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Escritos pela Democracia: “Ser professor em tempos de guerra”

 Edergênio Negreiros Vieira*

       As vezes as pessoas mais próximas me perguntam, como surge a inspiração para escrever? Inspiração? Imagina se professor tem tempo para ficar inspirado. Com as demandas da vida profissional o professor “se vira nos 30 migues. ” Preciso abri um parêntese, o assunto é irrelevante, se não quiser ler, para ganhar tempo e ir direto ao assunto do texto, pule esse sinal gráfico, e siga para o próximo parágrafo. (Sim, são poucas, apesar de eu ser uma pessoa comunicativa e extrovertida, sou uma pessoa de um círculo social pequeno, não por vontade própria e sim por um traço na minha personalidade, que me impede de conviver muito tempo com as pessoas).

          Esse texto não é sobre mim, até porque sou desinteressante ou melhor escalafobético, quase um Meursault do argelino Albert Camus. O texto é sobre ser professor em tempos de pandemia.

          Ser um docente em tempos de pandemia é um dos maiores desafios que nós estamos enfrentando. Primeiro porque fomos eleitos/as “os inimigos do Brasil, verde amarelo”. Somos “doutrinadores, vagabundos, esquerdistas, comunistas” (mesmo a imensa maioria de professores), entres outras alcunhas, muitos menos dignas que o terceiro e o quarto substantivo citados anteriormente, nem se aproximem do espetro de esquerda.

          Nesse ambiente hostil somos professores. No entanto o desafio mais complexo tem sido, o medo, medo mesmo de compartilhar saberes de uma maneira mais próxima. A educação escolar, especialmente nos primeiros anos da educação fundamental exige estar perto do estudante. Exige afetividade. Foi Wallon que teorizou sobre isso. A importância da afetividade na educação. Na perspectiva psicogênica de Henry Wallon a criança deve ser vista de forma holística, completa. Para isso, leva-se em conta aspectos biológicos, afetivos, social e intelectual. Este à parte é necessário, para não reduzir o pensamento do grande mestre, isso dito, um dos postulados de Wallon é a importância da afetividade no aprendizado. Por isso, educar é estar perto.

           Porém, como estar perto sem pensar que a sua vida está em risco? Como chegar próximo sem se lembrar de um amigo, de um parente, de uma pessoa conhecida nacionalmente, sem se lembrar de um profissional de educação que não tenha perdido a vida para a Covid 19? Como a minha colega de profissão, que foi uma das primeiras professoras a perderam a vida nessa pandemia: Camilla Graciano. A professora Camilla que assim como eu fez o Curso de Letras e era sem dúvida uma professora tão maravilhosa quanto a professora Edna Elói. Foi num curso de formação, ministrado pela magnifica Edna Elói, que a professora Camilla me deixou a mensagem que eu compartilhei acima. O recado que ela me deixou no dia 20 de junho de 2017, explica bem o desafio de ser professor em tempos de pandemia.

*É Mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias.

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