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Escritos pela Democracia: “As dissonâncias no contracanto político da América Latina”

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Marcelo de Souza[1]

            As últimas semanas foram tomadas por suspiros e bons sonhos ao sul do equador. No mesmo mês, mas não necessariamente na ordem posta a seguir, acompanhamos apaixonados a renúncia de Pepe Mujica a sua cadeira de Senador da República do Uruguai, encheu nossos corações de alegria a história do homem que “deixou a história para entrar na vida”. Vimos empolgados o resultado do plebiscito (histórico) para uma nova constituição no Chile, enterrando a velha constituição de seu período de sangrenta escuridão para o nascer do sol de novos tempos.  E enfim, com lágrimas nos olhos nos sentimos também um “quadradinho” da Wiphala a bandeira que tremulando nos céus da Bolívia representou milhares de excluídos que de mãos dadas partiram para ser protagonistas de sua própria história.

            Olhar então estes acontecimentos que causam sons e ruídos de euforia na América latina, faz vir a lembrança que a vida imita a arte. Ou a arte descreve a vida.

            Em qualquer uma das duas opções, não teríamos como resultado imediato os finais alegres dos lindos filmes que por muitas vezes acompanhamos munidos de pipoca. Nos sobra a tragédia Shakespeariana, ou as dissonâncias da música brasileira.

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            Um som nunca contém um sentido simples em seu resultado final. Foi justamente este conceito que levou a evolução da estrutura musical e foi usado na composição de velhos sambas e no choro. Um de nossos maiores “chorões”, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o maestro Pixinguinha foi um mestre em tal assunto. Ouvir qualquer uma de suas belas canções podem nos fazer assoviar mas… também contém ali uma “segunda melodia”, uma voz que tenta alternar em importância com a primeira e fará o uso do “desagradável”, da dissonância para ao chocar nossos ouvidos, nos mostrar a beleza do singelo gesto de buscar até conseguir a nota perfeita, o encaixe perfeito, a batida perfeita. Essa busca, muitas vezes termina com a certeza que poderá não ser encontrado, mas leva a análise da necessidade da nota certeira como o repouso.

            Justamente a busca por este momento desconhecido, o olhar para a segunda melodia e o uso adequado dos contracantos que fizeram nossos artistas hoje serem nomes lembrados em diversos cantos do mundo. Fomos verdadeiros porta vozes do uso distópico destes sons e foi naturalmente o que manteve vários boêmios acordados em noite serena.

            Neste momento de furor que resulta em vários sons de resistência (ou insistência) na América Latina, o Brasil se colocou novamente como o escritor das linhas de contracanto, abusando de dissonâncias, acrescentando guitarras extremamente distorcidas e batidas rudimentares.

            Infelizmente, houve a escolha das notas erradas, o uso das guitarras desafinadas e os tambores desobedeceram aos limites básicos postos já numa primeira aula de qualquer escola de ritmos. Justamente neste momento em que as vozes latino americanas parecem, em alguns quadros, se unirem para em uníssono entoar um canto de redenção, o contracanto da política brasileira oferece uma segunda voz, de desgraça para uma parcela cada vez maior da população. Os gráficos da economia, que em muitas vezes se parece na prática com uma partitura: somente poucos entendem, podem mostrar diversas imagens, mas, as ruas mostram a paisagem contemporânea de forma espontânea; aumento de forma espantosa do número de pedintes e desabrigados, e ainda pode não dizer muito tal espontaneidade visto que não mostra em suas entrelinhas os outros tantos que deixaram suas casas alugadas e voltaram a morar com os familiares pelo fato de não conseguir mais pagar as despesas de seu próprio teto.

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            Não seria diferente das demais localizações de nosso continente se nós falássemos tão e exclusivamente sobre a situação de miséria, afinal, possivelmente ao fazer uma pequena passagem pelos demais Países da América Latina, talvez, nos depararíamos com estas mesmas cenas de desfavorecidos empilhados nos sinais lutando pelo seu alimento (o dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem já dizia o poeta) mas assim como as dissonâncias da música brasileira, a questão sobre o uso das ferramentas cabe aos políticos e comandantes e estes, nossos spalas, maestros e chefes de naipe não mostram estar comprometidos com a busca pela sonoridade perfeita no final. Mais que isso; se as “orquestras” populares buscaram no Chile e na Bolívia a mudança de seu maestro ou livro de partituras, se no Uruguai o regente pode passar tranquilamente sua batuta, em nossa Pátria mãe gentil, nossa orquestra acompanha ainda que impaciente os maestros e spalas numa condução desafinada e com polifonias de gosto duvidoso.

            No meio de tantos gritos, assovios, melodias e dissonâncias nos ensaios da América Latina, chama a atenção uma “voz de grupo vocal” vinda do Brasil. Não um contracanto movido por tragédias e dissonâncias, mas afinado e bem ensaiado. É o canto de um grupo vocal diverso que não acompanha as vozes nem das mudanças e nem dos desesperados. Essa voz vem do resultado de uma festa de poucos maestros, estes que podem ter acesso a todas as notas musicais, e como resultado de seus ensaios veio aos noticiários da imprensa Brasileira: coquetéis regados a whisky doze anos com gastos de R$ 8 Milhões.

            Infelizmente, de fato não estamos falando de um mero grupo vocal e sim da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada do Exército em Dourados (MS) que dará seus concertos (leia-se festas) nas cidades de Campo grande, Bela Vista, Nioaque, Três Lagoas, Dourados, Amambaí e Ponta Porã.       Tais festas vão contar com lindos e interessantes “acordes”. Segundo o exército, nos conta demais noticiários, serão 50 coquetéis, almoços e jantares oferecidos. Não será de longe um evento de música popular, mas se permitem novamente a analogia, uma grande “camerada” para poucos ilustres e contará em seu repertório, além de uísque 12 anos, cerveja e vinhos Cabernet Sauvignon, Merlot, Camenere e Sauvignon Blanc. Sim nada de concertos populares com banhos de lama. Serão legítimos concertos com a exigência de Smoking como manda o figurino.

            De fato, faz necessária a volta às velhas tríades naturais, faz-se necessário rever as conduções impostas pelos velhos maestros de nossa política. É necessário (re)afinar também o Brasil.


[1]     Músico, bacharel em direito, pós-graduando em Direito Constitucional e Tributário, instrutor de cursos livres e membro do Coletivo Escritos pela Democracia.

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