciaram que está sendo organizada uma exposição sobre o religioso, de junho a setembro do ano que vem. E hoje estreia em sete capitais documentário sobre o arcebispo,dirigido pelo também jornalista Ricardo Carvalho.

O jurista Fabio Konder Comparato afirmou ter sido “convertido” por Dom Paulo, que o convidou para integrar a Comissão Justiça e Paz. Ao responder que não era “um bom católico”, ouviu do arcebispo que o importante era estar disposto, como advogado, a defender “até o fim” perseguidos políticos, mulheres torturadas, pessoas torturadas.

“Foi aí que eu entendi a mensagem cristã”, disse Comparato. “Não se trata de ritualismo. Nós devemos ter compaixão. Essa foi a grande lição que ele me deu. Dom Paulo, digo a vocês, me converteu. E, mais do que isso, em grande parte converteu a Igreja Católica”, acrescentou, observando que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) deu apoio ao golpe de 1964 para livrar o país do “bolchevismo” e passou a mudar de visão por meio de Dom Paulo.

“A mensagem evangélica, não só para católicos apostólicos romanos, foi dirigida a todos os homens e mulheres, para que vivam como verdadeiro irmãos.”

Para Frei Betto, o cardeal-arcebispo “é a figura típica do subversivo”. “Mais do que apoiar os subversivos, ele foi realmente o subversivo na Igreja”, afirmou. Segundo ele, a vida de Dom Paulo é uma lista de exemplos, com demonstração de ações concretas. “Jesus não vai perguntar quantas vezes você foi à missa, mas o que fez pelas vítimas da fome, da injustiça.”

Ex-dominicano, Frei Betto lembrou de um episódio da ditadura, quando ele e outros foram presos, em 1969, levados para o Presídio Tiradentes e torturados. O então cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Agnelo Rossi, foi, segundo ele, convidado pelo regime a visitá-los e, em certo momento, perguntou se todos estavam sendo bem tratados. Um deles, contrariando ordem dos algozes, respondeu: “Não, Dom Agnelo, nós fomos brutalmente torturados”.

O delegado disse que era mentira e que as marcas nos presos se deviam a uma queda da escada. Pois foi essa, segundo Frei Betto, a versão que o arcebispo divulgou à imprensa ao sair do presídio. “Isso causou tamanha indignação na Ordem dos Dominicanos que o superior foi falar com o Papa Paulo VI”, lembra o escritor.

No Vaticano, o Papa teria cobrado do arcebispo brasileiro explicações sobre a essa declaração. O fato é que, em seguida, Dom Paulo – que era responsável pela Pastoral Carcerária e tinha sido impedido de visitar os dominicanos – foi escolhido como novo cardeal-arcebispo, assumindo em 1970. Ainda como responsável pela Pastoral, mas já escolhido, conseguiu visitar os presos.

“(Dom Paulo) foi além de todas as fronteiras canônicas, jurídicas, normativas”, afirmou Frei Betto, para quem o arcebispo plantou uma semente, ainda mais “num momento de tanta desfaçatez” como o atual.

Catedral era trincheira

Responsável pela Pastoral do Povo de Rua, o padre Julio Lancelotti lembrou que o arcebispo enfrentou muita resistência e contou ter ouvido promotores de Justiça “xingando” Dom Paulo. “Ele sempre falava a partir da dor dos pobres. Fazia daquela Catedral da Sé uma trincheira de luta”, disse o padre, citando a criação da Pastoral do Menor, logo depois da morte de um jovem nos anos 1980, e do Vicariato Episcopal do Povo da Rua. “Tudo o que fizeram contra Dom Paulo é uma vergonha, é terrível e desumano”, afirmou padre Julio, citando também o momento atual, em que “o povo está voltando a cozinhar com querosene, álcool e lenha”.

Há exatamente um ano, em 13 de dezembro, padre Julio visitou Dom Paulo no hospital. Conseguiu transmitir uma mensagem: “Dom Paulo, o povo da rua mandou um beijo e um abraço para o senhor”. O arcebispo morreu na manhã seguinte, aos 95 anos.

“Evocar a figura de Dom Paulo no momento em que estamos vivendo no país é absolutamente necessário”, disse o pastor Ariovaldo Ramos, falando em “tempos inacreditáveis” e lembrando do período da ditadura. “A gente está vivendo isso de novo, de uma outra forma, tão cruel quanto.”

Segundo ele, Dom Paulo ajudou a todos os “pastores cristãos” a ver que há valores que precisam “transcender todas as diferenças, mesmo que essas diferenças sejam de fé, de compreensão, em nome de um valor maior, que é o ser humano”. Ao lembrar do arcebispo, o pastor afirmou que “tiranos de plantão, miseráveis tiranos, como os que estamos enfrentando hoje, essa camarilha, sempre encontrarão opositores”.

Marilda Ferri lembrou que a ideia do livro nasceu quando ela e Evanize ainda eram estudantes de Jornalismo. A obra agora relançada é dedicada ao pastor presbiteriano Jaime Wright, que as orientou e morreu pouco antes da conclusão do trabalho, em 1999. O reverendo era amigo próximo de Dom Paulo e chegou a ter uma sala na Cúria Metropolitana. Ontem, no lançamento, estava presente sua filha Debora.

Evanize adiantou que o Centro Cultural dos Correios, no centro paulistano, receberá uma exposição sobre Dom Paulo, de junho a setembro de 2018. “Vai ser um evento voltado para os jovens”, disse, enfatizando a necessidade de mostrar à atual geração quem foi o arcebispo. Duas regionais da Cáritas estarão à frente da mostra, que já tem apoio, entre outras entidades, da Apeoesp, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, Fundação Maurício Grabois, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e do Corinthians, time de Dom Paulo.

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