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Doutrina da Igreja: solidariedade, misericórdia e fraternidade

Roberto Bueno*

O desígnio de Deus é a realização do reino do amor entre os homens. O agir libertador do homem na história não é eterno senão quando conduzido pelo olhar fraterno, solidário e compreensivo do outro e de suas circunstâncias. O agir radicalmente transformador é calçado no vigor mais profundo do olhar solidário e fraternos entre os seres vivos, cuja capacidade transformadora é virtualmente inesgotável. Enfrentar as resistências à ventura coletiva é o grande desafio do humanismo católico, e o cristão deve tomar posição decidida em favor da justiça social, e este é o grave desafio de todos os tempos, mas também a suprema glória apenas divisá-lo no horizonte na ecclesia. A mobilização para tanto é a dificuldade entre corações partidos e rancorosos cujo desarme pode ser tão complexo quanto desafiador, mas em nenhum caso inviável para os desconhecidos caminhos percorridos pela divindade.

Jesus Cristo evidencia a sua unidade no homem em sua condição concreta na história, e nela é espírito e imanência, reúne a todos os Seus filhos e os consagra na união esperada da humanidade sob a luz turva do livre arbítrio. A Igreja é o fiat do homem através da reunião e da fraternidade, é tutela do Pai e transcendência no irmão, é concretização do espírito da pessoa humana no coletivo para no qual convergem os sinais do amor e da renovação da vida, é a morada compartilhada de Deus com os homens e entre estes todos, acolhida e fraternidade, misericórdia e perdão, e também solidariedade. A Igreja reunida é o sinal cristalino da presença de Deus neste mundo, espaço em que as relações se aprofundam e o homem transcende em sua imaginação de mundo em comunhão com a alteridade.

Amar em Jesus Cristo requer homens e os seus corpos sólidos, para assim encontrar a condição de iluminá-los pela fé. Liquidá-los é dar fim à própria condição de realização de Deus no mundo. Se o desígnio de Deus é a missão da Igreja na Terra, então o divórcio expresso e bem claro entre os cavaleiros do apocalipse que propõe o extermínio da carne, e do espírito, humano não disponibilizam outra opção para o mundo católico no que concerne à opção fascista-neoliberal hoje em expansão neste mundo. A transcendência da salvação está conectada à autonomia das realidades terrestres, e daí a opção exclusiva da Igreja Católica pela organização humana que a estes congrega e protege.

Não há conciliação nem amor possível na consolidação de uma sociedade em que o desprezo por homens e mulheres se configura no puro abandono de suas vidas e desprezo pelo fomento ao seu espírito e as condições para a eclosão da paz e da justiça que desemboque na prática reunificadora coletiva e sempre renovada do amor. O catolicismo romano identificou na proclamação dos direitos humanos um desvelo temporal da magnificência divina, um dos pontos de elevação na história da humanidade em sua busca pela elevação moral da humanidade no sentido de garantir as condições objetivas para a dignidade humana, e para Leão XIII já reconhecia a importância da função do Estado em promover o bem comum, cuidar os homens e dar apoio aos pobres, pois de tangenciar este afazer concretiza a ofensa à justiça distributiva que é o próprio amálgama da sociedade humana.

Sob projetos políticos e econômicos compatíveis com o extermínio dos homens e das mais básicas condições de sua dignidade é também liquidado o mistério do amor divino neste mundo. Como pode o homem de fé católica apoiar a destruição das condições de sua própria fé? Como pode o homem de fé católica infringir o direito natural do ser humano e não protegê-lo? O homem da fé católica precisa considerar a letra objetiva da doutrina de sua Igreja, que objetivamente estima que a fonte última dos direitos humanos não se situa em alguma verdade ideológica objetivada no direito estatal, calçado em um conjunto normativo derivado da apuração de maioria de vontades humanas reconhecidas como legisladoras em um determinado território, senão que tal é o desejo e o valor que o Deus reconhece como grandeza ética a todas as suas criaturas. Portanto, se um católico realmente acredita na doutrina de sua Igreja, como pode apoiar o fascismo que vitupera, emprega e detona todas as forças pela destruição de homens e mulheres, liquidando assim rapidamente todas as possibilidades de que o próprio amor triunfe neste mundo?

*Professor universitário.

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