educação

É o professor, estúpido!

Edergênio Vieira*


         Nos dois primeiros debates entre os presidenciáveis, o tema que figurou entre os mais pesquisados pelos internautas em um famoso site de busca foi a Educação. É sempre assim, em momentos eleitorais a educação figura entre os temas mais importantes a serem problematizados e debatidos pelos candidatos. No geral as propostas são genéricas e sem muita profundidade. Primeiro porque a população não compreende muito bem o conceito de políticas públicas em educação. E segundo os candidatos são pessimamente assessorados de forma que nem eles mesmos têm compreensão de o quê fazer, para melhorar a educação brasileira.


       Uma pesquisa realizada pela Universidade de Stanford, que tem entre os autores o economista Raj Chetty, acompanhou 2,5 milhões de crianças durante 20 anos no Estados Unidos. Os resultados podem servir de plataforma eleitoral para qualquer postulante a um cargo público no Brasil, sobretudo ao executivo municipal, estadual ou federal. Segundo o estudo, estudantes de um bom professor têm maior probabilidade de iniciar o ensino superior, entrar em faculdades melhores, receber maiores salários e até mesmo poupar mais para aposentadoria.


        De fato a pesquisa evidência que mais do que debater base curricular, reforma de ensino e outras temáticas do universo escolar o investimento no professor é o principal mecanismo de melhoria de qualidade na educação. Bons profissionais são mais importantes especialmente para alunos com perfil socioeconômico baixo. O contato de um aluno com um bom professor por anos seguidos, pode mudar o destino desse estudante pobre e eliminar o fosso que separa a aprendizagem dele com a de um estudante de classe alta. De acordo com a  pesquisa, um docente de qualidade tem o domínio do conteúdo que ensina e uma boa gestão de sala de aula, com estratégias que mantêm alunos envolvidos e técnicas de ensino eficazes.


         Mas não sejamos românticos e nem simplistas, ao ponto de pensar que a simples presença de um bom profissional na escola, por si só ira resolver todos os problemas da educação brasileira. Não vai. Professor também não é a Panaceia da sociedade. O investimento no professor é a garantia de um profissional comprometido com o que faz e que transmite este entusiasmo ao seus alunos. Infelizmente os professores, em especial os das escolas públicas estão desmotivados diante do descaso com a profissão docente. A formação é na maioria da vezes precária, em cursos noturnos com alunos recrutados entre os estudantes de pior desempenho no ensino médio, que muitas das vezes fazem a licenciatura porque “foi o que sobrou”, ou “era fácil passar” e tem na profissão docente um bico, para conseguir “algo melhor”.


       Mesmo nas universidades públicas que se sustentam na tríade ensino-pesquisa-extensão, esses alunos não saem com o mínimo de preparo para assumir uma sala de aula. Muitas universidades precisam “diminuir o ritmo” para não assustar os calouros que chegam com uma baixa capacidade cognitiva para enfrentar o ensino superior. O primeiro ano da universidade é como se fosse o quarto ano do ensino médio.


         Quando concluírem o curso superior não enfrentarão vida fácil nas escolas. Construções precárias, salas lotadas, indisciplina, falta de compromisso da família com a educação dos filhos, baixos salários, duplas e triplas jornadas farão parte do cotidiano desse profissional. O Brasil trata mal seus professores. Aqui o ciclo vicioso se completa. A desmotivação será a tônica, e esse profissional irá fazer com os alunos dele, o que fizeram com ele. O resto da história todo mundo já sabe.


         Pesquisas são estudos que deveriam servir de norte para formulação de políticas públicas de curto, médio e longo prazos. Todos os candidatos deveriam ler a pesquisa, seus assessores também, afinal não há dúvidas educação de qualidade, começa com professores de qualidade, bem formados, bem remunerados, valorizados. Assim fizeram nações com passivos educacionais piores que o nosso. Precisamos fazer o dever de casa, caso contrário o Brasil será o eterno repetente.

*É professor da rede municipal de ensino de Anápolis.

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