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Escritos pela Democracia: “Quanto vale o conhecimento?: reflexos e reflexões sobre a mercantilização da educação”

Alexandra Batistela Ferreira[1]

            Buscando entender como se constituiu o processo de mercantilização da educação, faz-se necessário um breve histórico. No período pós Segunda Guerra Mundial, o modelo capitalista predominante foi abalado após as crises energética, de superprodução e superacumulação vivenciadas na década de 1970. A consequente queda na taxa de lucros provocou transformações que tiveram como objetivo a radicalização das formas pelas quais era extraída a mais-valia da classe trabalhadora.

            No decorrer dos anos 1990, os Estados Unidos se instalaram como maior potência mundial e partir daí declararam a sua hegemonia. Fortalecido pela essência capitalista, o neoliberalismo é consolidado como modelo de economia de mercado e se fundamenta na ideologia que remete aos governos pequena intervenção na economia e na livre circulação de capitais, consequentemente, promovendo redução dos investimentos em políticas públicas e de assistência social e a ampliação da privatização das empresas estatais. Tais pontos foram fundamentais na modificação, de forma efetiva, das relações de produção e de trabalho, e também do controle do processo de inovação tecnológica e do capital.

            Dessa forma, foi se configurando um amplo processo de redefinição global das esferas, econômica, política e social, no qual, mecanismos eficientes de representação e significação são utilizados para criar um ambiente favorável à política neoliberal. A estratégia de conquista de capital, seja econômico ou intelectual, alcança o campo educacional que ocupa posição de destaque. A educação e as políticas educacionais são moldadas pelas características e pelo poder dos grupos hegemônicos, e não somente pelas condições políticas de uma conjuntura econômicas. Essas políticas se apresentam como um veículo bastante eficaz para a efetivação do modelo neoliberal de produção de mão de obra qualificada, bem como do controle da produção do conhecimento.

            Como resultado dessa ideologia, a educação, por meio das políticas públicas, marcadas pelos interesses dos grupos hegemônicos, e, portanto, dirigida pela lógica do mercado, é ressignificada como mercadoria e assume o papel de preparar cidadãos acríticos capazes, unicamente, de desempenhar funções de perpetuação de tal modelo, promovendo a naturalização da exclusão de grupos marginalizados.

            A materialização desse processo se deu e permanece operante, através da ideologia discutida até aqui, implementada nas escolas por movimentos de tendência neoliberal que propagam a centralidade do econômico como o elemento estruturador das relações sociais, ou seja, a utilização das categorias econômicas para analisar as relações sociais, o papel do Estado e da política. Esse processo de comodificação, também reconhecido como mercadorização ou ainda mercantilização, é o movimento pelo qual bens, serviços e ideias não comercializáveis, assumem uma condição de mercadoria e se tornam vendáveis. Segundo Fairclough (2001, p. 255-256) podemos entender a comodificação como a colonização de ordens de discurso institucionais. Especificamente no que tange ao discurso educacional contemporâneo, é a lexicalização de cursos ou programas de estudo como mercadorias ou produtos que devem ser comercializados aos clientes.

            Consequentemente, a educação é transferida do âmbito dos direitos sociais para o âmbito privilegiado do mercado, transformada de um direito para um serviço, uma mercadoria que deve ser adquirida no livre mercado. Torna-se instrumento a serviço da sociedade capitalista ao priorizar, em suas diretrizes, a qualificação da mão de obra necessária ao funcionamento da economia, bem como ao estabelecer mecanismos de controle da produção do conhecimento de modo a viabilizar também um controle político.

            Com essa nova identidade da educação, baseada na instrumentalização e enviesada pela mercadorização, as instituições de ensino passam a ser vistas como um negócio promissor e lucrativo pelo setor privado. Consequentemente, inicia-se um processo de concorrência pela conquista de “mercado” e de “clientes”, lançando mão de estratégias de marketing e venda. Naturalmente, na medida em que vai aumentando o número de concorrentes, a disputa se torna mais acirrada, exigindo o uso assertivo de ferramentas de comunicação para identificar e atrair estudantes.

            Assim, a propaganda se torna um meio fundamental no processo de institucionalização das marcas e para a captação de alunos devido ao seu poder de persuasão. Trazendo então o conceito de propaganda para entendermos seu papel e sua relevância no processo de ressignificação da educação, Philip Kotler & Keller (2006, p. 566), definem que a propaganda é qualquer forma paga de apresentação não pessoal e promocional de apresentação de ideias, bens ou serviços por um patrocinador identificado.

            Isso nos leva a refletir e a entender alguns pontos críticos sobre a colonização do discurso educacional pelo discurso econômico, operacionalizada, dentre outras, por eficientes ferramentas de marketing e vendas amplamente estudadas e consolidadas. Segundo os mesmos autores, os anúncios publicitários são uma maneira lucrativa de disseminar mensagens, seja para desenvolver uma preferência de marca, seja para instruir pessoas, acrescento, para influenciar e delinear modos de pensamento e comportamento.

            Nessa perspectiva de mercado, da comodificação, as instituições particulares de ensino, principalmente as do nível superior, vêm canalizando esforços e recursos para o marketing, tendo a propaganda como um eficaz instrumento de melhoria dos resultados, no que se refere ao aumento da “venda” e/ou ao fortalecimento de imagem, relegando a segundo plano aspectos relacionados à estruturação de uma proposta educacional que contribua para a formação de pessoas livres e capazes de criticar e transformar realidades.

Partindo desses pressupostos sobre mercantilização, educação e propaganda, passamos a discutir fatores dessa recontextualização, compreendendo-a como um processo de apropriação de determinados eventos sociais dentro de práticas discursivas específicas. Fairclough (2006, apud COSTA JR., 2010), defende que a recontextualização é “um processo complexo, envolvendo, para além de uma simples colonização, um processo de apropriação cujas características e resultados dependem das circunstâncias concretas dos diversos contextos.”

            A prática educacional, seguindo essa nova lógica e, diante da necessidade de captar e/ou cooptar alunos, é modificada. Por conseguinte, seu discurso é colonizado por ideais e vocabulário de habilidades, no qual o sujeito é instigado à aprendizagem e ao desenvolvimento por meio do treinamento e também remetido ao pensamento individualista, fragmentado e capitalista. A essência da comunicação entre a instituição e seu “cliente” está na indução ao pensamento de que esse mesmo sujeito pode mudar seu destino, pode ser melhor e pode alcançar maior êxito frequentando aquela instituição e assim se tornar preparado para o mercado. Isso nos faz enxergar o motivo principal da verdadeira guerra instituída pela conquista de mercado (geralmente mensurado em número de alunos) e a triste realidade do esvaziamento do discurso educacional por parte das Instituições de Ensino (IE) particulares.

            É frequente a veiculação de notícias sobre transações para compra e venda entre os chamados grupos educacionais. Essas aquisições envolvem somas milionárias e apresentam como objetivos, geralmente, o aumento da participação no mercado, comumente relacionada ao maior número de alunos (tomados como clientes) e maior lucratividade (utilizam expressões como ticket médio e outras mais, tão mercantilistas quanto essa).

            Nessas circunstâncias, são configuradas estratégias de venda nas quais é apresentado ao mercado, um “pacote de produtos e serviços”, contemplando a estrutura física, o tempo de existência a instituição, a nota conquistada nas avaliações nacionais (ENEM, MEC, principalmente), o reconhecimento e as parcerias com as empresas contratantes do mercado de trabalho, o processo de seleção simplificado, comodidades, a titulação e/ou experiência de mercado dos professores. E, devido ao momento econômico atual, o elemento mais atrativo que é enfatizado, é o baixo custo. Isso promove uma profunda mudança na identidade das IE e dos professores que, por sua vez, passam à categoria de produto.

            Torna-se nítida a priorização do lucro e do tecnicismo em detrimento da pesquisa e da formação integral, cuja ideologia é permeada pelo desenvolvimento do ser humano na condição de partícipe de uma comunidade e que nela atue contribuindo para o bem comum. O reflexo negativo é notado nas relações sociais presentes em nosso cotidiano, predominantemente limitadas ao universo individual e no questionamento da qualidade em si em termos de aprendizado nos cursos oferecidos.

            Em contradição ao objetivo de criar pensamento crítico e visão coletiva, predomina a prática discursiva mercantilista, que individualiza o pensar e o agir. Podemos ainda considerar outro impacto negativo: a marginalização daqueles que não tem o direito e nem o dinheiro para estudar e/ou frequentar tais renomadas IE, estando relegados, pelas concepções do mercado, à permanência da condição social e financeira na qual se encontram.

            O assunto não se esgota aqui, mas, acreditamos ter despertado a atenção para esse tema tão relevante a diversas áreas e que às vezes passa por nós de maneira inocente e inofensiva, naturalizada, por estar enraizada em nosso dia a dia e em nosso modelo socioeconômico de produção do conhecimento e da vida.

Referências

BASSO, Daniela. As influências do Neoliberalismo na educação brasileira: algumas considerações. Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/rir/article/view/29044/17224. Acesso em maio de 2021.

COSTA JR. João Batista da. O gênero anúncio e a mercantilização da educação: uma leitura crítica com foco na economia neoliberal. Disponível em: http://docplayer.com.br/38653332-O-genero-anuncio-e-a-merantilizacao-da-educacao-uma-leitura-critica-com-foco-na-economia-neoliberal-1html. Acesso em maio de 2021.

FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2001.

KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de marketing. 12. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.

VIEIRA, Josenia Antunes. O discurso mercantilista do ensino brasileiro. Disponível em: https://www.cepadic.com/pdf/Olhares%20em%20ADC_Josenia.pdf. Acesso em: abril de 2021.


[1] Mestranda no Programa Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias da UEG (PPG-IELT/UEG).

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