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Escritos pela Democracia: “Pensando com Aristóteles: novas formas do agir político?”

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Gabriela de Freitas[1]

Em seu esforço de explicar o papel da política na vida das pessoas, Aristóteles inicia a obra Política[2] analisando a relação de machos e fêmeas que se unem, primeiramente, por um processo natural a fim de preservar sua sobrevivência; é a partir destes que se inicia o ajuntamento que vai crescendo conforme o tempo, de famílias à aldeias e assim por diante até que se atinja autonomia o suficiente e assim chegar à polis propriamente. A partir daí a polis (cidade) é definida então, não como mero território, mas como uma comunidade (koinonia) que visa necessariamente um bem, ou seja “em todas as suas ações, todos os homens visam o que pensam ser o bem” (Política, 1225a03), a polis é, uma koinonia politike e levando-se em conta que toda koinonia visam algum bem, a que se sobressairia seria aquela koinonia que visa o maior de todos os bens.

 Este processo de construção da polis, segundo o autor, é algo necessário, ou seja, a polis é, portanto, por natureza, e se é por natureza então é determinada, se é determinada não há liberdade. Neste ponto, a questão que surge é: como se dá a liberdade na polis se ela é por necessidade? É neste momento que a política se mostra de suma importância para a polis, visto que é somente no âmbito político que a liberdade é possível. Cumpre ressaltar então, o que é este âmbito político, bem como a estruturação deste. O ser político é uma característica intrínseca ao homem, nas palavras do filósofo grego “a cidade é uma daquelas coisas que existem por natureza e que o homem é, por natureza, um ser vivo político” (Política, 1253a03), ou seja, é pelo fato de existir uma comunidade política que se tem o político, contudo, ainda que todo ser humano seja um animal político (zoon politikon), nem todo zoon politikon é político de fato.

O estatuto de político não é forma alguma hereditário nem definido territorialmente – ou seja, por aqueles que habitam tal território –, este é atribuído àqueles que participam ativamente das deliberações da polis, os detentores de virtude, nas palavras do autor “não há melhor critério para definir o que é o cidadão, em sentido estrito, do que entender a cidadania como capacidade de participar na administração da justiça e no governo” (Política, 1275a23-25), os que praticam a ação política, ação esta que só se dá no âmbito público.

Dito isto, é possível afirmar que o homem só realiza sua natureza em contato com outros homens explicitando, novamente, o caráter natural da polis, pois aquele que não age publicamente, não exerce algo natural de si, logo não se realiza; o político, segundo a concepção do filósofo grego, é portanto, aquele que tem tempo para ir até a ágora e debater; o estatuto do político é para o autor uma condição possível na vida humana, pois, como já afirmado anteriormente, nem todos os homens são políticos e esta condição humana só é realizável na polis. Diante disso, é possível dizer que polis e política são complementares, a política é na polis o meio que garante a vida boa, é ela que pauta o ético e, ainda assim, a política só se realiza na polis.

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Analisando a noção aristotélica do agir político e levando em conta as relações sociais estabelecidas nos dias atuais, podemos afirmar que o conceito de agir politicamente sofreu certo alargamento. As mídias sociais facilitam não só o acesso à informação, mas também a participação nas deliberações públicas. Para agir politicamente hoje, o agente não precisa ir até a praça e reunir-se com os outros, basta apenas uma mensagem, ligação ou um post em alguma rede social. Identifica-se aí um processo de pulverização do agir político, explicitando que mesmo que não queira o sujeito age politicamente; o não querer agir ou posicionar-se politicamente já é um agir político.

Contudo, ainda que a política esteja cada vez mais presente na vida das pessoas, se faz necessário reconhecer que há graus de impacto em relação a essas ações e que nem toda ação é política. Ainda que esteja cada vez mais fácil participar das discussões públicas, a ação política não deve jamais ser negligenciada ou menosprezada. O poder de decisão ainda se encontra nas mãos de alguns poucos sujeitos, mas é esse agir político diminuto (ou a falta dele) que guia a maneira que esses políticos profissionais lidam com as situações.

No final das contas, a pessoa abre mão de participar diretamente das deliberações públicas (elegendo um representante), para que possa lidar com outras questões (muitas vezes de menor importância); entretanto, por mais que tente fugir da política, por mais que diga que “odeia isso” e que “não quer nem saber”, a política segue impactando na vida das pessoas, que por sua vez seguem agindo politicamente, mesmo que minimamente ou sem perceber. Esse tipo de comportamento é extremamente prejudicial à comunidade política, vez que da mesma forma que a política segue interferindo na vida do agente, o agente também interfere no direcionamento da política; a omissão ou indiferença em relação a política abre espaço para que aqueles com interesses escusos tomem conta do poder, deixando de lado o “bem comum”, que Aristóteles descreveu, e visando apenas seus interesses privados. As ações do agente impactam na comunidade política em que ele se insere, mesmo que ele não tenha intenção, mesmo que ele não se importe, mesmo que minimamente. E você, como anda agindo?


[1] Mestranda em Filosofia pela UNESP. Membra do Coletivo Escritos pela democracia.

[2] ARISTÓTELES. Política. Tradução de Antônio Campelo Amaral e Carlos Gomes. Edição bilíngue. Lisboa: Vega, 1998.

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