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Eu nunca vou me calar

Edergenio Vieira*

Há algumas pessoas que têm a capacidade de síntese, de conseguir construir narrativas que nos ajudam a entender o mundo, para além das aparências ao qual este se mostra. Aquilo que o filósofo Platão descreve no Mito das Cavernas, como sendo o mundo sensível em oposição ao mundo inteligível. Por hora essa dicotomia não precisa de uma explicação mais aprofundada, foi apenas para que você pudesse compreender que existe um mundo que se mostra a nós, e outro que é preciso que seja decifrado. Não na perspectiva mitológica do filho de Laio, Édipo que conseguiu decifrar o enigma da esfinge e sim na perspectiva científica, tendo a ciência aqui como um paradigma de interpretação do mundo. Que pode ser falho sim, por que não? Não há dogmatismo na minha fala, pelo contrário deixo bem claro que essa é a minha opinião. Uma das melhores definições que eu percebi sobre leitura é a de que ler é ter contato com as ideias de outras pessoas, mesmo que as vezes eu nem concorde com que essa pessoa diz. Mas como eu irei saber contrapor essas ideias sem ao menos ter o lido? É possível que na história desse país nunca tenha havido um momento de intolerância à fala do outro tão grande como hoje em dia.

Direito à voz, a voz como valor é exatamente isso que defende o professor de Media and Communications da Universidade de Londres, Nick Couldry. Para Couldtry que ainda não foi traduzido para o português, vivemos uma “crise de voz” nos domínios culturais, políticos e econômicos. Para o britânico esse fenômeno não ocorre por acaso. Ao descrever a importância da voz, ele situa o conceito de voz como sendo a capacidade do ser humano fazer e criar uma narrativa de si e do mundo. Por meio dessa “voz” é que a legitimidade nas democracias modernas se sustentaria. O problema é que de acordo com o professor Couldry, o neoliberalismo vem negando a possibilidade da voz, ou mais especialmente das vozes à diversos grupos sociais.

Os Estados Europeus, apesar de lá também haver um avanço dos partidos da extrema-direita e centro, uma das principais discussões tem sido a da garantia de um “equilíbrio de gênero” nos quatro lugares de topo da União Europeia. Donald Tusk, presidente do conselho tem essa questão como objetivo central. Veja bem, ainda que seja dentro do establishment, na Europa se constrói uma agenda progressista, mesmo que para dentro, de uma maior representatividade nos espaços de decisões. Não é o caso do Brasil. Aqui caminhamos em sentido oposto. Cada vez mais fica restrito à um grupo específico à tomada de decisões. O anúncio do Pacto proposto entre os quatro cavaleiros do apocalipse Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e Dias Tofoli evidencia bem isso. Não vou entrar no mérito qualitativo desses senhores, por hora não, em outra oportunidade sim, mas por agora veja bem, é visível aos nossos olhos quem está decidindo por nós. Essas pessoas que vivem uma realidade afastada da imensa maioria dos brasileiros, são eles que decidem por nós?

Quando as pessoas vão às ruas, dizer não aos cortes na educação, não à reforma da previdência de Bolsonaro e Guedes, não ao fascismo da extrema-direita brasileira, o fazem para que suas vozes sejam ouvidas.

Nas manifestações contra o governo, em que eu tenho ido, há uma presença enorme de mulheres, negros e homossexuais. São esses atores sociais vestidos com suas identidades profissionais como professores, pesquisadores, médicos, estudantes que têm ocupado as ruas para dizer que não voltaram para os guetos, aos quais foram confinados há anos no Brasil. As mulheres não irão voltar para a cozinha, e para o “lar” como querem os machistas e misóginos do governo. Os negros não voltarão para posições subalternas que nos foram “ofertadas” por anos. Os homossexuais não voltarão para o armário da sociedade homofóbica que acha lindo o homossexual cabeleireiro, mas não o aceita ‘Dr”. Todos eles têm direito à fala. Nesse momento é a única conquista que nos resta. Não podemos abrir mão dela.

Um exemplo da força da fala, foi a entrevista concedida pelo presidente Lula ao jornalista Glenn Greenwald. Glenn é americano, em conjunto com Edward Snowden levaram à público a existência de documentos dos programas secretos de vigilância global do EUA, feitos pela CIA. A entrevista é uma aula de política do presidente Lula, da realpolitik praticada pelo PT nos governos Lula e Dilma. Não há tempo e espaço para falar sobre a essência da entrevista, vou ater-me ao fato de que agora Lula pode falar. Ele foi calado desde que foi preso. Ao ouvir Lula percebemos como a fala é importante e necessária, pois mesmo na prisão, se Lula falasse durante o processo eleitoral de 2018, nossa situação hoje seria um “pouquinho” melhor, por mais incrível que parece.

*É mestrando em Linguagem e Tecnologia pela UEG, colunista do Cartas Proféticas.

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