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Dom Pedro Cassaldáliga desce ao pó, mas viverá nas obras da luta dos pobres, na denúncia da opressão e no amor revolucionário

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Caríssimo Professor Dirceu Júlio Orth, Tangará da Serra, MT

O Brasil e o mundo acordamos tristes com a notícia do falecimento do nosso guerreiro, herói e revolucionário Dom Pedro Cassaldáliga, Bispo Emérito da Prelazia de São Feliz do Araguaia, MT.

A vida social é pura contradição involuntária. Por isso a fé também é composta dessa mesma poeira da luta de classes, com os poderosos donos de tudo – de terras, de água, de minérios, de árvores, de países, do sangue roubado dos trabalhadores e das vidas das massas inermes .

Ainda ontem analisei aqui a parte da edição do discurso dominante com a notícia do padre Reginaldo Mazotti, o politiqueiro do partido do mercado e do empresariado burguês, que usa a pandemia,  que mata majoritariamente os pobres, para chantagear as multidões, a custa de quem  vive no luxo até mesmo no uso de paramentos finos e caros, como forma para se  apresentar às madames e aos senhores dos negócios, que fazem dos trabalhadores mercadoria.  O “seo” Mazotti vive de uma “fé” espetáculo, contra cultura dominante e de enganação das consciências das massas, que se refugiam nas trevas da cantoria dele e de suas pregações alienantes.

Reginaldo Mazotti faz religião para o lado perfumado, cheiroso e explorador da elite dominante. Talvez ele até pense em converter os vendilhões, como se isso fosse possível. Por isso se traja e se aparenta para agradá-los.

Ao contrário do projeto de “fé” de Mazotti, dos padres espetáculos,  dos pastores e bispetos neopentecostais, em cujo conteúdo, na essência, não há a menor diferença entre eles, dom Pedro (o Pedro, como ele gostava de ser chamado) usava chinelos de dedo, tinha uma ou duas calças, andava a pé boa parte dos percursos próximos à sede da Prelazia. Nas longas distâncias se locomovia nos mesmos barcos do povo. Naqueles meios de transporte dom Pedro se misturava às galinhas, aos porcos, aos bezerros, aos jacarés e com o povo trabalhador,  usando seus trajes simples e surrados.

Até mesmo no trajar as pessoas simbolizam suas orientações ideológicas. Os ditos religiosos empresários ostentam no que se vestem, onde se hospedam,  onde rezam e onde celebram.

Os padres e pastores espetáculos adoram roupas de grife, de moradias requintadas. Sei de um desses padrecos cantores que é até fazendeiro e latifundiário. Ele ama aparecer nas programações da Globo. Fala bastante mas não mexe nos privilégios dos salteadores do mercado.

Dom Pedro foi enorme incômodo para os latifundiários de São Félix do Araguaia, apoiadores da sanguinária ditadura imperialista-militar e do protofascismo, ajudando a eleger o fantoche Jair Bolsonaro.

Por isso foi perseguido brutalmente. Teve seus padres, seminaristas e catequistas  torturados,  um deles esbofeteado e assassinado na frente dele numa delegacia de Ribeirão Cascalheira, município da Prelazia de  São Félix, o padre  jesuíta João Bosco Penido Burnier.

Dom Pedro, que também foi arrastado pelos cabelos por policiais torturadores, e o padre Burnier,  não foram massacrados nessa delegacia por defenderem os latifundiários reacionários, como o fazem os padres espetáculos, mas por intervirem em favor de mulheres presas e torturadas no local dos infernos.

Ao morrer, Dom Pedro nos remete à memória da libertação, em cujo campo a luta é embate permanente entre os opressores reais, aniquiladores de direitos, ladrões de terras, promotores da destruição das florestas e das águas, genocidas dos indígenas e quilombolas. Aí nada é espetáculo de bajulação e da prática do crime de adormecer a consciência popular.

Mas Dom Pedro viverá sempre como o profeta que não só denunciou pessoalmente, com coragem, com ousadia e força num corpo frágil e de pequena estatura, enfrentando fazendeiros cruéis e fatíveis, mas como o profeta revolucionário e socialista.

Como socialista,  Pedro testemunhou que não é somente possível ser cristão na luta contra a classe dominante e na emancipação da classe trabalhadora e de todos os pobres, mas é a única maneira de professar a fé no Jesus palestino, pobre, campesino, pastor de ovelhas, pescador  e carpinteiro.

Ser cristão e socialista revolucionária são as únicas credenciais que nos autorizam a rezar o “Pai nosso” e, nesta oração de Jesus, dizer “pão nosso de cada dia”. Nosso e não utilidade do mercado e dos ladrões que comercializam em cima da fome do povo.

Na jornada revolucionária Dom Pedro se tornou amigo de Fidel Castro, de Hugo Chaves e de tantos heróis lutadores que lapidam uma sociedade tão fraterna que não precise de picaretas espetáculos, sugando o povo e enterrando as massas na miséria religiosa da alienação.

Conheci pessoalmente Dom Pedro. Com ele enfrentei tempestades de perseguição, com ameaças de bombas, com cortes de energia elétrica e atentados num encontro sobre a causa indígena e florestal que aconteceu nas Ruínas de São Miguel no RS. Depois, ele e o Irmão Marista Antonio Techin, barbaramente torturado pelos milicos e civis da ditadura fomos para a minha casa em Cruz Alta, RS.

Vi lá em casa em Pedro o vigor do revolucionário. Revoltado, rebelde, muito bem informado e ousado, mas de uma ternura incomparável.

Isso combina com a reportagem do jornalista de um jornalão que fez matéria com ele e sobre seu trabalho na prelazia. Uma frase ,não literal, da matéria se alojou para sempre em minha alma. “Dom Pedro de chinelos de dedo, surrados,  se paramentou para celebrar numa choupana que ele fizera de sua catedral, ao erguer o cálice e o vinho vi o seu rosto transfigurado e luminoso”, teria escrito o jornalista.

Enquanto preparava o chimarrão na cozinha para celebrar a vista ilustre não ouvi Dom Pedro nem o Irmão António falarem nenhuma vez em Jesus nem catarem músicas alienantes nem mesmo a declamar  uma das muitas poesias de Pedro sobre a utopia, seu tema predileto. Mas vi nele o Jesus rebelde, apaixonado pelos pobres e sonhador em luta por um mundo sem imperadores, sem tiranos, sem fantoches nem religiosos puxadores de saco da burguesia.

Nele não vi banhos sujos no Rio Jordão, daqueles que os falsos messias, picaretas e perversos tomam para iludir crentes bobos. Mas vi na cozinha da casa pastoral em Cruz Alta um homem simples e franzino,  experimentando o chimarrão e conversando animada e seguramente como profeta banhado nas águas revolucionárias feitas do suor e do sangue do povo.

Dom Pedro desce a terra para integrá-la como pó, mas ficará no planeta eternamente como o bispo apóstolo da justiça, dos direitos dos pobres e do socialismo.

Pedro, herói da fé legítima e testemunha do verdadeiro Jesus galileu dos pobres, presente!

Abraços críticos e fraternos,

Dom Orvandil.

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