fineicirização

Escritos pela Democracia: “O trabalho nas relações sociais da financeirização”

Amanda M. Gonçalves[1]

            A finança mundializada do capital faz com que seus efeitos atinjam toda parte do globo. As variações na taxa de câmbio em relação ao dólar permitem a predominância de um establishment social, em que os fundamentos econômicos e financeiros correspondem, em grande medida, ao modus operandi da macroeconomia dos Estados Unidos da América (EUA), isso, porque “Em termos de capitalização financeira, mais da metade dos ativos financeiros contabilizados no mundo é norte-americana ou está aplicada nos Estados Unidos”[2]. Não por acaso, a configuração dos EUA na finança mundializada potencializa sua posição hegemônica no plano econômico e militar, apesar das crises que ocorrem no interior do seu processo de financeirização. O caso mais recente a ser mencionado, refere-se a crise financeira imobiliária de 2008.[3]

            A consequência desse sistema econômico e o monopólio de políticas promotoras da financeirização, acarretam na dominação política e social, mediante a internacionalização de grupos industriais e transnacionais que detém a organização de bens e serviços produzidos. Esse processo converge na extrema concentração de riqueza dos mais abastados da população, que por consequência, possuem também a concentração do poder político, ou seja, são grupos que determinam, maioritariamente as “políticas estatais para o favorecimento do incremento da concentração econômica; políticas fiscais, normas de governança corporativa, desregulamentação etc.”[4].

            A América Latina, diante o cenário da finança mundializada, passa a ter uma atuação dramática em relação às medidas de liberação e desregulamentação[5], especificamente a partir de 1990, uma vez que as taxas de juros dos empréstimos/créditos para os países considerados em desenvolvimento, ou países de Terceiro Mundo, acarretaram no processo de dívida pública, levando-os a uma situação de dominação econômica e política dos países centrais sobre os da periferia, como o Brasil.

            O processo de dívida pública torna-se rentável para a acumulação financeira, pois a conveniência de se recorrer ao financiamento por meio de empréstimos “torna-se permanente por causa da desoneração de capital e das rendas elevadas, a qual foi ainda facilitada pela mundialização financeira, pela impunidade da evasão e pela multiplicação de paraísos fiscais”[6]. Nesse contexto, ocorre o agravamento das relações sociais, em que a acumulação sem precedentes configura no crescimento desigual.

            A concentração de riqueza e poder evidencia o caráter contraditório das relações socioeconômicas, que na dinâmica da finança mundializada intensificam e promovem uma acumulação sem limites, enquanto simulam um crescimento harmonioso e escamoteiam seus efeitos repulsivos por toda parte do globo. No âmbito da organização do trabalho, por exemplo, observa-se a emergência de subempregos, desempregos, terceirizados e subcontratados com salários cada vez mais baixos. Tais medidas de austeridade à população, causadas, em sua grande maioria, por reformas econômicas e políticas nas esferas sociais, são justificadas com o intuito de salvaguardar a suposta livre economia de mercado.

            Os antagonismos desse sistema convertem-se na busca por “culpados”, logo, não é de se espantar que a responsabilidade de assegurar a continuidade da acumulação financeira é delegada aos trabalhadores na forma de desregulamentação do trabalho. Além disso, nos países considerados em desenvolvimento, emergentes, subdesenvolvidos ou de Terceiro Mundo, em nome de um “ajuste estrutural”, são estabelecidas as austeridades fiscais e as privatizações nos diversos setores da sociedade.

            As relações sociais no contexto da financeirização se caracterizam pela volatilidade e incerteza, ou mais precisamente, pela flexibilidade. Nesse ínterim, o processo da organização do trabalho é compreendido nas relações flutuantes do mercado, ou seja, nas relações instáveis da mundialização do capital em que as condições laborais denotam o “privilégio da servidão” e a “infoproletarização do trabalho”[7].


[1] Doutoranda em Educação, na linha de Educação, Políticas Sociais e Estado, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, campus Cascavel/PR. Membra do Coletivo Escritos pela Democracia.

[2] CHESNAIS, François. A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, consequências. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 28.

[3] Filme que retrata a crise financeira de 2008: “The Big Short” – “A grande aposta”, de 2015.

[4] CHOMSKY, Noam. Quem manda no mundo? 1ª ed. São Paulo: Planeta, 2017, p. 71.

[5] Medidas direcionadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial.

[6] CHESNAIS, François. A finança mundializada… op. cit., p. 41. Filme que retrata a atuação dos “paraísos fiscais” – “The Laundromat” – “A Lavanderia”, de 2019.

[7] Cf. o livro de Ricardo Antunes, “O privilégio da servidão: O novo proletariado de serviço na era digital”, publicado em 2018.

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