cr_obrigado

Gratidão engajada e ensopada pelo ódio, pelo neoliberalismo e pelo fascismo

Prezadíssimo amigo e companheiro Julcemar Guilardi

Brasília, DF.

Não é objeto deste meu gesto de gratdião puxar brasas para meu açado pessoal, jamais, meu irmão. A gratidão que me move não tem como ponto de partido traços narcísicos nem burgueses. Nenhum desses males me move nem habita meu ser, sequer como traços de sombra.

Porém, talvez por esta razão, entregue à luta libertária de nosso povo, desde a juventude, percebo clarevidentemente a beleza e os laços que se manifestam de modo encantadoramente humano nas pessoas.

A gratidão a que me refiro cresce desde a fragilidade e medos nascidos nas debilidades de minha saúde e de pessoas com quem convivo.

Nesse processo de doença, busquei os serviços públicos de saúde por necessidade econômica e, principalmente, por coerência.

Nas idas e vindas por postos, hospitais, médicos, médicas, enfermeiros, enfermeiras, trabalhadores/as burocrátic@s me deparei rapidamente com o inchamento, nervosismo e medo do povo, cada vez mais pobre, doente, triste, revoltado e morrendo sem atendimento.

Juro-te, meu irmão, o que vi foram irmãos e irmãs brasileir@s se fazendo farrapos e peças velhas jogadas. Mas também vi o pessoal da linha de frente  muito mal orgânica e emocionalmente em processo de deterioração, adoecendo e morrendo.

Nesse contexto senti minha cegueira crescer e me atormentar e, eu sozinho, sem ter para onde buscar saída.

Sozinho? Eu? Umas ovas!

Penso e sei que na luta é praticamente impossível a solidão. Ingratidão? Sim!. Intolerância? Sim! Perda de respeito por coisas mal ditas ou mal ouvidas? Sim. Esvaziamento de expectativas pelas impossibilidades de resultados esperados, devido à precariedade? Sim. Falta de solidariedade de quem justamente mais se esperava? Sim.

Tudo isso e mais um pouco me ataca nesse momento de tentativa de crer que meu olho cirurgiado gravamente se recuperará.

Mas é justo nessa penumbra que aparecem também pessoas grandiosamente generosas, a quem faço questão de agradecer, esforçando-me para me fazer entender no que defino como gratidão.

Nesse horizonte grato vejo mais as pessoas que se aproximaram, mesmo pela web e oline, do que a mim mesmo.

Como depreendi acima, resisti a aceitar apoios em forma de vaquinha ou de campanha em meu socorro no enfrentamento desta limitação visual corrigível com cirurgia.

A palavra “mágica” detonou-se de uma querido amigo combatente, um patriota na defesa dos Correios e da luta contra a barbárie entreguista que, numa reunião ‘homehoff” disse-me: “dom Orvandil, eu também sou estatista, mas nessa hora o seu caso é urgente. Vamos logo abrir uma campanha a seu favor. Cada pessoa contribui com um poquinho e chegaremos lá”.

Este eu conheço pessoalmente e sei da honradez, ética e formação dele. Conheço muito de sua trajetória e de seu crescimento na luta.

Contudo, meu amigo Julcemar, há pessoas com quem nunca convivi pessoalmente, de quem nunca recebi nehum abraço e nem nunca cheirei o odor de sua pele nem mesmo vi o brilho de seus olhos que parecem “advinhar”, que são ricas do dom da solidariedade. Elas como que “enfiaram” os pés nos meus pruridos e resistências, convencendo-me a acolher a corrente de apoio que insistia em me encontrar e ajudar.

No outro dia, após o meu líder nos Correios me animar a acolher a solidariedade, entrou no radar quem, na verdade, já estava no âmbito da luta. A querida Professora Mirian Preto, esta gaúcha de Rosário do Sul, trabalhadora e lutadora em Cruz Alta, RS, (a quem insuficientemente já agradeci aqui), competente companheira do Canal Cartas Proféticas, com quem nunca me encontrei, exerceu a sua força de convencimento e me puxou para a “roda com a gente”. Somando-se a outras pessoas, encabeçou a campanha, cuidando dos contatos, da animação, gravação de vídeos e esclarecimento das pessoas. Como anjo entregou-se à vida orgânica da lista de relacionamentos dela e minha.

Outra pessoa com quem nunca falei nem nunca vi pessoalmente, mas de igual força feminina e vasta roda de influência, é a Professora Doutora Daniele Barbosa Bezerro, de Fortaleza, Ceará.

Dani e eu estivemos juntos no canal dela e no Cartas Proféticas. Participei online com ela e sua família de um ato litúrgico de um mês de falecimento de seu pai, que perdeu a vida em plena pandemia.

Tanto quanto Mirian, Dani é pessoa impressionante, ambas envoltas nesse imenso sofrimento de nosso país derrotado, esfrangalhado, atacado pelo neoliberalismo e o fascismo, professora massacrada pela imensa carga acadêmica à distância ( a quem também já agradeci insuficientemente aqui) pôs sua influência a funcionar junto a grandes sites e empresas, que não titubearam em solidarizar-se com este profeta (sobre os sites farei referência agradecida em outra oportunidade).

Outras pessoas se empenharam e se empenham como verdadeiras lideranças nesse movimento de solidariedade, meu irmão. A elas ainda me referirei.

Comecei esta Carta e Reflexão dirigindo-a a ti e assim a concluo.

Resolveste entrar na campanha em solidariedade à mim e da minhas cirurgias.

Ao contrário da Mirian e da Dani, nós dois nos vimos pessoalmente pelo menos uma vez. Quando eu soube que virias fazer exames num Hospital do Câncer em Goiânia, Go, fui ao teu encontro. Ali permanecemos algumas horas rezando e juntos enquanto fazias os as sondagens clínicas. Antes e depois tua imensa capacidade de relacionamento se encarregou de solidificar uma comunhão profunda entre nós.

Tenho orgulho agradecido por tua amizade. Desde nossa apresentação me informaste que és aposentado como motorista de ônibus. Isso me orgulha ainda mais em ser teu amigo.

Quando entraste nesta campanha te senti como o atento, competente e cuidadoso motorista que cuidou de mim como um passageiro de tua solidariedade.

Com os olhos no retrovisor me vias como um lutador, como um profeta e como um revolucionário, sem nenhum vício picareta do sistema burguês. Portanto, incapaz de explorar a boa fé pública.

Como motorista te mantiveste atento ao para-brisa na busca de apoios e na atenção a esta estrada obtusa e arriscada, prenhe de picaretas e caluniadores.

Com os pés nos pedais do velho ônibus da solidariedade aceleraste quando achaste necessário, fizeste as mudanças quando foi o caso e freaste quando na chegada da estação da primeira cirurgia.

Em tudo e em todas as situações foste e és solidário, como os trabalhadores sabem ser uns com os outros. Como um excelente motorista o é no cuidado de cada vida humana que transporta em seu ônibus.

Por isso me rendo em gratidão a ti,

Sobre esse tema tenho pensando.

O prof. português Dr. Antonio Nóvoa define a gratidão como ação humana que se dá em três níveis. Um o superficial, no racional. O outro no dever ser agradecido, segundo nível superficial e, o outro profundo, que se dá como “muito obrigado”, no sentido de que eu me obrigo a ser grato a ti pelo que representas a mim no que fazes (acesse vídeo abaixo).

Percebo que as pessoas dizem quase sempre “obrigado”, “muito obrigado”, “obrigada” e “muito obrigada”, mas sem a profundidade da relação no sentido da relevância do ser da outra a quem agradecem mecanicamente.

Por vezes a gratidão emperra em obstáculos que negam o outro, por isso se esfumaça.

Assim é com a erótica de caráter burguês. Há pessoas que só se interessam pelas outras quando buscam nelas o gozo, o prazer e a satisfação, impondo à outra a obrigação de realizá-los. Quando isso não ocorre ao invés de gratidão despejam ofensas, agressões, desrespeitos, rebaixamento, numa frase: procuram negar a outra sem nada relevarem nela como importante.

Claro, durante minha vida de lutas conhecei casais que se separaram por razões que não procurei conhecer e que continuaram belos e unidos na resistência. Estes eram unidos por mais do que o sexismo e a eroticidade burguesas. Por isso o respeito e a gratidão sempre demonstradas na perspectiva revolucionária.

Outras pessoas rebaixam o ímpeto da gratidão por não receberem flores e vantagens do outro. Mesmo que este seja exemplo na dedicação ao próximo e à causa da justiça seus valores são ignorados e a pessoa pisada. É evidente o obstáculo para a gratidão aí. Se não há o reconhecimento do outro também não há  como compartilhar gratidão.

Esse também é  caso quando determinada pessoa não esteja bem e se saia amarga, ou queria dizer uma coisa e pareça falar outra, tudo desanda, demonstrando que a gratidão quando aconteceu foi supérflua e oportunista, dependente da existência apenas do céu de brigadeiro e de jardins floridos.

E é incrível, já ouvi revolucionários afirmarem que não se agradece a dedicação de quem luta pela destruição da opressão por tratar-se de obrigação das pessoas.

Parece-me que tal postura resvala na vala comum e fria do automatismo oportunista dos que avaliam as pessoas somente pelo praticismo de ocasião.

Gratidão anima porque é valor da alma das pessoas que lutam com e por pessoas. Assim, vê o que há de mais precioso e digno de reforço nas que se dedicam e se consagram a vida inteira.

Também vi grandes revolucionári@s capazes de agradecer com o terceiro nível do professor Antonio Nóvoa, o mais prfundo d@s que se sentem devedores/as do próximo, sem se sentirem humilhadas ou empenhadas emocional e moralmente para sempre ao ponto de entregarem a vida em pagamento por favores.

Neste nível de pagamento não há favores nem pagamentos, mas relação de afeto que provoca gratidão.

Por isso sou profundamente agradecido a ti, meu irmão  Julcemar Guillardi

Muito obrigado por ti mesmo, meu amigo!

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

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