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Dom Paulo Evaristo Arns morre e denuncia a morte das tiranias

Prezada Professora Iara Covolo, Porto Alegre, RS

Há pessoas que vivem nos limites apertados de suas famílias e de suas instituições, sem perceber que integram o mundo, que vivem parte da vida que insufla existência em todas as espécies e na humanidade.

As que se espremem em suas instituições se deixam poluir pela natural mediocridade do conservadorismo do mofo de suas corporações. Aí passam a vida sem fazer história e a cumprir programas descidos de suas hierarquias sem vínculos e sem comunhão com a teia social e cultural que compõe as angústias e alegrias das pessoas.

Conheço muitas assim. Certamente a amiga, também.

Em se tratando de igreja, então, as restrições escurecem e enrijecem ainda mais esses quadros.

Não raro nos deparamos com padres, bispos, cardeais, pastores e chefes religiosos que não escutam, que não observam e que não se emocionam com os dramas que atingem as pessoas do lado de fora de suas molduras confessionais.

Apegam-se a dogmas até mesmo com referência às fontes da vida. Facilmente se fanatizam e se tornam intolerantes com os diferentes.

Creio que o filme O Pagador de Promessas ilustra bem a amargura de padres e bispos que não sabem reagir em face das surpresas da vida, por isso  rápida e facilmente derivam para o autoritarismo de quem se imagina superior aos outros e aos problemas sociais.

Há também os pastores que falam em amor e em Jesus aos berros e aos esguichos como quem odeia o mundo, que eles acusam de afundar no pecado. Estes também são limitados aos seus mandamentos e idolatrias, fazendo de Deus uma muleta de seus caprichos e da Bíblia um manual vazio, sem estudos e cheio de regrinhas. Sua marca também é o autoritarismo e os resultados disso é o permanente estado emocional de quem ainda se imagina cumpridor de vereditos da Santa Inquisição, numa disposição incendiária de jogar raios de fogo sobre os outros.

Pois bem, em contraste com esse estilo seco e insosso de viver foi o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, falecido nesta manhã em São Paulo.

Conheci pessoalmente esse grande irmão da humanidade e parceiro dos pobres, injustiçados e oprimidos. Mas conheci principalmente sua obra como Arcebispo de São Paulo.

Dom Paulo transbordou o episcopado e a introversão como governante de uma arquidiose romana.

O Cardeal Arns transcendeu os arraiais de sua Igreja para ser um irmão da humanidade.

No meio e a partir da humanidade se deparou com uma ditadura sanguinária e brutal, que prendeu, torturou e matou milhares de pessoas que lutaram por justiça social e por democracia.

Ouvi muitos de seus críticos afirmarem que ele ultrapassou os limites de sua missão pastoral para se meter lá onde as coisas aconteciam na esfera do Estado e nos choque da sociedade.

Dom Paulo nunca fez essa divisão diabólica entre mundo e igreja.

Nunca fechou os ouvidos aos gritos emanados das vítimas da ditadura nazista.

Jamais cruzou os braços ante as feridas causadas pelos tiranos que ensanguentaram o Brasil.

Também não se negou denunciar corajosamente, como cabe aos profetas,  os crimes bárbaros que a tirania dos golpistas civis e militares, que destroçaram a democracia a partir do golpe de 1º de abril de 1964. Com isso mostrou não se amesquinhar com medo das ameaças de eliminação que recebeu por parte dos esquadrões da morte a serviço da tirania.

A fama de Dom Paulo se espalhou pelo mundo como a de uma autoridade que sentia por ver e escutar os clamores que se levantavam dos aviltados em seus direitos humanos.

Com isso nosso irmão, hoje falecido (14/12/2016), se tornou uma autoridade conhecida e respeitada, escutada e consultada com respeito por se sensibilizar com os atentados inimagináveis sofridos por nosso povo em todo o Brasil.

Arns é o tipo de cristão que o foi não só de igreja e de missa, mas para toda a sociedade.

Com a morte do jornalista judeu e comunista, Vlademir Herzog, barbaramente torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI, a boca do inferno, Dom Paulo mostrou a grandeza humana de quem é capaz de enxergar muito além dos estreitos limites da sacristia e de sua Sé Arquidiocesana. As barbaridades sofridas por seres humanos justos e bons foram por ele percebidas, independente de suas convicções e fé.

Mesmo sob as mentiras e mistificações da ditadura e de sua mídia – como sempre – que noticiaram o suicídio de Herzog Dom Paulo imediatamente abriu as portas da Catedral da Praça Santa Sé para velar aquele que foi calado pela covardia e pelo ódio.

O velório e culto ecumênico que anteciparam o enterro do grande Vlademir Herzog se tornaram barricadas de luta contra a ditadura em forma de denúncias contra o arbítrio abjeto e violento.

Sob as lágrimas e sorrisos de Dom Paulo se reuniram inúmeras personalidades para velar e reverenciar o jornalista judeu, velado numa catedral católica romana.

Esse foi um dos grandes eventos que puxaram Dom Paulo para dentro dos furacões destroçantes da dignidade humana,  porque ele se deixou atrair por amor à justiça social. Porém, Dom Paulo é peça fundamental do Brasil que lutou pela democracia e pelos direitos humanos.

Dom Paulo foi um dos grandes responsáveis pela derrubada da ditadura, pela afirmação da democracia que saiu da Constituinte de 1988. Sua arquidiocese, suas centenas de paróquias e pastorais serviram de molas propulsoras de debate e abaixo assinados em favor de projetos democratizantes que desembocaram em comissões da Constituinte e em muito do texto constitucional, alvo hoje da fúria e do ódio dos golpistas.

Como disse o Professor, Teólogo e Filósofo Mario Cortella: “Dom Paulo se enraizou no povo e no Brasil, de modo que sofremos com sua morte, mas nos alegramos com sua vida. Viva Dom Paulo”.

Para mim fica para sempre o exemplo de um cristão que não se limitou à poeira e aos fungos do interior da igreja institucional, muitas vezes feita empresa desumana e desrespeitadora.

O sorriso de Paulo Cardeal do Estado de São Paulo e da Cidade de São Paulo, com o mesmo nome do apóstolo dos gentios é inapagável, que pairará para sempre em suas fotos eternas e em seu amor pelos pobres e pelo povo.

A morte de nosso amado Cardeal franciscano dá-se ainda no ano de 2016, trágico para o Brasil e nossa democracia.

Certamente as velas de seu velório servirão de iluminação para nossa nova noite feita do apagão da democracia pelo golpe de Estado que sofremos, com enormes prejuízos para os direitos humanos e sociais.

Da Catedral de São Paulo como que ouviremos novamente Dom Paulo em seu esquife a bradar contra as injustiças e a opressão dos golpistas.

Dom Paulo é nosso eterno profeta e sua voz não se calará nas trevas que sombreiam o Brasil nesse momento. Seu sorriso fraterno e paternal nos abençoará na esperança de quem luta e não se acovarda!

A frase de Herzog faz parte da história de Dom Paulo: “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados”.

Viva Dom Paulo. Viva o Cardeal sorriso. Viva o Cardeal coragem!

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

 

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3 Comentários

  1. Hoje é dia de Luto e Luta!
    Dom Paulo Evaristo Arns,PRESENTE!!

  2. Emocionante texto, vai fazer muita falta sua partida, um homem além do seu tempo, que ajudou os brasileiros quando mais foi preciso,nas sombras, sua alma farrapa e seu coração franciscano foram essenciais para a redemocratização do nosso Brasil, seu exemplo ficará na historia da humanidade, para guiar-nos mais uma vez, para que possamos passar está tormenta fascista que nos ataca desde o golpe de estado orquestrado pelos abutres yankes com ajuda dos traidores da pátria Brasileira, saudamos a memória de um grande humanista, viva Dom Evaristo, viva o Brasil e o povo brasileiro.

  3. Parabéns Dom Orvandil! Belíssimo texto. Fiquei comovida em saber que o Dom Paulo Evaristo Arns foi sempre do lado dos oprimidos. Continue a escrever

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