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Em defesa da educação

Edergênio Vieira*

No cruzamento de uma grande avenida em Anápolis, em frente ao batalhão da polícia militar, em meio aos carros, um homem expõe um cartaz “Me ajude a realizar meu sonho, ser empresário.” A ajuda ao qual ele se refere é uma esmola. Se Paulo Freire passasse de carro, como eu naquele momento diria: “Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar opressor”. A esse fenômeno, quando um miserável tem para si o sonho de outra classe social, Marx conceituou como alienação, quando indivíduos estão alheios a si próprios ou a outrem tornando-se escravos de atividades ou instituições humanas, devido a questões econômicas, sociais ou ideológicas.

Numa plataforma de vídeos, um canal chamado Meteoro fruto de uma campanha de financiamento coletivo, a alagoana Márcia Teixeira, artista plástica, quase graduada em Filosofia (uma disciplina que para o governo de extrema-direita de Bolsonaro é desnecessária, porque ensina os trabalhadores a pensarem) sugere que as pessoas leiam Hegel. Parece heresia (heresia é um conceito cristão, utilizo a palavra deslocado do seu conceito originário, para expressar o absurdo da propositura de Márcia, ler Hegel?) pedir às pessoas que leiam esse alemão do século XVIII-XIV. Georg Wilhelm Friedrich Hegel é um dos mais importantes e influentes filósofos da história. Ele faz parte da escola chamado Idealismo Alemão, movimento filosófico que balançou as estruturas do pensamento alemão (ainda Prússia) do fim do século XVIII e início do século XIV. Hegel tem influência de Immanuel Kant, autor de um texto dos mais difíceis de ser lido: Crítica da Razão Pura. Ler filósofos alemães é difícil. A base linguística é outra. As línguas germânicas são um ramo da família indo-europeia. Indo e Europeia são as duas raízes dessas línguas que nascem do contanto intercultural, que tinha como base a troca de mercadorias entre europeus e indianos. O Sânscrito especialmente misturado com outras línguas europeias. Veja bem o Alemão é diferente do Português, porque o último é de origem Latina, advém do Latim. Idiomas como o Espanhol, ou mesmo o Francês são mais familiares aos nossos ouvidos.

Ler os franceses também não é tarefa fácil. Foucault, Pêcheux, Descartes, Bourdieu, Levi-Strauss ou mesmo Durkheim são extremamente difíceis de entendimento. Não que a língua deles seja mais complexas que a nossa. Estudos linguísticos já desmistificaram essa falácia defendida anteriormente. São os conceitos deles que necessitam de uma escuta maior nossa. E a recíproca é verdadeira. Para eles nos entender é extremamente difícil. Paulo Freire é o brasileiro mais citado em estudos científicos no exterior. Sim, o mesmo Paulo Freire demonizado pela extrema-direita brasileira é o nosso Pelé das ciências sociais e humanas. Imagina Paulo explicando à um estrangeiro o momento em que o país dele vive, esse que é um dos maiores educadores do mundo, explicando que no último dia 26 de maio, milhares de pessoas foram às ruas defender o absurdo. Defender a retirada de verbas da educação pública, defender o não direito à aposentadoria. Em frente a Universidade Federal do Paraná- UFPR, uma das dez melhores universidades do Brasil, os manifestantes da ultra-direita brasileira retiraram uma faixa que dizia: “Em defesa da educação.”

O sentimento que tenho é o de que regressamos à 10 de maio de 1933, quando os nazistas em praça pública queimavam livros, porque Hitler pretendia fazer uma “limpeza” da literatura.

Em defesa da educação, é por isso que não podemos desistir. Chico Buarque de Holanda que semana passada ganhou o prêmio Camões, um dos mais importantes da Literatura já dizia: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia.”

Vamos ler Hegel, como sugere a Márcia no início do texto, para entender a Fenomenologia do Espírito, que transcrevo aqui ipsis litteris “Segundo minha concepção – que só deve ser justificada pela apresentação do próprio sistema –, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas também, precisamente, como sujeito. Ao mesmo tempo, deve-se observar que a substancialidade inclui em si não só o universal ou a imediatez do saber mesmo, mas também aquela imediatez que é o ser, ou a imediatez para o saber. […] A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou – o que significa o mesmo – que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade reinstaurando-se, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim.” Dessa forma podemos nos tornar um pouco melhores do que somos. Dia 30 de maio. Dia Nacional de Luta Pela Educação.

*É mestrando em Linguagens e Tecnologia pela UEG, colunista do Cartas Proféticas.

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