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Escritos pela Democracia: “A távola redonda, os guardiões da Constituição e a fome do povo: paradoxos sobre o destino”

Marcelo de Souza[1]

Mito ou realidade, a história/conto do rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda estão na cabeça de milhares de pessoas ao longo dos anos. O ideal sobre o justo, a lealdade e força faz parte do ideal romântico sobre força e respeito. Pensamos nos homens ali sentados e então temos a consistência de um povo que decide em volta da távola.

Mais do que uma passagem ao qual os historiadores vão dialogar sobre ser falso ou verdadeiro, um personagem ao qual citamos, mas sobre o qual não dialogamos muito está presente não somente neste momento, mas em grande parte dos acontecimentos da história, o sentar-se à mesa, sentar-se em volta da tábua ou távola, independente de como vamos chama-la, esteve presente como uma forma de alegria e celebração.

Em um dos capítulos bíblicos mais declarados e conhecidos, o salmo 23, o salmista faz referência justamente à mesa em seu pedido (prepara uma mesa na presença dos meus inimigos) pois está certo que Deus é aquele que “supre as necessidades de seus filhos em meio às forças do mal que procuram destruí-los[2]” como nos explica Donald C. Stamps, traduzido por Almeida. Quando olhamos as histórias do mítico Rei Arthur[3], nos deparamos novamente com a távola redonda, e em volta dela, os homens premiados na então ordem da cavalaria do citado rei.

Foi também a mesa que o jornalista e compositor Sérgio Bittencourt escolheu como local de recordação maior da saudade de seu pai[4]: “Naquela mesa ele sentava sempre e dizia sempre o que é viver melhor”. A mesa onde ele se sentava, onde mostrava como era a vida e como viver melhor. A mesa que agora restava e onde estava faltando a presença do pai (a título de conhecimento, Sérgio Bittencourt era filho do grande mestre Jacob do Bandolim.

Os relatos citados a respeito da mesa se passam em situações e momentos diferentes. Mas entre o salmista, os cavaleiros da távola redonda e a saudade de Jacob, existe uma semelhança emblemática e está além da mesa pois a semelhança é seu conteúdo. Seja na mesa preparada na presença dos inimigos como celebração da vitória que lhe será entregue, na távola redonda que significantemente tem tal formato para mostrar que todos os presentes estavam em igual situação ou a mesa como um ponto de saudade relatado por Sérgio Bittencourt, temos o fartar-se. O momento sublime de estar em alegria mostrando a dádiva do pão que é fruto do trigo espalhado pelo chão. O banquete é então o momento sublime pois é ali que temos em todas a gerações o encontro com os nossos mais próximos e queridos amigos e o celebrar da vida.

Assim sendo, ao citar a mesa, o troféu maior é o que ali se encontra, o banquete pleno da vida que é o alimento para prosseguir no próximo momento da jornada. Aliás, na falta de algo, pode-se então faltar a mesa, como lembrou o ilustre Chico Buarque em feijoada completa[5]Mulher, não vá se afobar/ Não tem que pôr a mesa nem dar lugar/Ponha os pratos no chão e o chão tá posto”.

Infelizmente em nossa atual situação não podemos escolher, em muitos e graves casos, se nos banquetearemos à mesa ou ao chão. Pois a falta não é de ter fé como o salmista, nem tão pouco a discussão é sobre a veracidade de Rei Arthur ou as lindas melodias do bandolim de Jacob: Falta o alimento.

Este alimento então é o mesmo citado como direito fundamental no artigo sexto de nossa Carta Magna, mas que não se encontra de fato no dia a dia de parte considerável da população.

Então, dentre os que em alto tom declaram “somos os guardiões da Constituição”, a nossa forma contemporânea da “távola redonda”: qual de vós guardará os direitos ao ter o que por na mesa dos povos? Quem, desta ilustre mesa onde todos sentam de forma igual se erguerá em defesa da eficácia constitucional?  Diante das notícias sobre a volta ao mapa da fome onde estarão os destemidos cavaleiros que guardarão mais do que os direitos do rei; guardarão os direitos fundamentais do povo? Se compartilhamos dos anseios de ver cumprida a constituição, a falta de nexo entre o artigo sexto e os dados relatados no Brasil se mostra um paradoxo.

Os dados do IBGE[6], publicados em 2020, revelam que o Brasil voltou ao mapa da fome em 2018, valendo lembrar que só havíamos deixado o mesmo em 2014, ou seja quatro anos após voltamos a tão inglorioso mapa. Obtivemos tal classificação por termos entre os nossos, mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, ou seja, contando que o Brasil tinha em 2018, 208.494.900 habitantes, podemos ter pelos dados do IBGE que 10.424.745 pessoas em nosso País passam fome.

Vale a pena voltarmos a data destes dados aqui citados: os dados constam sobre a situação em 2018, ou seja, antes da pandemia que assola nossas terras, assim sendo, faz-se necessário um urgente diálogo sobre o cumprimento de fato dos direitos que em tese são garantidos para toda nossa população, pois no momento atual, declamar em voz alta as linhas dos artigos iniciais da Constituição vão se assemelhar cada vez mais com um conto e não com o efetivo direito do povo.

A volta ao mapa da fome está ligada diretamente com o movimento de cortes de políticas públicas em segurança alimentar como afirma Menezes[7], técnico que faz parte do grupo de trabalho “Agenda 2030”, que tem como objetivo de suas ações erradicar a fome. Conforme avança o desmanche das políticas públicas, temos um retrocesso e o aumento da extrema pobreza em nossas fronteiras.

Em tempos atuais, mais que a saudade das melodias de Jacob, dá saudades de um sonho antigo chamado Brasil.


[1] Bacharel em Direito, pós-graduando em Direito Constitucional Tributário, professor de música e cursos livres. Membro do coletivo Escritos pela Democracia.

[2] STAMPS. Donald C: Bíblia de Estudos Pentecostal. Trad. Almeida, 1995 Sociedade Bíblica do Brasil

[3] MIRANDE. Jacqueline: Contos e lendas dos cavaleiros da távola redonda, Cia. Das letras, 1998

[4] Consta que em ocasião da morte de seu pai Jacob do Bandolim, Sergio Bittencourt escreveu em um guardanapo a canção “Naquela mesa” que virou um grande Clássico do choro: https://musicaemprosa.wordpress.com/2017/06/26/naquela-mesa-a-saudade-de-um-filho-sergio-bittencourt-apos-a-morte-do-pai-jacob-do-bandolim/#:~:text=%E2%80%9CNaquela%20Mesa%E2%80%9D.-,A%20saudade%20de%20um%20filho%20(Sergio%20Bittencourt)%20ap%C3%B3s%20a%20morte,do%20pai%20(Jacob%20do%20Bandolim&text=Consta%20que%20esta%20m%C3%BAsica%20foi,essa%20m%C3%BAsica%20tivesse%20uma%20hist%C3%B3ria.

[5] Música presente no Álbum “Chico Buarque” lançado em 1978

[6] Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/17/ibge-confirma-que-pas-voltou-ao-mapa-da-fome-em-2018-diz-pesquisador.ghtml

[7]  Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/17/ibge-confirma-que-pas-voltou-ao-mapa-da-fome-em-2018-diz-pesquisador.ghtml

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