cansaço e luta

Estamos fartos, e lutando!

 Roberto Bueno*

Estamos fartos com tão densa e intensa insanidade. Estamos fartos com a violência da toga. Estamos fartos da violência dos que a exercem em nome da toga. Estamos fartos da omissão institucional da casta que se nega a exercer o seu ofício. Estamos fartos de testemunhar a covardia. Estamos fartos da violência contra os seres humanos, negros, mulheres, índios, LGBT´s e crianças. Estamos fartos de presenciar as ações dos novos jagunços e capitães do mato. Estamos fartos de dizer o óbvio e de saber que eles também o sabem, mas continuando a exercer a violência como se justiça fosse. Estamos fartos da arrogância casada com a impunidade dos togados. Estamos fartos da elite que vende o que não lhe pertence. Estamos fartos de ver a miséria proliferar à expensas da concentração de riqueza. Estamos fartos de ver o velho e sórdido ladrão sair correndo com o produto do roubo e apontar o dedo para que o povo pague a conta com seu sangue. Estamos fartos.

Estamos mesmo fartos com os falsos e reiterados discursos ideológicos da mídia. Estamos fartos da propaganda política veiculada sob a égide da neutralidade. Estamos fartos da doutrinação na forma de informação. Estamos fartos de golpistas bem estabelecidos que pedem perdão a cada trinta anos. Estamos fartos da retórica única tantas vezes repetida para afogar-nos em um mar de ódio do qual apenas eles se safarão em seus iates de ouro. Estamos fartos das políticas que privilegiam os aristocratas à expensas de famintos. Estamos fartos dessa velhacaria. Estamos fartos de ver velhos homens brancos subservientes aos interesses do império depredando o país, que sem hesitar retiram o pão da boca de homens e mulheres empobrecidos, e se necessário tomam até as suas vidas. Estamos fartos da indiferença de milhões de concidadãos em face da óbvia violência contra a nação e o direito de todos. Estamos fartos da captura e sucessivas violações da ordem democrática por parte de uma oligarquia conhecida há muitas décadas. Estamos fartos de testemunhar a oligarquia criminalizar o povo. Estamos fartos da fantasia penal condenatória oligárquica. Estamos fartos da oligarquia auto-absolver-se por qualquer crime imaginável, mesmo que tenha meia tonelada branca de motivos. Estamos fartos das piores versões de tacanhas e meganhas. Estamos fartos da covardia antipopular e pequeno-burguesa dos carreiristas. Estamos fartos da ilegalidade vestida de preto. Estamos fartos da violência travestida de autoridade estatal. Estamos fartos de Sérgio I, o monarca nu sem coroa, o Rei Sol da monarquia sulista não declarada e opressiva. Estamos fartos.

Estamos fartos, mas não cansados. Estamos fartos, mas não abatidos. Estamos fartos, mas não desanimados. Estamos fartos, mas não perdemos a razão. Estamos fartos, mas não entregues. Estamos fartos, mas não derrotados. Estamos fartos, mas mantemos a sanidade. Estamos fartos, mas conscientes. Estamos fartos, mas ativos. Estamos fartos, mas preservamos a vergonha. Estamos fartos, mas mantemos a compaixão. Estamos fartos, mas preservamo-nos democratas. Estamos fartos, mas mantemos a dignidade. Estamos fartos, mas respeitamos todos nossos semelhantes. Estamos fartos, mas cultivamos a solidariedade. Estamos fartos, mas viva está a nossa coragem. Estamos fartos da infâmia de Savonarolas e Torquemadas que logo cairão nas próprias armadilhas, mas feridos por quantos cairão em sua covarde epopeia persecutória. Estamos fartos de condenações sem crime. Estamos fartos dos que cultivam a pós-verdade mas têm compromisso funcional com a verdade. Estamos fartos de quem falsifica lavar rápido para emporcalhar e comprometer um século inteiro. Estamos fartos.

Estamos fartos, mas por tudo isso, e ainda muito mais, não deixaremos de exercer o sagrado direito de resistência civil em nome da Constituição violada, da democracia e da justiça, contra aqueles que querem vilipendiá-la à céu aberto e alienar o futuro do país e exterminar a esperança da nação. O sentimento de dor é coletivo, e o opróbio é total. A luta é conjunta, e a vitória será popular. Estamos fartos, atlanticamente ofendidos, todos nós e nenhum(a) a menos, mas venceremos. É chegada a hora da dignidade cívica, de escolher o presente para determinar o futuro. Resistência civil: unir, reagir e enfrentar para vencer.

*Doutor em filosofia do direito, escritor e professor universitário da UFU e da UNB.


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