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Escritos pela Democracia: “Rosas não nascem para ser buquê”

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Franciely Aparecida Contrigiani[1]

A rosa no campo sempre viva se encontra. A rosa no buquê vive somente na memória. Toda mulher já ganhou rosas. Toda mulher já enterrou uma rosa. Rosas não nascem para ser buquê e mulheres não nascem apenas para ganhar rosas. Mulher é potência. Mulher é luta. Mulher é força criativa que transforma o mundo.

O ano é 2020 e a origem de luta, reinvindicações e movimentos contra a exploração econômica, ou seja, contra o sistema capitalista permanece esquecida e se não tomarmos cuidado, todos os direitos conquistados, com muita luta, durante décadas, podem ser aniquilados. Isso se já não estiverem sendo aniquilados. Atualmente o feminismo tem sido para dizer o óbvio. Dizer que mulher tem direitos sociais e políticos, bem como pessoais. Dizer que machismo existe, que é fruto de um sistema patriarcal e que deve ser combatido. Dizer que cabelo curto não nos torna menos mulher e que uma saia não é convite para um homem nosso corpo violar, mas continuamos sendo violadas, oprimidas, exploradas.

O termo movimento feminista ou feminismo aparece na década de 60 e 70 apontando a problemática da vida cotidiana das mulheres e, a partir desta década, o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, passa a ser associado ao incêndio na Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, que ocorreu em 25 de março de 1911. Certamente a escolha desta data não se deu em virtude do incêndio, ainda que este fato tenha se somado à sucessão de problemas que as mulheres já enfrentavam em seus locais de trabalho, tendo em vista que tal data já vinha sendo elaborada pelas socialistas americanas e europeias há algum tempo, sendo ratificada com a proposta de Clara Zetkin.

O ano é 1910 e Clara Zetkin (1857-1933), integrante do Partido Comunista Alemão, que militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização feminina, propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, sem definir uma data precisa. O termo movimento feminista ainda não existia aqui, mas as péssimas condições de trabalho, reinvindicações e movimentos contra a exploração econômica e as mulheres participando ativamente das lutas gerais marcam seu início.

            Eva Alterman Blay, em artigo intitulado “8 de março: conquistas e controvérsias”[2], aponta que as mulheres trabalhadoras se organizavam e se manifestavam em diversas partes do mundo: Nova Iorque, Berlim e Viena em 1911; São Petersburgo em 1913, sendo que as causas e datas variavam. Em 1915, Alexandra Kollontai organiza uma reunião contra a guerra, em Cristina, perto de Oslo e no mesmo ano Clara Zetkin faz uma conferência sobre a mulher. Em março de 1917 trabalhadoras russas do setor de tecelagem entram em greve e pedem apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve espontânea, não organizada e o primeiro momento da Revolução de Outubro.

Os anos passaram, conquistamos o direito ao voto, mas não somos votadas e quando somos dão um jeito de nos desvalorizar, calar nossa voz e do nosso cargo nos retirar, isso quando não retiram nossas vidas. Passamos a trabalhar fora, abrir empresas, ocupar cargos públicos, mas o serviço doméstico não foi dividido ou remanejado. Sem contar as questões sobre sexualidade que insistem em dizer que não é questão de ordem pública e deve ser tradada apenas pela família e igreja.

O aborto ainda não foi legalizado, mas em toda clinica médica é praticado sem pudor, se a mulher possuir dinheiro para pagar. Mulheres continuam sendo assediadas e violentadas, mas seus agressores não são condenados. Mudam o foco do problema, colocam o socialismo, grupos antifascistas e todos aqueles que de alguma forma ainda defendem a democracia como inimigos, defendem a vida e a família ainda que outra vida esteja em vias de se sucumbir, deixando o capitalismo reinar e invisibilizando seus problemas, afinal, o problema de gênero acabará no dia que mais mulheres ascenderem ao poder e ocuparem mais cargos públicos, Damares Alves está aí para provar.

As mulheres devem sim ascender ao poder, ocupar mais espaços em cargos públicos e privados, dialogar com homens sem submissão, mas a discussão não pode se encerrar com a busca e conquista de igualdade de gênero e direitos, pois enquanto a sociedade capitalista se beneficiar do patriarcado, instituindo como pilar de exploração a divisão sexual do trabalho, direitos adquiridos continuarão a ser questionados e retirados ao primeiro sinal de crise e a desigualdade de gênero permanecerá intacta. As desigualdades na vida das mulheres se somam a outras desigualdades sociais e todas elas possuem o capitalismo como elo em comum, logo, lutar contra desigualdades, opressão e exploração é lutar contra o capitalismo, e lutar contra o capitalismo é defender a Democracia.


[1] Graduada em Direito. Pós-graduanda em Direito Público. Membra do Coletivo Escritos pela Democracia.

[2] Cf. BLAY, Alterman Eva. 8 de março: conquistas e controvérsias. Florianópolis: Revista Estudos Feministas, Ano 9, 2/2001.

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