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Escritos pela Democracia: “O Apocalipse e a Ressurreição”

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Clarisse Gurgel[1]

Rodrigo Maia, rei da Babilônia, estava sentado em sua casa com os anciãos, durante o cativeiro forçado pela grande peste. Certo dia, a própria Peste, disfarçada de Messias, cujas vestes, um manto verde oliva, refletiam olhos de vespas e víboras, convidou Maia para uma refeição. A peste disse: “Tu nos trataste com todo o desvelo. Queres que eu interceda por ti junto ao chefe do exército? Que posso fazer por ti?” E a Peste ofereceu seu trono: “Daqui a três anos, nesta mesma época, terás meu trono. Por favor, aceita este presente deste que é apenas um servo”.  Em seus braços atléticos, a Peste carregava um leproso. Depois de o terem comido, Maia e a Peste acamparam diante da cidade e levantaram trincheiras ao seu redor. No décimo quinto mês, o povo revoltou-se contra a Peste. Não estavam informados de que a Peste já havia entregue o governo ao Rei Mourão, de quinhentos e trinta anos, e ao comandante da guarda, Trumpônidas , de quem Maia era o oficial. O comandante ordenou que Maia inundasse a terra, em dilúvio, por sessenta dias e sessenta noites, incendiasse as casas dos pobres, espalhasse doença por todas as cidades, fazendo desaparecer da superfície os homens que vivem do trabalho. Era o prenúncio do apocalipse.

O povo, temente a Deus, encolerizou-se e resolveu reconstruir seu templo. Logo que o rei Maia soube que o povo estava reconstruindo a cidade, mostrou-se muito irritado. Escarneceu do povo e exclamou diante de seus irmãos e diante da aristocracia: “Antes que saibam ou vejam qualquer coisa, surgiremos no meio deles. Então, vamos massacrá-los e arrasar a obra!”

O povo trabalhava de bom coração. E, enquanto a Peste, em sua iniqüidade, conclamava os leprosos a trabalhar, Maia, o rei da Babilônia, penhorava os campos e vinhas do povo, vendia seus filhos aos mercadores, entregava suas terras aos estrangeiros, cerrava as portas dos sacerdotes, dedicando graça aos parasitas. Aos servos de Deus, rogava todas as pragas do inferno. Os mesmos servos que curavam os enfermos. Então, Deus lhes disse: “Chefes do povo e anciãos, uma vez que hoje o povo é interrogado judicialmente a respeito do benefício feito aos enfermos e de que maneira foram curados, seja manifesto a todos vós e a todo o povo: era em nome de todos que os servidores, aqueles aos quais vós crucificastes, mas a quem Deus ressuscitou dentre os flagelos da ganância, é por seus nomes e por nenhum outro que estes homens se apresentam curados, diante de vós. São eles a pedra desprezada por vós, os construtores, mas que se tornaram, hoje, a pedra angular de nossa salvação.

Do monte chamado das Oliveiras, um nobre proprietário distribuía água e pão para os enfermos. Foi quando Deus proferiu as seguintes palavras: “Por que estais tu na abundância e esses na miséria, se não para que tu consigas os méritos da distribuição e eles recebam uma coroa em prêmio pela paciência?”

O povo estabeleceu contra Maia, Mourão e a Peste, um policiamento dia e noite. Dispôs o povo por famílias, com suas espadas, lanças e arcos: “Tomemos posição, em lugares baixos, no espaço atrás da muralha, nos lugares descobertos!”

Quando os inimigos do povo souberam que Deus frustrara-lhes os projetos que retiravam a vida dos que trabalham, ordenaram que lhes aumentasse a penúria: expulsaram os miseráveis, exilaram os doentes, removeram os despossuídos, exterminaram os desabrigados, tomaram o dinheiro de todos os governantes e entregaram todos os pobres à escravidão. Um anjo, que olhava tudo, perguntava a Deus: “Não vêem que matam aquele que criam com sua avareza? Não vêem que seus empreendimentos criam miséria e sofrimento? Oh, Meu Deus, os ricos não lembram que o que excede ao necessário para o gasto conquistaram com violência?”

A partir desse dia, só a metade dos homens que trabalham participou do trabalho. Os outros, ouvindo o som da trombeta, munidos de lanças, escudos, arcos e couraças convocaram uma grande assembleia. Esta declarou: “Não está certo o que fazeis. Não quereis caminhar e evitar os insultos das nações, nossas inimigas? Perdoai-nos nossas dívidas pelo dinheiro e trigo que lhes demos com nossa obra, restitui-nos sem demora nossos campos, vinhas, oliveiras e casas”. Os proprietários, governadores, os magistrados tentaram intimidar o povo, mas este já estava informado que os ricos eram a verdadeira fonte do abismo. Assim, Deus, diante da sabedoria do povo, delegou ao próprio homem o poder da justiça: “Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado.” E o povo fecundou a nova ordem do mundo, fundando um novo tempo, em que a espiritualidade assumiu uma força de expansão: o Espírito Santo.

Os homens que haviam adquirido seus terrenos com a riqueza da iniqüidade caíram de cabeça para baixo, arrebentando-se pelo meio, derramando todas as suas entranhas. Sobre este campo de sangue, cada qual do povo pobre ainda os ouvia falar em diferentes idiomas. Tendo-se completado uma quarentena, estavam todos em suas casas quando, de repente, veio do céu um ruído como o agitar-se de um vendaval impetuoso que encheu todas as casas. Apareceram-lhes, então, línguas como de fogo, como bandeiras vermelhas tremulantes, que se repartiam e que pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar a mesma língua.

Então, Deus disse, por meio de um de seus profetas, dentre os pobres: “irmãos, os ricos morreram e foram sepultados e os túmulos encontram-se entre nós até o presente dia. Não deixemos que a praga da exploração os ressuscite, esta que é a maior das corrupções”. Deus, assim, assegurou ao povo de que um descendente seu tomaria assento em seu trono. Exaltado pela esquerda, Deus ressuscitou Jesus, de quem recebeu o Espírito Santo. Foi quando Deus disse: “Senta-te à minha esquerda até que eu faça de teus companheiros um laço para tuas mãos”. Foi quando o povo ficou informado de que a força de Jesus era sua comunidade.

Daquele dia em diante, o povo mostrou-se assíduo àquele ensinamento: à comunhão fraterna, à fração do pão. Todos punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, adquiridas enquanto chefes em suas ignorâncias, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um. Não havia entre eles necessitado algum. Distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade. Cada um doava-se, segundo sua capacidade, que era infinita.


[1] Professora na UNIRIO. Integrante do coletivo Escritos pela Democracia.

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